Kahn do Brasil
Anexo Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo
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- 23 de Outubro de 2009. Visitas: 21.403
A imagem em geral associada às edificações hospitalares no país está mudando, e não apenas com relação aos espaços internos. Ainda assim, apresentar um desenho mais arrojado não deixa de gerar certa incerteza quanto à aceitação por parte do cliente. Talvez por isso o arquiteto Arthur Brito, diretor de projetos do escritório Kahn do Brasil, não estivesse totalmente convicto quanto à acolhida que pudesse ter a alternativa por ele apresentada à direção do Hospital Israelita Albert Einstein para a implantação de um novo edifício no complexo (que considerava formalmente a mais ousada).
De fato, a volumetria do pavilhão desenhado pelo escritório é menos contida que as três principais construções do conjunto, criadas, sucessivamente, por Rino Levi, por Jorge Wilheim e pelo trio Jarbas Karman, Domingos Fiorentini e Wilheim. Isso sem contar a marquise de acesso do edifício de Levi, projetada por Siegbert Zanettini. A proposta do escritório Kahn - implantação não linear no lote, fachadas realçadas pelo uso de cores mais intensas e pela sobreposição de planos - procurava dissociar o visual do novo prédio daquele comumente adotado em hospitais, explica Brito.
O Pavilhão Vicky e Joseph Safra é o primeiro edifício a ser implantado a partir do atual plano diretor para ampliação e reforma das instalações do Einstein no bairro do Morumbi - também desenvolvida pelo escritório, essa proposta trabalha com um horizonte entre oito e dez anos e prevê a construção de cinco edificações. “Especialistas americanos em processos hospitalares do Kahn de Detroit colaboraram com a equipe de São Paulo, não apenas para ampliar o hospital, mas para avaliar e adaptar as melhores práticas”, informa Brito. Para aprimorar o atendimento das especialidades médicas, adotou-se a horizontalização das atividades, conceito que, segundo o arquiteto, integra as equipes, minimiza o número de funcionários assistenciais com os quais o paciente interage e reduz as chances de erro médico.
Também chamado Centro de Medicina Ambulatorial, o pavilhão é destinado a pacientes que necessitam de tratamentos mais simples, apartados daqueles que demandam procedimentos complexos. Ele é conectado ao prédio projetado por Karman, Fiorentini e Wilheim por uma passarela de pavimento único e por um edifício-passarela de seis andares. “Este reorganiza os padrões de circulação do hospital e leva visitas, acompanhantes e pacientes do ambulatório a transitar junto à fachada frontal do complexo. Isso melhora a orientação do visitante e diminui sua ansiedade”, comenta o autor. O edifício-passarela transpõe uma rua pública e funciona simbolicamente como portal de entrada para o conjunto remodelado. Com novas calçadas e iluminação, a rua transformou-se, hipoteticamente, em via interna do hospital.
Ocupando lote de cota mais baixa que a de seus antecessores, o centro ambulatorial foi desenhado de modo a diluir seu impacto tanto no bairro como no restante do conjunto. “O edifício não se impõe como um gigante ao paciente, mas abraça-o na entrada e o encaminha para o átrio e para a praça”, analisa Brito.
De forma simplificada, pode-se dizer que o pavilhão é definido por dois corpos principais que se ligam às torres cilíndricas de circulação posicionadas nas extremidades (duas) e no centro (uma) da edificação.
O acesso principal, no térreo, praticamente seciona o pavilhão em torre e embasamento. Este, semienterrado, é ocupado por setores que tiram proveito das áreas mais extensas, como os centros cirúrgico e de diagnósticos, enquanto a torre possui planta mais flexível na modulação de 8 x 8 metros. Na fachada, revestimentos cerâmicos alternam-se com faixas envidraçadas, resultando em uma interessante movimentação que, de acordo com Brito, busca reinterpretar a dinâmica das venezianas dos apartamentos do bloco A, desenhado por Karman, Fiorentini e Wilheim - que, por sua vez, inspira-se na edificação de Rino Levi.
Na chegada ao prédio, o desembarque se dá, segundo Brito, por um caminho cênico sob o edifício, para criar um clima mais ameno na entrada de pacientes e visitantes. No átrio ficam a recepção de pacientes e um café integrado à praça e a lojas de conveniência. No coroamento do edifício há a cobertura-jardim -“o hospital carece de locais ajardinados para convivência”, justifica o arquiteto. Junto à entrada, a praça, com vistas generosas para o entorno, é aberta à comunidade, ampliando a oferta de áreas verdes. “Apesar de o hospital ter se instalado antes do bairro residencial, o projeto oferece vários benefícios para a região, de forma a minimizar o impacto do programa”, conclui Brito.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 355 Setembro de 2009
Arthur Brito (FAU/USP, 2001) é diretor de projetos do estúdio Kahn do Brasil, formalmente constituído em 1998, embora suas atividades no país tenham se iniciado anos antes, através da matriz americana: o escritório Albert Kahn Associates, fundado em 1895, em Detroit, pelo arquiteto Albert Kahn, que o dirigiu até 1942, ano de sua morte
Diagnosticado o conflito entre o entorno residencial e o hospital, o trabalho apresentou, entre outras, as seguintes propostas: eliminar a utilização da avenida Albert Einstein como via de acesso para o hospital, tornando-a exclusivamente de acesso ao bairro residencial; determinar como acesso ao hospital a avenida Padre Lebret, sendo todas as acomodações viárias necessárias para a viabilização desse acesso realizadas dentro da propriedade do hospital, através da criação de uma nova via interna; fechar o acesso da rua Ruggero Fasano, no sentido bairro, impedindo a interligação do fluxo condizente ao hospital para dentro do bairro residencial; conectar os lotes pertencentes ao hospital através de interligações subterrâneas e aéreas mediante concessão de uso do espaço público desafetado (rua Ruggero Fasano). “Dentre as mudanças de parâmetros legais resultantes desse intenso diálogo foi possível conquistar modelos pouco usuais de inter-relação entre espaços públicos e privados na cidade de São Paulo”, avalia Adriana.


