Tod Williams e Billie Tsien
Natatorium, Bloomfield Hills, EUA
“Para treinar o corpo e o espírito”
 

O Natatorium é uma piscina coberta no campus da Universidade Cranbrook, em Bloomfield Hills, EUA.
A maioria dos históricos prédios universitários foi projetada por Eliel Saarinen e relaciona a arquitetura com a paisagem. A piscina integra uma série de novos edifícios que retomam, cada um com critério específico, os conceitos utilizados por Saarinen.

O edifício do Natatorium, que recebeu prêmio do American Institute of Architects (AIA) em 2001, é a primeira parte executada da ampliação do complexo esportivo da universidade, incompleto devido à paralisação das obras durante a crise econômica de 1929. Outras edificações para fins esportivos viriam a ser construídas 40 anos mais tarde, mas sem os cuidados que norteavam Saarinen.

A segunda parte, atualmente em curso, compreende um ginásio esportivo. Os dois são conectados ao antigo complexo, formando um só núcleo. Coerente com os princípios de Saarinen, o prédio é, segundo Williams e Tsien, “ao mesmo tempo, um elemento da paisagem”, numa integração que contou com o auxílio do paisagismo de Peter Osler.

O Natatorium está implantado em área em declive, acomodando-se no solo com a mesma delicadeza com que se acerca do edifício antigo, e marca um eixo de aproximação. Possui dois volumes que formam um L. O primeiro, irregular, abriga a entrada, a circulação, os vestiários e a conexão com a construção existente. No outro, maior e quadrangular, localiza-se a piscina.

Como ela foi projetada para competições, criou-se um acesso externo, situado no volume irregular. Essa irregularidade foi gerada através da sutil indicação do final do eixo que percorre boa parte do campus.

Nesse ponto, uma inflexão forma uma parede angulada, que abriga a circulação - rampas
e escada
-, transformada em percurso arquitetural.
A arquibancada está no mesmo nível do acesso principal, enquanto a piscina se encontra na cota da conexão com o edifício existente, realizada por meio de uma ponte.

No interior do volume
que abriga a piscina, seteiras com 6 m de altura, fechadas por lâminas pivotantes de madeira, permitem a entrada de ar, dispensando o emprego de ventilação mecânica. “É um edifício que respira”, dizem os autores. A saída do ar é realizada por duas grandes aberturas no forro, em forma de tronco de cone, fechadas por cobertura móvel.

Voltadas uma para o nascente e a outra para o poente, elas permitem também entrada de luz natural. Pequenos orifícios que abrigam luminárias completam o desenho do forro, transformando-o em uma constelação de luz. Há, entre a cobertura e o forro, espaço para a realização de trabalhos de manutenção, como troca de lâmpadas, sem paralisação das atividades esportivas.

Uma das principais características do trabalho de Williams e Tsien é o domínio das diversas escalas.
A escolha dos materiais, por exemplo, possui a mesma delicadeza e lirismo da implantação.

Há um trabalho exaustivo de texturas, acabamentos e desenho de aberturas. A integração entre o detalhe e o todo é incomum. O Natatorium “é um lugar para treinar o corpo e o espírito”, completam os arquitetos.

Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 261 Novembro 2001


Leia também uma entrevista com Billie Tsien
 
 
Marquise de acesso ao novo edifício
 
Revestimento externo: dois tipos de acabamento
 
Ponte liga o novo edifício (à direita) ao antigo
 
Arquibancada: no nível do acesso principal
 
Duas grandes aberturas garantem
iluminação e ventilação zenital
 
Pequenas aberturas no forro abrigam luminárias: constelação
 
Volume da piscina coberta
 
Seteiras: 6 m de altura para ventilação natural
 
   
Projeto retoma conceitos de Eliel Saarinen
 

A Universidade Cranbrook foi fundada nos anos 1920 pelo magnata da comunicação George Booth - criador do Detroit News -, que imaginava uma sociedade utópica no mundo industrial. Fiel ao espírito de filantropia da elite norte-americana, ele acreditava que poderia contribuir para melhorar a sociedade por intermédio da educação e da arte. Eliel Saarinen (1873-1950), arquiteto finlandês radicado nos EUA, trabalhou por 25 anos com Booth, transformando uma fazenda em um dos melhores exemplos de integração entre arquitetura e paisagem no país. Desenhou o plano geral e diversos edifícios da universidade.

A dupla tinha ainda uma interessante forma de integrar vida acadêmica e atlética - corpo e mente - que se expressa nas construções do campus. Ambos foram influenciados pelo movimento conhecido como arts and crafts, que valorizava o trabalho artesanal, gerando histórica polêmica com Henry Ford, que a poucos quilômetros dali criava a produção em série. Saarinen foi também diretor da Academia de Arte de Cranbrook de 1932 a 1948.

Subúrbio de Detroit, Cranbrook é ainda hoje um mundo à parte.
O campus passa por modernização, que retoma o espírito de Booth e Saarinen. Como conseqüência, nos últimos dez anos ganhou uma série de projetos, alguns já concluídos, de arquitetos como Peter Rose, Rafael Moneo, Juhani Pallasmaa, Steven Holl e Dan Hoffmann - este, como coordenador do Escritório de Arquitetura de Cranbrook, sucedeu Daniel Libeskind, que esteve na escola de 1976 a 1984.

 
 

Ficha Técnica
Natatorium
Local
Bloomfield Hills, EUA
Projeto
1996
Conclusão da obra 2001
Arquitetura

Tod Williams e Billie Tsien (autores); Martin Finio (coordenador); Kyra Clarkson, Leslie Carol Hanson e Vivian Wang (colaboradores)
Paisagismo
Peter Osler
Estrutura
Severud Associates:
Ed Messina e Brian Falconer
Instalações
Ambrosino, DePinto, and Schmeider - Domenick DePinto, Dennis Michel
Fotos
Michael Moran

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