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Para vencer o acidentado lote,
com quase 20 m de desnível e limitado por uma
rua e pelo mar, a concepção da casa
de veraneio, no litoral norte paulista, projetada
por Miguel Forte segmentou o programa em cinco partes:
estacionamento, casa de caseiro, dois blocos da casa
principal e piscina.
É o mais recente trabalho do autor de célebres
casas wrightianas, que, aos 86 anos, leciona na FAU-Mackenzie,
em São Paulo.
Das curvas de nível e do paralelismo à
curvatura da rua nasceram os dois ângulos que
definem a distribuição da edificação.
Para quem olha da rua para o mar, a seqüência
de construções à direita - pátio
de estacionamento e volume dos quartos - possui ângulo
diferente daquele em que se implantam as três
à esquerda - casa do caseiro, volume do estar/serviços
e piscina.
O platô destinado ao pátio de estacionamento
dá início ao acesso à casa. Esse
espaço é delimitado e contido por planos
inclinados de pedra, à moda de fortalezas construídas
à beira-mar. O percurso em direção
à entrada principal é realizado por duas
rampas, espécie de passeio arquitetônico.
O primeiro bloco construído, junto à
rua, destina-se
à residência do caseiro e à churrasqueira.
O segundo, maior e principal, abriga a residência
propriamente dita e se divide em dois volumes distintos:
dormitórios e estar/serviços, cobertos
por telhados de duas águas. A articulação
entre eles é marcada por uma rótula, coroada
por um mirante, onde está também implantada
a caixa-d´água.
A construção principal tem três
pisos. Na cota mais alta estão os três
dormitórios, cuja galeria de acesso situa-se
junto à entrada e possui fechamento em treliças
de madeira pintada com tons vivos. “Nesse projeto, desenvolvi
uma arquitetura que não tivesse caráter
urbano”, revela Forte, aludindo às cores dos
caixilhos. Elementos a 45 º - decks, floreiras, pérgulas
- marcam a interface entre os dormitórios e a
vista para o mar.
O segundo piso está implantado no outro volume,
em cota pouco abaixo do nível dos dormitórios,
e destina-se a áreas de estar e serviços.
Não há portas ou caixilhos em grande parte
desse setor, interligado à piscina - que, para
manter-se na mesma cota, eleva-se do terreno e é
circundada por deques de madeira.
O terceiro piso da construção principal
é ocupado por dois quartos para hóspedes,
situados sob os dormitórios principais. A estrutura
de concreto da casa é ressaltada pela cor amarela,
usada também no piso de cimento. Parte do
mobiliário - por exemplo, os bancos fixos
de madeira - foi desenhada por Forte, uma constante
em sua obra desde os tempos da loja Branco e Preto.
Esta casa é uma das oito que Forte projetou
nos últimos 30 anos na praia do Pinto, em
Ilhabela, local que conheceu na década de 70,
quando passou ali alguns finais de semana hospedado
na casa de Roberto Aflalo. Em uma dessas visitas, o
filho de Forte adquiriu terrenos ali.
O arquiteto iniciou a reurbanização da
gleba, até então ocupada por habitações
de caiçaras e com pouca vegetação.
Tirando partido das condições topográficas,
fez intervenções urbanísticas e
criou uma espécie de reserva paisagística,
com o auxílio de Irene Ruchti.
Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 262 Dezembro 2001
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