LUCIO COSTA, 100 ANOS
O pêndulo de Lucio Costa
 

“Durante os momentos decisivos da formação da arquitetura moderna no Brasil, o dr. Lucio demonstrou que prancheta e escrita podiam e deviam convergir num mesmo ideal de vida e estilo.” Otília Arantes

Ele construiu pouco
, quase não detalhava os projetos e em raros momentos teve, formalmente, um escritório de arquitetura. Funcionário público durante quase toda a vida, escreveu muito.
Era uma figura tímida
- “parecia querer se ocultar de tudo e de todos”, disse seu colega de repartição Carlos Drummond de Andrade. Mas nesse aspecto fracassou. Lucio Costa, cujo centenário se comemora neste ano, é figura-chave da arquitetura moderna no Brasil: mentor de uma reforma do ensino, articulador de um dos principais edifícios do movimento moderno, o Ministério da Educação e Saúde Pública, autor de textos clássicos da historiografia arquitetônica brasileira e das normas de preservação do patrimônio histórico nacional.
E, além de obras-primas como o Park Hotel São Clemente e o Parque Guinle, é, fundamentalmente,
o criador de Brasília, um dos principais planos urbanísticos do século 20.

Lucio Costa não introduziu o modernismo no Brasil, mas foi o principal condutor do amadurecimento da arquitetura moderna brasileira. E fez isso com a discrição de um erudito que, no percurso da história, ora acelera e, anos depois, pisa no freio, em movimento pendular entre o passado e o futuro. Filho de brasileiros, ele nasceu em Toulon, França, em 27 de fevereiro de 1902. Seu pai, engenheiro naval, passava longas temporadas de trabalho no exterior. Por isso, Costa fez seus primeiros estudos em escolas na Inglaterra, França e Suíça.

Quando estava com 14 anos, a família retornou ao Brasil e se estabeleceu no Rio de Janeiro. Matriculado na Enba - Escola Nacional de Belas-Artes, onde se formou arquiteto em 1924, ele trabalhou como desenhista em escritórios técnicos e, em 1922, associou-se ao colega Fernando Valentim. Dessa sociedade, que durou até 1929, nasceram casas ecléticas e, sobretudo, neocoloniais, uma espécie de estilo de vanguarda da época. Em 1927, depois de longa temporada na Europa, volta às cidades mineiras, que percorrera em 1924, e diz perceber o “equívoco do estilo neocolonial”.

Em 1930, instalado em Petrópolis-RJ, a vida profissional de Costa e a arquitetura brasileira começaram a mudar. Nesse ano, sem conhecer as idéias da vanguarda européia, foi incumbido por Rodrigo Mello Franco de Andrade de reorganizar o ensino de belas-artes. Radical, a famosa reforma do ensino na Enba propunha o afastamento do neocolonial e o alinhamento com o movimento moderno. Como tinha amplos poderes, Lucio Costa trouxe para lecionar na Enba, entre outros, o arquiteto russo Gregori Warchavchik. Depois de uma batalha pública com os arquitetos que defendiam o neocolonial, foi afastado da direção da escola. Apesar de não ter dado certo, a reforma trouxe resultados positivos. O mais imediato foi a montagem do Salão de 1931, que, com a participação de artistas modernos como Cândido Portinari e Di Cavalcanti, é considerada a primeira exposição oficial de arte moderna.

Houve ainda a repercussão positiva entre os alunos, mais tarde, importantes personagens da arquitetura moderna no país, que fizeram greve contra a saída do diretor. Outro reflexo indireto foi
a sociedade que Lucio Costa manteve com Warchavchik entre 1931 e 1933. São desse período as primeiras obras de inspiração moderna executadas por ele, como a residência Schwartz
e o conjunto para operários na Gamboa, ambas de 1932 e construídas no Rio. Lucio Costa deve a Warchavchik e a Carlos Leão (com quem foi associado de 1933 a 1935) o contato com a obra de Le Corbusier. Em 1934, Costa participou de concurso para uma vila operária em Monlevade-MG, seu primeiro projeto urbanístico, que possui unidades assemelhadas à Maison Loucheur, desenvolvida por Le Corbusier em 1929.

Em 1936, depois de tumultuado processo
que envolveu a anulação de um concurso, Lucio Costa foi designado pelo ministro Gustavo Capanema para projetar o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, atual Palácio Gustavo de Capanema, no Rio de Janeiro. Formada uma equipe de arquitetos cariocas (Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos, Jorge Machado Moreira e Oscar Niemeyer), ele insistiu com o ministro e com o presidente Getúlio Vargas até viabilizar a ida de
Le Corbusier
ao Rio, onde este ficou por quatro semanas, como consultor.

O projeto, marco internacional da arquitetura moderna, foi o primeiro em grande escala a aplicar os cinco pontos da arquitetura postulados por Le Corbusier: planta livre, fachada livre, pilotis, teto-jardim e aberturas horizontais. Foi também o primeiro edifício desse porte a utilizar a cortina de vidro e brises móveis. O projeto marca a revelação de Oscar Niemeyer, que integrou a equipe por ser desenhista de Lucio Costa.

Em 1937, quando foi criado o Sphan - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rodrigo Mello Franco de Andrade convidou Costa para trabalhar como diretor da Divisão de Estudos e Tombamentos. Iniciou-se aí seu trabalho no patrimônio, do qual se afastaria somente em 1972, ao se aposentar. Além de criar critérios e normas para classificação, análise e tombamento de edifícios no Brasil, Lucio Costa desenvolveu projetos para o Sphan, como o museu em São Miguel das Missões-RS, projetado em 1937 e parcialmente construído, e as rampas do outeiro da Glória, no Rio de Janeiro. Abriu, assim, caminho para profissionais que se dividem entre o trabalho de arquiteto e a atuação em órgãos do patrimônio, como Alcides da Rocha Miranda, Acácio Gil Borsoi e José Guilherme Savoy de Castro.

No final da década de 1930, Lucio Costa ganhou o concurso para o Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York, de 1939. Surpreendendo a todos, ele convida Niemeyer (que participara com outra proposta) para criarem, juntos, um terceiro projeto, apontado pela mídia internacional como dos mais significativos da feira.

Na década de 1940, Lucio Costa criou seus mais destacados projetos arquitetônicos. Ele parece definir, então, uma rota alternativa para o desenvolvimento da arquitetura moderna, construindo uma ponte mais clara entre os edifícios do passado, principalmente luso-brasileiros, e o modernismo. Evoca a “síntese entre a tradição local e o movimento moderno”, mesclando elementos da arquitetura ancestral com o moderno de Le Corbusier.

Entre esses projetos estão a residência Hungria Machado (atual consulado da Rússia), no Rio de Janeiro, e a casa de veraneio do barão de Saavedra, em Petrópolis. Mas os dois trabalhos que demonstram a maturidade da obra de Lucio Costa foram encomendados pela família Guinle. O primeiro, o Park Hotel São Clemente, é uma pequena obra-prima, localizado em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, e projetado em 1944. Em seus 12 quartos, o autor não se intimidou em utilizar materiais da região, como a estrutura de eucaliptos. Os fechamentos são em alvenaria, madeira e pedra. É o espírito moderno com a técnica local. Segundo Yves Bruand, o hotel é “uma criação cuja simplicidade aparente é, na realidade, a expressão de soberbo refinamento”.

No final da década de 40, realizou o segundo projeto para os Guinle: um conjunto de edifícios residenciais em meio ao bosque em que estava implantada a residência da família, em Laranjeiras, no centro do Rio. Denominado Parque Guinle,
o conjunto tinha seis edifícios, mas somente os três primeiros foram construídos. Os prismas ortogonais erguidos sobre pilotis eram, segundo o autor, “prenúncio das superquadras de Brasília”.
Os edifícios mesclam elementos contemporâneos, como a fachada em pano de vidro ou escadas de caracol envoltas em caixilharia de vidro, com um rendilhado de elementos vazados cerâmicos e brises verticais nas faces voltadas para o parque, expressão da graciosidade e delicadeza de que a arquitetura brasileira era capaz. Ele utilizou os mais interessantes elementos antigos: treliças, muxarabis, telhas de barro, persianas. Deve-se a Lucio Costa, em grande parte, a difusão desses elementos, que consagraram a arquitetura de Affonso Reidy, Jorge Moreira, Rino Levi ou Oswaldo Bratke. Ele ainda influenciou diretamente inúmeros profissionais como Francisco Bolonha, Alcides da Rocha Miranda, Sérgio Rodrigues, Zanine Caldas, Delfim Amorim, Luis Paulo Conde e James Lawrence Vianna, entre outros.

Entre 1952 e 1953, Costa fez parte do comitê de cinco arquitetos (o alemão Walter Gropius, Le Corbusier, o sueco Sven Markelius e o italiano Ernesto Rogers) encarregados de elaborar o projeto da Unesco, em Paris. Esse comitê, após rejeitar o projeto do francês Eugène Beaudoin, auxiliou na proposta do trio composto por Marcel Breuer, Pier Luigi Nervi e Bernard Zehrfuss. Durante a estada
na capital francesa, o arquiteto brasileiro começou
o projeto da Casa do Brasil, em Paris (1952), cujo detalhamento foi confiado a Le Cobusier como agradecimento pelo risco original do Mesp.
Nessa década, Costa desenhou alguns projetos que parecem, de novo, acelerar o processo de desenvolvimento da arquitetura brasileira, como a não-executada igreja no Forte de Copacabana (1953) e a sede social do Jockey Club do Brasil (1956), no centro do Rio.

Brasília
, um dos marcos do urbanismo do século 20, é a principal impulsionadora da arquitetura brasileira. Sem equipe e com poucos desenhos, mas munido de um belíssimo memorial descritivo, o projeto de Lucio foi considerado pelo júri o único adequado a uma capital. Na tradição de Niemeyer, um gesto definiu o projeto. A proposta alia monumentalidade e clareza: na era do automóvel, suprimiu, com o uso de trevos, os cruzamentos nas vias.
O desenho
, simples, parte do ato de tomar posse de algo. Na interseção de dois eixos, um público e um privado, o projeto adapta-se à topografia e à orientação, e contém os principais aspectos do urbanismo de Le Corbusier, mas com originalidade. No Eixo Monumental, espinha dorsal da cidade, Costa definiu a implantação dos edifícios principais, desenhados por Niemeyer.
Nas asas, o outro vetor, estão as superquadras, unidades de vizinhança compostas por 11 prédios de cinco andares e uma escola primária. No cruzamento entre os dois eixos, desenhou a estação rodoviária e a torre de televisão (1959).

Após Brasília, Lucio Costa foi convidado a desenvolver projetos na Itália, Nigéria e Marrocos. No Brasil, fez estudos para Salvador, São Luís e para a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Em 1985, voltou a Brasília para projetar quadras econômicas, nos arredores da capital. Seus últimos projetos são singelas residências unifamiliares: treliças, muxarabis e escadas com pequenos degraus de convite e guarda-corpos trabalhados.

 
 
Ministério da Educação, Rio de Janeiro (1936-45)
Fotos
: Nelson Kon
 
 
Brasília-DF (1957)
 
 
Park Guinle, Rio de Janeiro (1948-54)
 
 
Park Hotel, São Clemente, Nova Friburgo-RJ (1944-45)
 
Vila Operária, Monlevade-MG (1934)
 
Casa do Brasil, em Paris (1952), com Le Corbusier
Foto: Fondation Le Corbusier
 
Cobertas por telhas de barro, por vezes possuem estrutura de madeira, como nas três casas que projetou para o poeta Thiago de Mello, em Barreirinha-AM.

Lucio Costa manteve, ao longo da vida, uma relação quase paterna - no sentido de orientar, apontar caminhos - com a arquitetura brasileira. Pouco antes de morrer, aos 96 anos, no Rio de Janeiro, sugeriu, no enigmático final de sua biografia, a vontade de “passar a peteca”, que, como ele mesmo afirmou, “é luminosa e leve - mas tem carga latente”.

 
Nota:
As principais fontes para a elaboração deste texto foram: Arquitetura contemporânea brasileira, de Yves Bruand, 1981; Lucio Costa: registro de uma vivência, de Lucio Costa, 1995; Lucio Costa, de Guilherme Wisnik, 2001;
Arquiteturas no Brasil, 1900-1990, Hugo Segawa, 1998; “Lucio Costa e a ´boa causa´ da arquitetura moderna” de Otília Arantes, em Sentido da formação, de Otília e Paulo Eduardo Arantes, 1997
 
 
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