Paulo Mendes da Rocha
Casa Gerassi, São Paulo-SP
O Milagre da Casa Gerassi
 

Texto: Ana Vaz Milheiro, da revista J.A
Fotos: Antonio Gerassi

Qualquer leitura clássica, por parte da crítica, do valor da Casa Gerassi fica comprometida, já que se torna insuficiente e ruidosa. Mas pode-se propor como demonstração da nossa própria incapacidade em construir uma fórmula alternativa de aproximação ao significado desta casa. Detecta-se no projeto de Paulo Mendes da Rocha toda a aprendizagem moderna, que se indicia aqui como um modo muito próprio de citação, recurso habitual da prática arquitetônica que a crítica sempre privilegia como ponto de observação.

A Casa Gerassi não se inibe de usar a história. Eleva-se do chão, libertando o solo para usos diversos, ampliando assim a liberdade de movimentos dos seus habitantes, tal como as casas modernas o demonstraram primeiro através de elegantes pilotis e posteriormente com tudo o que as tecnologias de construção permitissem em resoluções cada vez mais audaciosas. A tradição brasileira, essa, transformou este postulado numa marca e numa configuração.

Depois, desenvolve-se num piso único
que é o térreo suspenso, propósito de economia que se reflete no tratamento interior, sem desperdício de funções domésticas que separem a família em compartimentos esdrúxulos. Propõe, assim, uma
vida familiar que se aproxima da convivência mais ancestral, com os quartos que comunicam diretamente para a sala de uso coletivo.
A análise da planta comprova a eficácia do programa dividido em áreas funcionais demarcadas - serviços, estar e dormir -, ainda que formalizando um espaço fluido, sem barreiras ou áreas de circulação que funcionem como obstáculos.

Nesse sentido, pode ser interpretada como uma oposição ao espaço pós-moderno preferido por certas elites brasileiras, que vêem na compartimentação da casa um modo de afirmação e status. Beneficia, portanto, de todos os apuramentos anteriores que ditaram a disposição do ambiente doméstico durante o século XX, reforçando a importância das melhores orientações solares e climáticas.

Por fim, o recurso à pré-fabricação que também foi uma decorrência do discurso moderno.
Principalmente entre algumas gerações de arquitetos oriundos de países como o Brasil, que vislumbraram neste sistema uma solução a médio prazo para o problema da habitação popular, o que não haveria de cumprir-se por razões estranhas à cultura arquitetônica, ainda que também por desencanto da classe profissional que não se organizou para realizar a “revolução necessária” que permitiria atingir um estágio de produção massiva e contínua.

No caso brasileiro, ainda, a importância que o sistema construtivo assumiria na configuração formal da arquitetura revelar-se-ia um dos seus contributos mais celebrados internacionalmente. E a Casa Gerassi poderia, nesta visão unívoca, ser reduzida
a herdeira de duas outras moradas paulistanas extraordinárias do arquiteto Vilanova Artigas:
a Casa Mendes André (1966), também de programa moderno, suspensa do solo e configurada pelo sistema construtivo proposto na sua execução: uma treliça em que a tração e a compressão se expõem.

E a Casa Telmo Porto (1968), de sofisticado aprumo tecnológico, elevada num pilar único, cujo processo construtivo se completa com mais três elementos: duas paredes de carga , vigas pré-fabricadas de cobertura e laje. Todos os ensinamentos, então, compactados numa só casa.
Mas pouco do que foi dito esclarece quanto ao que a Casa Gerassi representa.

Que milagre opera a Casa Gerassi? Não será tanto o da multiplicação, que o sistema construtivo, por evocar a pré-fabricação, sugere. Antes o que essa sugestão carrega: a demonstração da simplicidade aparente do ato de construir.

Mendes da Rocha reduz esse esforço a uma evidência que se cumpre na facilidade do gesto. Uma estratégia muito mais larga do que somente resolver os problemas que se colocam à carência habitacional em grande escala no seu país, provavelmente o primeiro argumento em que se pensa quando se fala de pré-fabricação. Porque seria muito mais fácil justificar a Casa Gerassi, nesse sentido restrito, como uma espécie de manifesto do arquiteto, uma postura afirmativa em face do mundo e das especificidades da sociedade em que trabalha.

Não é que o não seja. Obviamente que a Casa Gerassi também transporta esse desejo de não existir como artefato isolado, mas de em si representar uma hipótese. Só que esta não se espelha na reprodução do sistema, mas no uso instrumental das suas virtudes. Mais do que isso, significaria um alerta para as infinitas possibilidades que qualquer sistema construtivo expõe quando o arquiteto o interroga.

Assim, o que estaria em causa na Casa Gerassi não seria o pressuposto da pré-fabricação, mas a reflexão sobre a velha relação entre construção e arquitetura
. O que Mendes da Rocha encontrou e é raro achar-se, mesmo na vida de um arquiteto, é a matriz ou a origem.

A Casa Gerassi transforma-se então num objeto claro, saído de uma intenção firme, porque produto de um instinto primitivo e universal. Dir-se-ia que cumpre com exatidão a função de abrigo que é uma necessidade ancestral, uma vez que nela o homem tudo aposta, gerindo a cada novo momento da sua história o equilíbrio preciso entre construir e habitar.

Por isso não é obra, como gostaria Mendes da Rocha, da ingenuidade pueril da infância, antes da clarividência que só a experiência pode almejar.
É preciso um homem despojar-se para a imaginar, condição que se alcança como prêmio de um percurso não necessariamente longo, contudo, vivificado. Até porque, ao contrário do que muitos fazem crer, não é a velhice um estágio de acomodação. Corresponde, isso sim, a um apuramento do foco principal dos desejos.

Revela-se numa resistência que se radicaliza como único modo íntegro de agir. O arquiteto despoja-se da tentação de mostrar sob uma forma figurativa o conhecimento acumulado, de dar vazão aos hábitos do desenho continuamente ensaiado em anos de prática, de causar espanto nos outros com uma materialização inusitada.

A Casa Gerassi surpreende pelas razões contrárias. Porque está ali, aparentemente, ao alcance de qualquer imaginação. Um vestígio de humanidade num mundo de degenerados. Como no conto de Borges, que afinal é uma parábola sobre a perversidade do conhecimento sofisticado, já que, fatalmente, este acabará por se transformar em barbárie, afastando-se com tal intensidade das suas raízes que estas se tornarão irreconhecíveis.
Num enquadramento erudito, do gênero que tanto desagrada a Mendes Rocha, este é o seu modo de se comunicar com homens afins.

Também é uma maneira possível, entre um universo lato, de regenerar a arquitetura contemporânea, elegendo novamente pontos de aproximação simples e imediatos com essa sabedoria primordial que é construir. Como se tivesse sido um fato omitido durante muito tempo e fosse agora necessário resgatá-lo. Porque construir não se esgota na qualidade do detalhe e do encaixe, nem no virtuosismo do pedreiro, mas encerra o domínio instrumental das técnicas usadas de acordo com a demanda. Esse é simultaneamente o destino e o milagre da Casa Gerassi.

Texto da arquiteta Ana Vaz Milheiro, da revista
Jornal Arquitectos
, publicação bimestral da Ordem
dos Arquitectos de Portugal. Agradecemos a gentilileza
da autorização para reprodução deste artigo

 
Vista para a rua: aberturas generosas
 
Fachada: veja também o depoimento de Paulo Mendes da Rocha
 
Interior, marcado por grandes aberturas e ladrilhos hidráulicos especialmente desenhados para o piso
 
Abertura na laje de cobertura proporcionar luz adicional
 
Piscina: uma "lagoa de concreto"
revestida com ladrilhos hidráulicos
 
Detalhe do volume de acesso
 
Iluminação natural
 
Linguagem do pré-fabricado: componentes, juntas, parafusos permitem a compreensão do processo construtivo
 
Caixilharia na fachada lateral
 
   
Detalhe dos guarda-corpos

Ficha Técnica
Casa Gerassi
Local
São Paulo-SP
Projeto
1990
Execução
1991
Arquitetura
Paulo Mendes
da Rocha
Estrutura
Reago Construções
Construção

Antonio Gerassi
Fotos
Antonio Gerassi

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