Paulo Mendes da Rocha
Casa Gerassi, São Paulo-SP
Duas Palavras
 

Um depoimento de Paulo Mendes da Rocha
sobre o projeto da Casa Gerassi


Texto de Ana Vaz Milheiro, da revista J.A
Fotos: Antonio Gerassi

“Duas palavras sobre a Casa Gerassi. Em princípio, há uma questão muito intrigante: você pode fazer uma casa com o material que tiver. Isso não é jogo de palavras. É uma verdade absoluta. Se possui só lixo, você faz uma bela casa na favela. Um arquiteto, então, surge do povo e faz uma casa linda.

Havia também a questão que eu não gosto de fazer casas porque, seriamente, em São Paulo é uma bobagem fazer uma casa isolada. São quinhentos, seiscentos, setecentos metros quadrados de terreno para fazer uma casa... Mas existem esses loteamentos, ou seja, o terreno estava lá para a fazer. E, com essa idéia de que se pode fazer uma casa com qualquer material, pode-se fazer exercício em torno dela. Não sei por que é que me ocorreu que alguma coisa se podia fazer, sem saber qual seria no caso.

Pensei, nessa intrigante questão
: que para resolver o problema da habitação popular se usa empregar alta técnica de pré-fabricação, fazer em série etc.
E, com isso, estigmatizou-se que pré-fabricado é uma porcaria, que é para pobre, porque cria padrão; que o arquiteto não tem liberdade para fazer o que imagina, se está submetido a uma técnica rigorosa.”

“Veio-me procurar uma pessoa que eu não conhecia [para encomendar o projeto de uma casa]. Eu descobri que era engenheiro. E pensei que poderia seduzir esse engenheiro pela racionalidade dele, pela inteligência peculiar da sua formação. Comecei a falar de custos, de tempo de construção e da beleza da técnica límpida...

Era uma casa para um casal com duas filhinhas, hoje os meus queridos amigos Antônio e Maria Angélica. Mostrei-lhe que se tivesse todo aquele terreno [do lote] para brincar, para piscina, para jardim, se fizéssemos uma casa elevada e se a fizéssemos pré-fabricada, montava-se em três dias
e ia custar metade do preço. Ele não tinha pensado nisso. Começou a se interessar.

Chamei os técnicos
de uma fábrica de pré-fabricados. Fizemos uma reunião conjunta, para [o cliente] confirmar as virtudes daquilo. Os técnicos precisavam de dois ou três meses para fabricar as peças, porque não têm estoque, mas [confirmaram que] uma vez fabricadas montava-se a casa em três dias. Depois só ficava a parte de acabamentos. Representava um sucesso extraordinário quanto à eficácia do ato de construir. Construir com eficiência, a casa custa metade do preço. Ele se entusiasmou tanto, que eu fiz. Chamei esses técnicos; acertamos as peças que eles tinham de elenco.

Montamos a casa
, que, de fato, começou quinta-feira e sábado, ao meio-dia, tinha terminado. No dia da montagem da estrutura juntou-se a população da vizinhança toda na calçada. Quiseram embargar a obra porque diziam que aquele bairro era exclusivamente habitacional, ou seja, aquele extraordinário evento não podia ser uma casa.
Não pela forma
, que não estavam entendendo bem o que era. Mas pelo extraordinário evento que se deu ali: caminhões que entraram com gruas e guinchos.

Então foi uma demonstração extraordinária, mesmo para mim, e para todos, porque alguns desses episódios eu não esperava, principalmente que juntasse a população. Ao mesmo tempo acho que foi possível engendrar uma casinha tão gentil com todos os recursos da poesia da casa, da simplicidade de se morar ali, que se realiza tão bem.”

“E também nessa casa tive o prazer de ver essa essencialidade, o que as virtudes da própria pré-fabricação, por sua vez, passam até a exigir.
Não se vai empastelar aquilo tudo, que depois não se sabe mais o que era. Antes se deixa ali aquele esqueleto cru, com os seus caixilhos de cristal, tudo aparafusado uma coisa na outra, como se os pedaços com que foi feito servissem sempre até o fim. Mesmo depois de acabada, com os seus requintes e detalhes, não se deformasse quanto à possibilidade de se desmontar tudo inteiro e montar tudo de novo. Uma coisa que criança gostaria.”

“Tenho uma atração muito grande por essa idéia de ‘meninos engenhosos’. Você se deforma com a erudição. Ou pode se deformar. Tomara que não se deformasse. Bendita erudição! Não estou defendendo o obscurantismo. Mas é muito possível você se deformar por uma visão errática de uma mentalidade erudita, que te obriga a fazer as coisas. Você perde a liberdade. Tenho a impressão que um momento de grande sabedoria pode-se associar - numa visão até certo ponto fantasiosa, literária - à idéia de ‘menino engenhoso’, que você vê logo como é que fez aquilo e, entretanto, é surpreendente o que ele fez. Como se fosse o conhecimento inaugurado naquele instante, com a simplicidade que precisa ter: momento de inércia, momento fletor, carga na fundação... coisas muito simples. Mesmo ver as peças antes, para montar uma casa, é muito de jogo.”

“Em rigor são três peças: vigas, pilares e lajes. Elementos que engendram uma série de decorrências, como se fosse música. Sendo assim, a obrigação a que eu me impus, e que o próprio sistema impõe do ponto de vista ético e estético, associados como uma coisa só, é manter a dignidade do sistema. Para realizar essa doçura da casa você se obriga - ou, se não se obriga, não me lembrei de recurso melhor -, a argumentos assim: o pequeno ladrilho hidráulico colorido no chão. O que fica muito bem como acabamento desse tipo de estrutura, porque é ligeiro, com poucos milímetros
de espessura.

Esse colorido de estampado de casas pernambucanas faz a casa. Como se tivesse acabado de chover, ou como se fosse lavar a casa. Como é lindo ver aquilo, uma parte que bate sol, outra que está em sombra. É muito lindo. Você vê que recursos de desenhos, de artefatos, da cultura popular não necessitam que você faça uma casa ‘estilo isto’ ou ‘estilo aquilo’, que é uma questão muito ligada à idéia de contexto, às vezes, mal-interpretada. É uma visão fragmentária do discurso, como se os elementos construtivos fossem palavras na literatura. Então você pega aquela palavra e organiza o texto todo - a palavra que faltava.

Portanto, não é o discurso que é contextual.

São as palavras que são oportunas e você volta a dizer a mesma coisa, porém, de novo e não com as mesmas coisas, desde que o arranjo seja outro, o que é muito interessante.”

Há aspectos eminentemente técnicos
- que não são tanto da tecnologia da construção - também muito interessantes: como restituir o terreno todo, a área toda do lote, para diversão das crianças. Você começa a pensar: qual é o espaço da brincadeira? Qual é o espaço da piscina? Qual é o espaço do jardim? Qual é o espaço para guardar os automóveis? Ou então: qual é o espaço de área de recepção vestibular da casa? Por que não o terreno todo coberto pela área da casa suspensa num andar só?

 
Fachada, numa rua tranquila do Alto de Pinheiros, em São Paulo
 
Vista para a rua: notar os ladrilhos hidráulicos do piso
 
 
Corte longitudinal
 
Planta do pavimento único
 
Térreo: acesso
 
 
Tudo isso é muito elegante, muito estratégico e daí a idéia dos ‘meninos engenhosos’. Quase se envergonhando por ser um arquiteto com mais de 40 anos... E não fazer tudo com essa simplicidade há mais tempo. Uma desmistificação do conhecimento, porque a única coisa para que o conhecimento serve é justamente para mostrar que tudo é muito fácil.”

Existem mais de 20 destas indústrias (que produzem elementos pré-fabricados para construção) em São Paulo. Têm sucesso porque, já que é assim tão eficiente, rápido de construir e econômico, usa-se para (edificar) galpões (armazéns) industriais. Se menospreza como instrumento requintado de construir o excelente, o supra-sumo do sonho e da fantasia, que é ‘a minha casinha’.

Essa demonstração me valeu muito e posso dizer que a virtude, inclusive, é do dono da casa. Você tem que considerar uma obra acabada como um empreendimento que não é seu - do arquiteto - porque demanda essa confiança do outro. Quando eu consegui seduzir, ou convencer, o dono da casa de que este era o melhor modo de fazer e ele falou: ‘Você tem razão’, foi um momento maravilhoso, solidário.”

“Outra coisa interessante de se considerar nessas casas elevadas é que se você quiser botar ali dez andares, um em cima do outro, é só progredir a escada - vai entrando na porta social e de serviço - e colocar o elevador na frente. Então, um terreno cinco vezes aquele, que seria o exigido para cinco casas, daria um parque lindo para as crianças. Se bem que não teria aquela estrutura, mas poderia fazer-se com o mesmo sistema.”

Texto da arquiteta Ana Vaz Milheiro, da revista
Jornal Arquitectos
, publicação bimestral da Ordem dos Arquitectos de Portugal. Agradecemos a gentilileza da autorização para reprodução deste artigo

 
   
Veja também o artigo " O milagre da Casa Gerassi "

Ficha Técnica
Casa Gerassi
Local
São Paulo-SP
Projeto
1990
Execução
1991
Arquitetura
Paulo Mendes
da Rocha
Estrutura
Reago Construções
Construção
Antonio Gerassi
Fotos
Antonio Gerassi

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