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O Teatro Municipal de Mauá,
cidade da região do ABC paulista, foi projetado
por Rafael Perrone e responde a uma demanda antiga do
município, que não possuía nenhum
espaço cênico. Localizado no centro da
cidade, o teatro ocupa local de destaque na paisagem
urbana, compondo, juntamente com a prefeitura e o fórum,
o paço municipal. Ele permite leituras diferentes
nas escalas do transeunte e do visitante.
No final da década passada, a prefeitura
de Mauá encomendou a Rafael Perrone o projeto
de um centro cultural, que recebeu o Prêmio Carlos
Barjas Millan do IAB-SP, em 1999. Depois de pronto o
projeto executivo, um estudo de viabilidade econômica
constatou a falta de verba para a construção
do espaço, cujo programa era composto de teatro,
biblioteca e áreas de exposição.
Foi solicitada uma segunda proposta, que se concentrou
no teatro. Alguns elementos - como as cores fortes,
o pano de vidro protegido por telas e a estrutura metálica
- aproximam os dois projetos.
No mais recente, porém, a geometria foi completamente
refeita para acomodar o programa mais enxuto.
O edifício abriga um teatro para 450 lugares,
salas de oficinas, exposições - que acontecem
no foyer-, além de áreas para a Secretaria
Municipal da Cultura.
O terreno é privilegiado e pode ser visualizado
em todas as faces. O acesso principal abre-se para o
centro cívico; em sua lateral direita está
a principal avenida da cidade; ao fundo, há um
complexo viário e, na lateral esquerda, um rio.
O edifício possui qualidades que superam as dificuldades
encontradas, geralmente, em obras públicas.
A relação do desenho do teatro com as
diferentes escalas do entorno é uma das virtudes
do projeto. Ele possui duas leituras diferenciadas,
que oscilam entre a rusticidade e a delicadeza, entre
a opacidade e a transparência.
A primeira dessas leituras destina-se à
escala urbana, dos transeuntes. O prédio
é visualizado como um objeto: o arquiteto criou
volumes geométricos simples, de fácil
apreensão, revestidos com massa texturizada
de cores fortes (vermelho, amarelo, azul e roxo).
Ali - onde estão implantados os ambientes fechados
do programa - impera a rusticidade, dada pela textura
e pelo hermetismo, onde há predominância
de cheios sobre vazios.
Esses blocos coloridos contrastam com o maior
e principal, branco, que em planta possui a forma de
um triângulo equilátero e abriga a platéia.
Nos outros volumes estão a caixa do palco (azul)
e os camarins (também branco, com três
pisos).
Em todos eles, a estrutura de concreto está camuflada
pelo revestimento.
A segunda leitura é em escala mais reduzida,
a do visitante. Um volume de estrutura metálica,
que em planta é a extensão do triângulo
equilátero, abriga o foyer, as salas das oficinas
culturais (bloco amarelo) e a secretaria municipal (bloco
roxo). A parte voltada para o acesso do público
conforma uma das quatro faces da geometria regular da
clássica praça cívica, composta
pela prefeitura, fórum e, futuramente, Câmara
Municipal.
Ali, o edifício apresenta-se mais delicado:
os materiais - como a tela e a marquise metálicas
que protegem o visitante da chuva e o foyer do nascente
- são, construtivamente, mais requintados. Na
interface entre a estrutura de concreto e a metálica
há uma abertura zenital em forma de sheds (pintados
de azul, externamente) que iluminam e ventilam alguns
ambientes.
Essa relação entre cores vivas, de texturas
brutas,
e as telas de alumínio, de fabricação
industrial e delicadas, faz parte do repertório
produzido por Perrone. Porém, no projeto do teatro,
dadas a escala e a importância da obra, ficam
mais evidentes as intenções do autor,
que alterna a rusticidade e a delicadeza, a transparência
e a opacidade, conforme a escala de aproximação.
“Enquanto na Europa estão tirando o peso da arquitetura,
aqui começamos a colocá-lo”, avalia o
arquiteto, enquanto caminha pela obra, lembrando o mexicano
Luis Barragán.
Em dezembro passado, Hermeto Pascoal inaugurou
o teatro e compôs uma música para o lugar.
Naquele momento, foi iniciada outra leitura do espaço,
na escala do usuário: a do edifício como
equipamento cultural da cidade.
Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 266 Abril de 2002
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