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Inaugurada em maio, com as pompas
de um dos mais importantes Millennium Projects, a Tate
Modern é o novo endereço da arte moderna e contemporânea
na Inglaterra. O prédio, um imponente galpão de gosto
decô, projetado em 1947 por sir Gilles Gilbert Scott,
autor das famosas cabines vermelhas para os telefones
públicos de Londres, serviu durante 15 anos como estação
de energia.
Desativada em 1963 como parte da política
de melhoria da qualidade do ar da capital, a estação
era mais um exemplar da arquitetura industrial inglesa
abandonado num canto esquecido da cidade, o deteriorado
East End. Foram gastos cerca de 134 milhões de libras
(~ US$ 220 milhões), originários da loteria do
país, na reforma e conversão de uso do antigo galpão,
que ressurgiu às margens do rio Tâmisa pelas mãos dos
arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron,
selecionados entre os 148 participantes do concurso
internacional promovido pela Tate em 1995.
De acordo com a direção da Tate, o
antigo galpão foi escolhido por sua “localização privilegiada
e seu amplo espaço interno”. Herzog e De Meuron aproveitaram
o imenso vazio resultante após a retirada dos
equipamentos elétricos, a estrutura metálica,
as características paredes de tijolo aparente,
e nesse “envelope” implantaram o novo programa.
A opção foi dividir o interior em
duas partes: na metade sul, onde um dia funcionou
a sala das turbinas, a área foi mantida livre, como
uma espécie de rua coberta, que também serve
de espaço público multiuso para eventos e exposição
de obras de grande porte, entre outros; na outra
metade, voltada para a margem do rio, ao norte,
nasceu uma plataforma de concreto sobre a qual uma nova
estrutura metálica independente foi montada, no interior
da edificação, para abrigar as galerias e demais
dependências da Tate Modern.
A entrada principal, na fachada oeste,
se dá pelo Turbine Hall. As pessoas que chegam por ali
descem a longa rampa que conduz ao acesso do volume
das galerias (num piso abaixo do nível do terreno).
Essa rua interna tem 155 m de comprimento por 23 m de
largura e 35 m de altura. O projeto preservou
não só a estrutura metálica original do Turbine Hall,
como também algumas das suas gruas e guinchos industriais,
que agora servem para auxiliar na montagem de
grandes exposições.
As paredes de tijolos foram pintadas
de cinza-claro. A cobertura, restaurada, ganhou domos
basculantes para otimizar a entrada de luz natural.
O envidraçamento é duplo para melhorar o isolamento
térmico e acústico. O piso de concreto polido
conta com um sistema de aquecimento subterrâneo
que mantém a superfície seca nos dias de chuva, tão
comuns na capital inglesa. Também as enormes janelas
originais de alumínio foram restauradas e receberam
vidro duplo para controle climático.
As galerias e demais dependências
da Tate Modern ficam nos sete andares da nova estrutura
metálica, que ultrapassa em altura as paredes externas
do edifício antigo para surgir como uma caixa de
vidro que corre por toda a sua extensão longitudinal,
um novo coroamento. À noite, essa caixa
de vidro iluminada funciona como uma espécie de letreiro
backlight, onde o anúncio dos eventos da galeria
sinaliza o novo endereço cultural da cidade.
No primeiro piso do prédio das
galerias encontra-se o acesso, por meio de escadas rolantes,
elevadores e escadas. À esquerda dessa entrada fica
a principal loja da Tate Modern, com 500 m2.
À direita, está a área destinada aos programas educacionais
da Tate: são oficinas e pequenos auditórios, num total
de 390 m2. O segundo piso, no nível do terreno,
tem em seu canto noroeste um café-restaurante
com 240 assentos . Esse piso contém ainda um auditório
com 260 lugares e uma sala adjacente para projeções,
seminários e conferências, além de salas para a administração,
baias de abastecimento etc.
No terceiro, quarto e quinto pisos
ficam as galerias propriamente ditas. Toda essa
área é caracterizada por linhas puras e planos simples.
Os controles de iluminação e os sistemas de climatização
estão escondidos nas paredes pintadas de branco. As
galerias têm um mix altamente controlável
de iluminação natural e artificial - o que garante
uma enorme gama de qualidades de luz.
O sexto e o sétimo pisos são
a caixa de vidro que aparece externamente. Aqui
o prédio se abre completamente para a vista,
principalmente ao norte, do perfil dos prédios na margem
oposta da cidade. Ora transparente, ora fosco, o vidro
foi explorado em todas as suas possibilidades. Vai da
quase ausência, nos limites da imaterialidade, à quase
solidez, na condição de parede. O detalhamento simples
e o uso contundente dos materiais são alguns dos pontos
altos do projeto. No sexto pavimento, o clube para
sócios da galeria, com 150 m2, há acesso para um
enorme terraço, espécie de solário que corre paralelo
e no mesmo nível da cobertura do Turbine Hall e suas
clarabóias.
Como sugeriu o próprio arquiteto Jacques
Herzog, em sua entrevista
a PROJETODESIGN, é preciso entrar no prédio,
percorrer suas diversas galerias, explorar sua paisagem
interna, para se perceber a proposta do projeto: de
um lado, a penumbra introspectiva, quase clausura
(luz introvertida), de algumas galerias - onde a contemplação
da obra de arte se faz impositiva; de outro, o êxtase
luminoso dos ambientes no interior da caixa de vidro
(luz extrovertida), onde a luz filtrada pelos planos
de vidro jateado e a majestosa vista da cidade se fundem,
como que numa miragem, criando um ambiente de celebração.
Percorrer o interior da Tate Modern é entregar-se a
fantásticas experiências de percepção. Luz e espaço
envolvidos em uma deliciosa trama dramática.
Texto resumido a partir de reportagem
de
Ricardo Antônio, de Londres
(Edição 245 - julho 2000)
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