Paulo Mendes da Rocha
Praça do Patriarca, São Paulo-SP
   
 
  Croquis da cobertura: perfil da viga lembra um escalímetro. No lado mais baixo, uma calha metálica recolhe as águas
   
 
O último movimento do Patriarca
 

Dez anos e quatro administrações municipais separam a concepção e a execução (parcial) da reforma urbana da praça do Patriarca, em São Paulo.

A obra, desenhada por Paulo Mendes da Rocha, nasceu de bem-sucedido encontro entre a Associação Viva o Centro e a prefeitura paulistana. Com maestria de enxadrista, o arquiteto fez jogadas inesperadas. A vitória será a revitalização de um pulsante pedaço da cidade.

Embora pequena, a praça do Patriarca é um local simbólico do centro de São Paulo. Nas bordas do triângulo histórico da cidade, ela é parte da conexão entre o centro velho e o novo, sua extensão natural.

O espaço não é muito antigo. Tem pouco mais de um século e foi aberto com a demolição de um quarteirão.

Ele nasceu do desejo de organizar o crescimento da cidade
. Embaixo da praça, uma galeria construída na década de 1940 abriga salas de exposição e serviços públicos, além de ser passagem entre o centro velho e o vale do Anhangabaú.

Ela leva o nome de seu construtor, Prestes Maia (o Haussman paulistano), autor do plano de avenidas (1930) e um dos maiores ordenadores do crescimento de São Paulo.

Mas a praça criada para incentivar o crescimento
urbano acabou engolida por ele. Antes da reforma, ela estava tomada por ônibus urbanos, que ali faziam parada. Em 1992, a Associação Viva o Centro, organização que luta pela recuperação da área central da cidade, encomendou a Paulo Mendes da Rocha um plano de revitalização do local.

O arquiteto propôs duas construções, das quais só a nova cobertura para a entrada da galeria Prestes Maia foi executada. A segunda transformaria o viaduto do Chá em gare para ônibus (leia PROJETO 175, de 1994).

Como em um jogo de xadrez, o importante na reforma é a qualidade e a precisão na movimentação das peças. E, apesar de aparentemente simples, ela tem elementos que revelam a lógica de projeto do arquiteto. O primeiro deles é o piso de mosaico que delimita a praça. Com a retirada dos ônibus, amplo espaço foi cedido aos pedestres, que chegam de seis diferentes vias.

O arabesco de mosaico português existente foi reconstituído
, com o auxílio de montagens de fotos, e cortado em uma das laterais por uma baia para veículos (carga e descarga, táxis e ônibus turísticos, entre outros). O piso, onde se assinala o desenho oval da antiga cobertura, revela ainda a delicada relação entre o rendilhado de pedra e a esbeltez da estrutura.

O segundo elemento é a cobertura, que ocupa, solene, o vazio do tabuleiro. Ali é mais evidente o desenho do arquiteto: um pórtico metálico, que vence 40 m de vão e, tal como a porta de uma cidade medieval, é local de rito de passagem, do centro velho para o novo, de dentro para fora da galeria.

 
 
Maquete: já no projeto, a proposta de diálogo com a igreja
 
 
Piso em forma de arabesco, degradado por várias obras, foi reconstituído a partir de um estudo realizado pelos arquitetos
   
  Vista geral da praça do Patriarca, a partir do prédio Alexander Mackenzie (atual Shopping Light)
 
A peça estrutural sustém esbelta cobertura em casca, composta por nervuras internas (como se fosse uma asa de avião) recobertas por chapas metálicas. Apoiada somente em dois trechos, a casca de composição assimétrica e aparente instabilidade é travada por tensores, para não pender brutalmente. Na parte mais baixa, uma calha capta águas pluviais.

A complexa execução da estrutura durou nove meses. As fundações, do tipo radier, foram situadas fora dos limites da galeria subterrânea, com cuidado para não atingir tubulações de água, luz, gás e telefone. Depois, foi montado o pórtico e, em seguida, içada a casca.

Na escala do pedestre, a estrutura é tão grande
que dificulta a compreensão do todo. Tem-se a sensação de um vazio coberto, espaço aberto mas construído. Um abrigo, uma sombra - será esta a praça da escola paulista?

Para o interior da galeria, Mendes da Rocha vislumbrou a instalação - mantendo a passagem -
de peças de diversos museus da cidade em vitrines. O transeunte teria o privilégio da fruição cotidiana da arte. O Masp-Museu de Arte de São Paulo já mantém, ali, um espaço.

A proximidade com o edifício Matarazzo - onde se instalará a prefeitura paulistana - traz também a possibilidade de uso cívico: como os subterrâneos do prédio estão a poucos metros da galeria Prestes Maia, a sede da municipalidade poderia conectar-se com a praça por meio de um pequeno túnel. A cidade se confundiria com o edifício e a cobertura seria a entrada da prefeitura.

Pouco antes da inauguração, a Promotoria de Habitação e Urbanismo contestou a interferência da construção na visualização da seiscentista Igreja de Santo Antônio. Mas, no jogo do arquiteto, a igreja é uma das peças mais importantes, considerada em todas as maquetes de estudo.

Situado em diagonal da nova cobertura
, o templo expõe, com outras edificações simbólicas, a construção da cidade em diferentes épocas e formas. Estão ali, lado a lado, o viaduto do Chá (Elisiário Bahiana), os edifícios Matarazzo (Marcello Piacentini), Conde de Prates (Giancarlo Palanti) e Unibanco (Gordon Bunshaft) - este, na extremidade do tabuleiro, sombreando a praça, faz as vezes de torre.
Tão importante quanto a igreja, a obra de Mendes da Rocha, como um gesto que flutua no ar, aponta para o desejo materializado de revitalizar o centro. Confunde-se com a própria história da praça, na vontade de construir uma cidade melhor.

Na movimentação das peças, é reveladora a jogada que transformou em importante elemento do projeto a escultura de José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Ela foi criada, em 1972, por Alfredo Ceschiatti (1918-1989), destacado artista plástico brasileiro com participação em projetos de arquitetura como a Pampulha e a Catedral de Brasília, ambas de Oscar Niemeyer, e o Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro, de Marcos Konder
e Hélio Marinho.

Mendes da Rocha recolocou-a em ponto estratégico
da praça, na extremidade próxima às ruas Direita e São Bento, alinhada com o eixo do viaduto do Chá e enquadrada em uma das laterais do pórtico metálico.
Pronto: Xeque-mate.

Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 273 Novembro 2002
 
A escultura de José Bonifácio, em ponto estratégico
da praça, alinhada com o eixo do viaduto do Chá
 
Pórtico e cobertura metálica vistos a partir do viaduto do Chá
 
Obra emoldura edificações de vários época da história de São Paulo, desde o século XVII até os anos 1970
 
 
 
Pórtico metálico: vão de 40 m sustenta cobertura
 
   
Projeto explorou a relação da obra com a igreja de Santo Antônio
 
A intervenção transformou a praça do Patriarca, na ligação entre o centro velho e o centro novo

Ficha Técnica
Reforma urbana na praça do Patriarca
Local
São Paulo-SP
Projeto
1992
Conclusão da obra 2002
Arquitetura
Autor:Paulo Mendes da Rocha
Colaboradores: Eduardo Colonelli, Kátia Pestana, Giancarlo Latorraca
e Marcelo Laurino
Estagiários:
Luciana Itikawa
e Martin Corullon
Estrutura
Estudos prévios:
Fernando Stucchi
Projeto executivo:
Maubertec
Júlio Fruchtengarten
Análise dinâmica
Paulo Mattos Pimenta
Construção
FBS
Fotos
Nelson Kon

 

Fornecedores
Mectal (estrutura); Groth, Fercoi (perfil metálico); Benafer, Fasal (chapas metálicas); Advance (tintas e vernizes); Concretex (concreto); Fulminas (grelhas); Britar (locação de equipamentos); Itacolomi (mosaico português); Esteio (fundação); Gerdau (aço); Hecoplast (serralheria)

veja também
  Botti Rubin Arquitetos Associados - Prêmio Asbea 2002: Escritório do ano e conjunto de obras
  Alfredo Tapia, Martín Fourcade e Gaston Atelman - Museu de Arte Latino-Americana, Buenos Aires
  José Luiz Mota Menezes - Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife-PE
  Moojen & Marques Arquitetos Associados - Edifício da Borrachas Tipler, São Leopoldo-RS
  Formato Arquitetura - Indústria Tramontina, Recife-PE
  Dalton Bernardes, Júlio Collares e Paulo Roberto Mello - Edifício dos Correios, Porto Alegre-RS
 
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