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Com o aprimoramento do planejamento,
das tecnologias construtivas e da organização
do canteiro, as obras têm alcançado resultados
até há pouco inimagináveis.
O Centro Empresarial Nações Unidas, construído
ao longo da última década, espelha essa
transformação, servindo como campo de
experimentação de novos usos de materiais
e sistemas construtivos. Finalizada recentemente, a
terceira torre do conjunto, destinada ao Hotel Hilton,
apresenta soluções de ponta em estruturas
metálicas e vidros.
A maior obra idealizada pelo escritório Botti
Rubin Arquitetos na última década, o Cenu-Centro
Empresarial Nações Unidas integra
a segunda e mais sofisticada geração de
edifícios do pólo de negócios e
serviços entre as avenidas Engenheiro Luís
Carlos Berrini e Nações Unidas.
Como o vizinho World Trade Center, reúne,
num único conjunto de prédios, equipamentos
e facilidades para executivos e funcionários
do setor terciário, com duas torres de escritórios,
hotel, centro de convenções e shopping
center.
E, também como o WTC, busca destacar-se como
referencial urbano-arquitetônico na região,
concebido em função das amplas e incomuns
dimensões do terreno e das vistas em direção
ao rio Pinheiros, afora as exigências do programa
de necessidades, dilatadas ao longo do processo de construção.
O prédio do Hilton conclui a proposta
original do conjunto e assinala, em sua configuração
arquitetônica, o prosseguimento dos exercícios
formais dos autores com geometrias mais elaboradas,
enfatizando, no caso, a composição de
prismas chanfrados e plantas sextavadas.
A longa e variada gestação do edifício
acompanhou as alterações de conceito de
seus empreendedores nos últimos dez anos. A versão
definitiva, entretanto, foi projetada e realizada em
dois anos - tempo relativamente reduzido, se considerados
o porte e a complexidade da obra. Isso implicou a
simultaneidade entre certas fases do projeto e da
obra e maior envolvimento e afinação da
equipe de trabalho.
O Hilton foi dotado de um sistema principal de estrutura
de concreto armado, associado a algumas peças
invertidas fixadas nos pavimentos superiores, responsáveis
pelo apoio das calhas e das placas de vidro que definem
os fechamentos. Cada treliça teve que ser
calculada espacialmente, pois sua complexidade a
impedia de ser decomposta e dimensionada como elemento
plano, abstração freqüente no cálculo
estrutural. Fizeram-se também estudos de deformação,
de modo que os eventuais movimentos da estrutura não
viessem a trincar os vidros de grandes formatos, apoiados
em apenas dois bordos.
Na concepção da marquise, os perfis
tubulares pré-pintados foram escolhidos para
manter a unidade com as demais estruturas metálicas
do Cenu e pelas qualidades estruturais que apresentam
em sistemas espaciais. O perfil tubular possui a mesma
inércia em todas as direções, dispensando
a adoção de muitos travamentos, que geralmente
comprometem a expressão plástica da proposta.
Há pouco tempo, a estrutura da marquise respondeu
muito bem a uma prova imprevista: ventos de 125 km/h.
A engenheira Heloísa Maringoni destaca que, embora
muitos discordem, não é exagerada a norma
quanto às exigências de segurança
aos ventos, especialmente na região de São
Paulo, que vem sofrendo com a incidência de
ventanias com certa regularidade nos últimos
anos. Por isso, o profissional que especifica estruturas
leves e aerodinâmicas deve estar mais atento à
questão.
A fixação da marquise implicou um problema
específico. Como as fachadas do prédio
são revestidas com granitos grampeados, ou seja,
com as placas afastadas das alvenarias e presas por
inserts metálicos na estrutura, não era
possível ancorar a cobertura diretamente no revestimento,
embora esse fosse o efeito pretendido pelos arquitetos.
Para equacionar a questão, as treliças
foram presas na estrutura do edifício e máscaras
metálicas foram desenvolvidas para arremate sobre
o granito, simulando a fixação superficial.
Pelas dimensões finais, a marquise não
poderia ser transportada completamente montada para
o canteiro, pois não caberia em carroceria de
caminhão nem passaria sob os viadutos da cidade.
Ela chegou ao local em partes, as maiores possíveis,
que foram montadas na obra. Fez-se um sistema de andaimes
para receber as peças. A união dos
componentes foi realizada com solda; luvas internas
permitiam a condição ideal de encaixe
e solda perfeita entre os tubos. Isso implicou retoques,
já que toda a estrutura era pré-pintada.
Depois que as treliças estavam parafusadas na
estrutura do edifício e solidarizadas entre si,
procedeu-se o desescoramento no sentido de trabalho
do conjunto, ou seja, da ponta para o centro.
A estrutura metálica foi adotada em outro
componente pontual: um mezanino no hall principal de
entrada. Os 20 m de pé-direito desse espaço
inviabilizavam os cimbramentos convencionais para a
confecção das lajes dos andares superiores
em concreto armado.
A solução metálica resolveu esse
problema e atendeu à necessidade de ampliar as
áreas de máquinas. Calculada para resistir
simultaneamente às cargas futuras e às
cargas de concretagem da laje acima, ela emprega
vigas de alma cheia, do tipo perfil I, associadas à
laje colaborante, com mesa de compressão para
reduzir a altura final do sistema.
Normalmente, o dimensionamento da altura de uma viga
corresponde a 1/20 do vão. Quando se utiliza
a mesa colaborante, consegue-se redução
significativa da altura, para algo em torno de 1/25
a 1/28 do vão.
A montagem da mesa emprega telhas metálicas,
que são fixadas por conectores às vigas
metálicas
e funcionam como fôrmas para a concretagem.
No sistema resultante, as superfícies de concreto
passam a trabalhar como mesa de compressão das
vigas metálicas, fazendo com que elas estejam
sujeitas a deformações menores.
A telha é fôrma e armação
ao mesmo tempo, apresentando inclusive condições
de resistir ao peso dos operários durante o trabalho
de montagem.
O desenho da telha em onda reduz o volume de concreto.
As capas de concreto são mínimas: de 5
a 6 cm, de modo a se ter a solidarização
necessária para o trabalho. A telha é
um material muito leve, arrematado por peças
laterais que evitam o transbordamento do concreto, proporcionando
uma obra mais rápida e limpa que a convencional.
A instalação é feita manualmente,
dispensando qualquer tipo de guindaste ou equipamento
para içar.
Para abrigar o centro de convenções
do hotel, foi ampliada a praça coberta que une
os três edifícios, no nível térreo.
O centro é constituído de um salão
flexível, que pode ser dividido em três
espaços.
Como as garagens subterrâneas já estavam
executadas e em funcionamento havia tempo e suas
estruturas de concreto armado não poderiam ser
estendidas para cima - além disso, a colunata
da praça também não poderia receber
esforços adicionais -, foi necessário
criar um sistema independente e paralelo em metal para
receber as cargas das salas de convenções.
As treliças de tubos metálicos
da cobertura sustentam pirâmides em painéis
wall recobertos com painéis de alumínio
composto, que cumprem a função de
telhas - recurso ainda pouco explorado no Brasil para
esse fim. Seguram também trilhos por onde correm
as divisórias das salas e o forro acústico,
que emprega painéis de gesso, lã de rocha
e fina placa de concreto para permitir que se caminhe
por cima, em caso de manutenção.
A expansão do programa de necessidades pelo
cliente ao longo da obra, com a criação
de mais três salas de convenções,
gerou desafios maiores para a equipe de projetistas.
Como já não havia mais condições
de edificar novas áreas, optou-se por readequar
parte das garagens subterrâneas para esse fim.
Havia um sério problema para essa adaptação:
a inadequação do intercolúnio existente,
com 7,5 m, às necessidades de grandes vãos,
com 15 m, dos ambientes de convenções.
A solução foi partir para algo radical:
substituir parte dos pilares por vigas especiais de
transição.
Como as vigas em concreto protendido teriam altura que
seria impraticável para o local e demandariam
certo tempo de cura, optou-se por vigas metálicas
protendidas, em trabalho realizado pela afinada parceria
entre os engenheiros Mário Franco, responsável
pelo projeto da estrutura central de concreto armado
do edifício, e Heloísa Maringoni,
consultora de estrutura metálica.
Se o pilar passasse a descarregar no meio de uma
viga convencional em concreto armado, havia a possibilidade
de uma flecha de 4 cm. Isso trincaria o piso de cima.
Com a protensão, esse efeito indesejado seria
anulado: a contraflecha absorveria qualquer deformação
que houvesse. E, adotando-se componentes metálicos,
haveria um ganho adicional: a redução
da altura da viga, que não poderia passar de
90 cm. Resultado: produziram-se as primeiras vigas
protendidas de aço no Brasil.
A operação consistiu em fixar uma cinta
de aço em cada um dos três pilares que
seriam eliminados e prendê-la a pares de vigas
metálicas, procedendo a seguir à protensão.
No momento em que a tensão, aferida com extensômetro
pela empresa Falcão Bauer, acusou que o concreto
estava entrando em tração, ou seja, não
estava mais sendo comprimido, começou-se a cortar
o pilar.
A primeira tentativa foi malograda. O corte horizontal
acarretou o travamento do disco da serra. Na segunda
tentativa, com corte em diagonal, à maneira
dos lenhadores, tirou-se o primeiro pedaço e
a estrutura desceu 2 mm, acomodação esperada
e insignificante no caso.
Na mesma noite, eliminaram-se os dois pilares restantes
e previu-se aumentar a protensão quando a
obra fosse finalizada, pois as cargas aumentariam. Depois
da segunda protensão, os cabos foram protegidos
e lacrados.
Em dois eixos havia carga menor. Neles usou-se
apenas um par de vigas metálicas. No terceiro
eixo, onde os esforços eram maiores, empregaram-se
dois pares de vigas. Cada uma delas possui 90 cm de
altura por 40 cm de mesa; as chapas são de 38
mm, as almas de 16 mm.
Cada par foi entarugado de modo que funcionasse como
um todo solidário. Cada viga chegou ao canteiro
em duas partes, sem o que não se conseguiria
transportá-la ao subsolo. Por serem componentes
de altíssima responsabilidade, as emendas foram
feitas com soldas de penetração total
e cobre-junta: soldava-se com reconstituição
integral do perfil e, depois, colocava-se o cobre-junta
e soldava-se de novo.
Assegurando total controle, foram feitos testes de
raio X para detectar microfissuras. Cada viga suporta
250 kg/m - na parte central resiste a 200 toneladas
- e descarrega em pilares metálicos que atravessam
os outros subsolos, chegando a fundações
existentes, que foram reforçadas.
Texto resumido a partir de reportagem
de Guilherme Mazza
Publicada originalmente em FINESTRA BRASIL
Edição 31 Dezembro 2002
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