Norman Foster
McLaren Technology Centre, Londres
   
       
 
  À noite, o edifício recebe iluminação de um sistema subterrâneo, localizado 25 milímetros abaixo da superfície do lago
       
 
Megaportal da fórmula 1
 

Como um grande portal iluminado, às margens de um lago artificial, o edifício do McLaren Technology Centre surgiu na mente do construtor de Fórmula 1 Ron Dennis e foi materializado pelo arquiteto Norman Foster, junto com o time dos sonhos da construção civil européia.

No briefing apresentado ao arquiteto, Ron Dennis, presidente do TAG McLaren Group, resumia, de forma objetiva, suas expectativas sobre o McLaren Technology Centre: “90% Nasa e 10% Disney”. Alguns dos conceitos aplicados no desenvolvimento das máquinas da Fórmula 1 foram transportados para as especificações do projeto. O alto padrão em design e tecnologia aplicado na obra - uma exigência do proprietário - é um dos destaques do conjunto de edifícios implantado em Woking, a sudoeste de Londres.

A nova sede, na concepção de Dennis, deverá transformar-se em elemento de referência com o qual os projetos de edifícios industriais deverão confrontar-se no futuro. Essa idéia ambiciosa levou à escolha, para o centro, do nome Paragon - que, em inglês, significa modelo de perfeição e protótipo, conceitos que norteiam o mundo do automobilismo.

“O diferencial de desempenho das equipes de Fórmula 1 equivale a 7% da sua base para o topo; já nas equipes líderes, essa distância não passa de 1%. Impor as máximas exigências, otimizar fatores produtivos e anular os efeitos de imprevistos - que em frações de segundo decidem a vitória ou a derrota - significam levar homem e máquina ao limite de sua capacidade”, afirma Dennis. Essas premissas se transferiram para o desenvolvimento do projeto.

Pela primeira vez, todos os setores do TAG McLaren Group estarão reunidos no mesmo edifício, que, em seus dois andares, abrigará estúdios de design, oficinas, centros de pesquisa e desenvolvimento, centro de visitações e museu. Também estarão funcionando nas novas instalações os setores de produção de fibra-carbono, motores e protótipos e de fabricação de carros de corrida, incluindo o novo e exclusivo Mercedes SLR. Para desenvolver os testes de aerodinâmica nos modelos de Fórmula 1, foi construído um túnel de vento.


Pista de corridas

Era desejo de Dennis que o edifício simbolizasse o alto desempenho da empresa e proporcionasse “um ambiente de trabalho tão agradável, que os funcionários preferissem lá permanecer em vez de ir para suas casas”. Para desenvolver o projeto, Norman Foster escolheu a forma de um círculo, cortado ao meio por uma linha em forma de S, que remete às pistas de corridas. O traçado marca o limite entre o edifício e um lago artificial, para o qual se abre a edificação. Juntos, eles fecham o círculo. Os setores do grupo ocupam espaços distintos do prédio, separados por vias de seis metros de largura. Estas recebem luz natural através da fachada de vidro, de 7,5 metros de altura, voltada para o lago.

O desenho da fachada acompanha a curva em S que divide o círculo, favorecendo a incidência ideal de luz solar e possibilitando que, de todos os pontos do interior do prédio, possam ser avistados o lago e a vegetação do entorno. Um sistema de luzes, desenvolvido pela empresa italiana Targetti e localizado 25 milímetros abaixo da superfície do lago, ilumina a parte inferior da cobertura, que se projeta além da linha da fachada. O efeito de luz e sombra que ele produz, à noite, cria a ilusão de que a cobertura se encontra suspensa no ar, acima do edifício, enquanto o volume edificado ganha vários matizes de cor, refletindo-se no lago.

Com currículo que inclui trabalhos de excelência em obras mundialmente conhecidas - como o Piccadilly Circus, em Londres, o metrô de Bilbao, Espanha, e a Piazza della Scala, em Milão, Itália -, a Targetti é responsável pela instalação de todos os sistemas de iluminação do centro da McLaren.


Suporte do spoiler

Conceitos das tecnologias aeronáutica e automobilística foram adotados no projeto da fachada, desenvolvida com a participação de profissionais das equipes de Foster, da Schüco International e do setor de engenharia da McLaren. Para que ela fosse o mais transparente possível, excluiu-se, desde o início, a utilização do sistema stick (convencional), pois os perfis, por mais esbeltos que fossem, constituiriam barreiras visuais em determinados ângulos de visão. O vidro curvo, originalmente previsto, pôde ser substituído pelo plano, o que gerou economia na obra.

O sistema de contraventamento horizontal da fachada, chamado windblade, absorve e transmite as pressões de sucção e obstrução das ações do vento para as colunas internas de aço. Seguindo a modulação básica do projeto, foram adequados três windblades sobrepostos em espaçamento de 180 centímetros na vertical de cada módulo. As peças esbeltas de 25 milímetros de espessura em alumínio de liga especial, configuradas com corte computadorizado a laser, têm envergadura de 12 metros. Seu desenho curvilíneo remete ao suporte do spoiler do carro que em 1995 venceu a corrida de 24 horas de Le Mans.

Os windblades, concebidos como vigas para absorção das cargas horizontais, não estão aptos para absorver as verticais. Para essa função, foram projetadas hastes de aço inoxidável de cinco milímetros de espessura, fixadas às lajes de concreto, semelhantes às que reforçam os McLaren Mercedes da Fórmula 1. Juntos, os elementos de absorção de cargas criam o esqueleto construtivo que suporta 40 toneladas de vidro laminado. A construção é o resultado mais próximo daquele idealizado por Ron Dennis para obter transparência máxima na sinuosa e longa fachada principal.

Os perfis desenvolvidos pela Schüco foram modificados, para, em forma de semicírculo, corresponder ao desenho do projeto e à exigência de não utilizar silicone como elemento de vedação. A fachada posterior do edifício, as divisórias internas da área administrativa e dos boxes de produção seguem o mesmo princípio - neste último elas são desmontáveis, permitindo o deslocamento de equipamentos e máquinas.


Resfriamento

Com capacidade para 50 mil metros cúbicos, o lago exerce papel importante no sistema de resfriamento, pois o excesso de calor do edifício é transferido para a água. O perímetro do lago, em forma de cascata contínua, torna a água elemento importante para o conceito integrado do sistema de refrigeração do túnel de vento, onde são feitos os testes de aerodinâmica nos modelos de carros de Fórmula 1. Para complementar a paisagem no entorno do edifício e criar um microclima, serão plantadas 100 mil árvores.


Texto resumido a partir de reportagem
de Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 36 Fevereiro de 2004

 
Lembrando o percurso de uma pista de corridas, uma linha
em S marca o limite entre o edifício e o lago artificial
 
Paragon, que em inglês significa modelo de perfeição,
foi o nome escolhido para o McLaren Technology Centre
 
Na fachada, um sistema de contraventamento horizontal absorve e transmite as pressões de sucção e obstrução
das ações do vento para as colunas internas de aço
 
 
 
 
 
   
Conceitos das tecnologias aeronáutica e automobilística foram adotados no projeto da fachada

Ficha Técnica
Obra:

McLaren Technology Centre
Local:
Londres, Inglaterra
Projeto:
2000
Conclusão da obra:
2003
Área do terreno:
500 000 m2

Equipe técnica

Arquitetura:
Norman Foster
Projetos de engenharia:
Amec
Estrutura de concreto:
Mapei
Sistemas de fachadas:
Schüco International
Sistemas de iluminação:
Targetti e Claude Engle
Revestimentos cerâmicos: Pastorelli

 

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