Brasília 40 anos
 
Niemeyer
do abstrato ao concreto

O mais recente projeto profissional - quase um projeto de vida - da fotógrafa Ana Carolina Boclin foi documentar a obra de Oscar Niemeyer, Brasília em primeiro lugar, claro. Mergulhando inteiramente nisso, produziu um registro próprio, pessoal, privilegiando detalhes e significados
que pretenderam escapar ao convencional - e permitem interpretações diversas, conforme as sensações de
quem vê.

O trabalho - batizado com o título que repetimos acima - esteve exposto na 4 Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo e agora em abril será apresentado no Teatro Nacional de Brasília, como parte das comemorações do
40º aniversário da cidade e dos 500 anos do descobrimento (coincidindo ainda com o lançamento da pedra fundamental do Museu Nacional, o mais novo
produto da lavra niemeyeriana).

Ana Carolina vive em Goiânia. Eclética, é psicóloga formada no Rio de Janeiro, especializou-se em comunicação e marketing e ganhou a vida como designer de jóias (tendo participado de feiras no Brasil e no exterior). Assumiu só recentemente a fotografia e dedica todo o seu tempo à exposição (para a qual contou com o apoio não só de Niemeyer, mas também do Ministério do Esporte e Turismo, da Fuji Film, da Photografic, do DF, e
da concessionária Audi Saga, de Goiânia).

Diz ela: “As fotos enfatizam a beleza plástica, os traços artísticos e a monumentalidade das obras de Niemeyer, dando a elas a marca de um olhar que valoriza os detalhes do trabalho do mestre impressos no concreto armado; ao mesmo tempo, transformam a obra, ao registrá-la, compondo quadros abstratos, essencialmente contemporâneos”. Vale a pena ver - para concordar ou não - as imagens desta página.

 

 
 
   
 
   
Palácio do Alvorada, Tribunal de Justiça, Congresso em detalhes: de um lado, o “reflexo parece fazer o conjunto flutuar”, diz a fotógrafa Ana Boclin; de outro, o tratamento da cor nas fotos do Congresso permite entrever “uma analogia à bandeira do Brasil”

Recortes do Panteão, da Catedral e do Itamaraty: grandes vãos, colunas mais finas, arcos, contrastes da leveza com o concreto, sob o azul do céu de Brasília

 
     
 
Visões de Brasília
“Sonho realizado, utopia ultrapassada”

Arq. Paul Meurs
Urban Fabric, Utrecht, Holanda


“Conheci Brasília em 1990 e, desde essa época, visito-a todos os anos. Levei dezenas de arquitetos e estudantes holandeses para conhecer a cidade e sentir sua escala, suas histórias, seu cotidiano e suas novas fronteiras na periferia. Para nós, holandeses, Brasília é uma cidade familiar e, ao mesmo tempo, incompreensível. É um sonho realizado, uma utopia ultrapassada, e um marco importantíssimo na história do Brasil. Uma cidade abençoada, mas com um desequilíbrio brutal.

No Plano Piloto, as superquadras de Lúcio Costa fornecem a melhor moradia modernista possível, um exemplo para nós, arquitetos holandeses, que enfrentamos a tarefa de reestruturar extensões modernas menos bem resolvidas em cidades como Amsterdã e Roterdã. As asas residenciais formam uma cidade livre e aberta. Adoro andar em linha reta da quadra 104 até a 116, passando embaixo dos prédios, pulando as cercas e discutindo com os porteiros.

A arquitetura de Oscar Niemeyer ao longo do eixo monumental é inigualável em todo o mundo: uma escala monumental, com formas livres, e com o horizonte e aquelas nuvens de Brasília... Para o mundo, Brasília é a capital do século 20. Cabe aos brasilienses torná-la a capital brasileira do século 21. Transformar a cidade moderna histórica em uma cidade histórica moderna é a única opção para preservar o espírito pioneiro de JK (o presidente Juscelino Kubitschek) e de seus arquitetos e candangos.”
“Desenho fascinante, realidade desordenada”

Arq. Enrique Browne
Enrique Browne Arquitetos Associados, Santiago, Chile


“Inaugurada em 1960, Brasília foi um feito de nível internacional. A primeira coisa que chamou a atenção foi a coragem da decisão geopolítica de colonizar e desenvolver o imenso interior do Brasil. Se a nova capital contribuiu ou não efetivamente para o país atingir essa meta, não me cabe avaliar. Outro fato a destacar foi a rapidez com que a decisão política foi implementada. A maior parte dos edifícios mais significativos foi projetada e construída entre 1956 e 1960, por arquitetos e engenheiros do próprio país. O plano urbanístico em cruz de Lúcio Costa chamou a atenção por sua clareza elementar, enquanto os desenhos de Oscar Niemeyer fascinaram por seu simbolismo e leveza.

Visto a distância (meu conhecimento in situ de Brasília se baseia em uma curtíssima visita, há vários anos), parece-me que o urbanismo de Costa incorreu nos conhecidos pecados dos Ciam (congressos internacionais de arquitetura modernista) e foi ultrapassado pela vital e desordenada realidade sócio-econômica e cultural da cidade. Sem dúvida, um elemento considerado secundário, a vegetação, humanizou e trouxe unidade ao plano geral. Por sua vez, os projetos de Niemeyer para as instituições mais significativas mantêm sua atração.

Seria talvez interessante fazer um estudo comparativo dos resultados urbanísticos e arquitetônicos de Brasília e de outras capitais erguidas quase simultaneamente, mas em países mais pobres que o Brasil e com decisiva participação de profissionais estrangeiros: Chandigarh, de Le Corbusier (estado do Punjab, Índia, 1950-64), e Dacca, de Louis Kahn (Bangladesh, 1962-73). Essa avaliação deveria incluir o impacto de cada uma de suas arquiteturas monumentais no âmbito internacional. Por exemplo, a influência do edifício da Assembléia projetado por Le Corbusier, claramente perceptível no edifício da Cepal, de E. Duhart (Santiago, 1964) e em muitas outras construções. Ou o impacto das obras de Kahn em Dacca sobre o trabalho de Mario Botta etc. No caso dos edifícios de Niemeyer - cuja leveza se opõe à massividade das obras de Le Corbusier e Kahn -, a influência parece concentrar-se mais dentro que fora do Brasil.”
“Cidades concebidas a uma só mão são democráticas?”

Arq. Manuel Cuadra
Professor da Faculdade de Arquitetura, Frankfurt, Alemanha


“Julgar Brasília requer diferenciar a Brasília ideal, do projeto de Kubitschek e Costa, da Brasília real, do conglomerado urbano que a cidade se tornou. A ideal fascina como experimento de desenho urbano e paisagístico, enquanto estratégia de ocupação do território e também como invento espacial. Mais que uma cidade ´normal´, Brasília é um objeto urbanístico-arquitetônico de representação estatal.

Mais que as necessidades dos cidadãos, foram os ritos e o protocolo que moldaram esta Versalhes do século 20. Suas qualidades se sintetizam na praça dos Três Poderes, um espaço único para um lugar único, em que se realiza a articulação entre a cidade e a paisagem, entre todo o território nacional e a capital. E isso tanto em nível simbólico quanto de comunicação visual.

Mais que por seus escassos visitantes, a praça dos Três Poderes é vivida através das imagens transmitidas pelos meios de comunicação visual. Talvez isso explique e ainda justifique seu esquematismo. Visto dessa forma, estamos diante de um admirável e bastante prematuro exemplo de um urbanismo e de uma arquitetura midiáticos. Traduzido dentro do mesmo conceito e da mesma radicalidade, o desenho das áreas ´secundárias´ se subordina aos requerimentos da Brasília monumental. Como conseqüência, as zonas residenciais carecem da complexidade necessária para acolher a vida diária dos cidadãos de maneira satisfatória.

Hoje, parece absurdo querer construir toda uma cidade a uma só mão, excluindo e ainda reprimindo a iniciativa privada, tanto empresarial quanto popular, e isso no nível de idéias, de investimentos, de projeto e de realização. Diante da enorme vitalidade das cidades que hoje rodeiam Brasília e da intensa atividade em suas ruas e praças, parece-nos uma perda lamentável não se ter canalizado a capacidade de produção e criatividade de seus habitantes em benefício da cidade. As cidades-satélites sofrem, desde o início, com o reduzido interesse que despertam entre os urbanistas.

O contraste entre a convencionalidade de sua estrutura urbana e as formas inovadoras de Brasília não poderia ser maior. No momento atual, seria possível uma cidade concebida e realizada a uma só mão? As cidades assim projetadas correspondem aos ideais democráticos e sociais do presente? Estamos dispostos a renunciar a toda a complexidade e riqueza que são a base da urbanidade? Acredito que a resposta é não. O desafio dos arquitetos e urbanistas reside em mobilizar as forças existentes na sociedade e integrá-las a seus projetos. Mas, sem dúvida, em situações excepcionais - como sempre surgem na história -, pode-se voltar a ter outra Brasília. E o século 21 poderá também ter a sua. Oxalá ela seja tão bela como a brasileira! ”
“Expressão da cultura de nosso tempo”

Arq. Peter Pran
Escritório NBBJ, Nova York


“Brasília é uma grande cidade, inteiramente baseada em uma arquitetura moderna autêntica, inovadora, corajosa e criativa. É uma expressão da cultura de nosso tempo. A força criativa de 40 anos atrás permanece com igual vigor ainda hoje. Oscar Niemeyer é o último dos grandes arquitetos de sua geração; quando o visitei em seu escritório, no Rio, ele tinha 92 anos e continuava trabalhando todos os dias; sua paixão pela arquitetura é insuperável e contínua. Ainda hoje, sua fluida, complexa, direta, honesta e poética arquitetura nos fala com toda a força. E o comprometimento de Niemeyer com a justiça social está enraizado em sua arquitetura. Brasília eleva nosso espírito. Oscar Niemeyer e Brasília merecem ser celebrados!”
 
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