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Foi um período frutífero de residências.
A influência de Luis Barragán é
visível em inúmeras obras, o regionalismo
floresce no país, o historicismo mistura-se com
ares minimalistas. E a casa paulista renasce em diversas
variantes - dos elementos pré-fabricados de concreto,
de Paulo Mendes da Rocha e MMBB, à residência
Hélio Olga, obra-prima de Marcos Acayaba e casa-ícone
dos anos 90.
Implantada em uma encosta com 100%
de declividade, a residência Hélio Olga
(1987/90; PD 134), em São Paulo, foi desenhada
por Marcos Acayaba para o engenheiro, proprietário
de empresa de estrutura de pré-fabricados de
madeira e autor do cálculo estrutural do projeto.
A casa foi criada como uma experiência
para ambos os profissionais: montada em 45 dias, é
constituída por um módulo estrutural pré-fabricado
de madeira - de 3,3m x 3,3m, com vigas e pilares que
formam treliça -, cuja tração é
realizada por cabos de aço. No ponto onde ela
toca o solo, a estrutura é fixada em seis apoios
de concreto.
Obra-prima de Acayaba - publicada em mais de 50 revistas
em todo o mundo -, a residência Hélio Olga
fez escola: um expressivo número de casas projetadas
por arquitetos paulistas, durante a década de
90, utilizaram estrutura de madeira.
O arquiteto desenvolveu, durante o restante da década,
outros projetos residenciais com estrutura pré-fabricada
e baseados em plantas triangulares, como a residência
Baeta (1991/93; PD 198) e a residência
Acayaba (1996/97), ambas localizadas no Guarujá,
litoral paulista, ou ainda a residência Valentim
(1993/95; PD 198), em Blumenau, SC.
A industrialização,
com toques românticos
Após a construção
de sua residência, o engenheiro Hélio Olga
colaborou com diversos profissionais paulistas em projetos
residenciais. Entre eles estão Carlos Warchavchik
(1996/99; PD 244), que desenvolveu uma cobertura curva;
Affonso Risi Jr. (1998); André Vainer e Guilherme
Paoliello, em diversas residências.
Os jovens arquitetos Vinícius Andrade e Marcelo
Morettin projetaram a pequena residência D’Alessandro
(1997; PD 219), em Carapicuíba, na Grande São
Paulo. A casa é marcada por dois volumes. O primeiro
possui estrutura de madeira e é fechado com pele
translúcida de policarbonato; o segundo, um bloco
menor, abriga os serviços.
Também formado por jovens profissionais, o Una
Arquitetos projetou na mesma cidade a residência
Valentim, com estrutura de madeira (1997/99; PD
232): o volume não toca o solo, possui fechamento
de tijolos cerâmicos e cobertura de telhas metálicas
em uma água.
George Mills é o responsável pelo projeto
de outra residência estruturada em madeira, em
Tamboré (1995/99; PD 240), condomínio
situado em Barueri, na Grande São Paulo. A casa,
com original planta triangular, foi implantada junto
a uma das extremidades do lote. A estrutura de madeira
tem grandes balanços nas laterais, possui vigas
duplas e foi pintada inteiramente de branco.
A estrutura pré-moldada de concreto
foi outra forma de industrialização aplicada
em residências, mesmo sendo pouco comum para o
programa. No início da década, o primeiro
projeto a utilizar tais elementos foi a casa Gerassi
(1990/92; PD 155), em São Paulo, de Paulo
Mendes da Rocha. Seis pilares elevam a moradia, de planta
quadrada, sobre pilotis. Na segunda metade da década,
o escritório MMBB, colaborador de Mendes da Rocha
em diversos projetos, desenhou uma residência
com os mesmos princípios. A casa no bairro
do Sumaré (1997/98), zona oeste de São
Paulo, também possui seis pilares, mas está
implantada em terreno de grande declividade.
O aço também foi
utilizado na busca pela industrialização
da estrutura em residências. Em Brasília,
Gilson Paranhos projetou duas residências (1997/98),
para dois irmãos: são casas que apresentam
semelhanças e são ligadas por uma passarela
e uma área comum.
No bairro do Alto da Lapa, em
São Paulo, Percival Deimann e Gil Andrade criaram
um projeto (1996/99) que, além do aço,
possui peças arcadas em madeira laminada e volumes
de concreto, resultando em obra original e atípica
na arquitetura brasileira.
Já Eduardo de Almeida realizou diversos projetos
residenciais utilizando o aço, parte deles com
cobertura em duas águas, entre os quais uma casa
no Jardim Paulistano (1997/99; PD 249), em São
Paulo. A cobertura em duas águas, que
adota elementos primários do universo doméstico,
é a tipologia deste final de século e
mistura certo historicismo com minimalismo.
Inconscientemente ou não, arquitetos de todo
o mundo utilizaram esse recurso em propostas residenciais.
Entre outros estão David Chipperfield e Allies
and Morrison, na Inglaterra; Herzog & De Meuron,
na Suíça; Ignasi de Solà-Morales,
na Espanha; Glenn Murcutt, na Austrália; Borja
Huidobro, no Chile; Jean Nouvel, na França; Antonio
Citterio/T. Dwan, na Itália; Carlos Jiménez
e Hariri & Hariri, nos Estados Unidos.
No Brasil, trabalharam com essa tipologia, entre outros,
o escritório MMBB (Fazenda Santa Rita, 1997),
Camila Fabrini (casa em São Paulo, 1992/94),
Carlos Alexandre Dumont e Benedito Moreira (residência
em Nova Lima, MG, 1992/94) e Otávio Leonídio
Ribeiro (casa Pacelli, 1994/96; PD 198).
Na contracorrente da industrialização
está a influência de Luis Barragán,
bastante perceptível em todo o país. A
simplicidade de sua proposta de cores, abstração
e volumes torna possível construções
de baixo custo e grande efeito visual. Entre os projetos
com essas características está a casa
Sacha (1995/97; PD 211), de Henrique Reinach e Maurício
Mendonça, localizada às margens de uma
represa no interior paulista. Na trajetória dos
arquitetos, marcada por notáveis e premiados
projetos residenciais, a casa se insere com coerência.
A simplicidade da geometria e das cores
contrasta com requintes construtivos, como a complexa
escada interna. Outro arquiteto influenciado por Barragán
é Luiz Fernando Rocco, autor de diversas residências
em São Paulo.
Nessa mesma linha se insere a residência
João Bessa (1991/92; PD 175), em Brasília,
projetada por Paulo Henrique Paranhos. A casa é
marcada pela contradição entre o telhado,
que define a área de estar, e um pavilhão
lateral de laje plana, que abriga os dormitórios
e o setor de serviços.
Os arquitetos André Vainer e Guilherme Paoliello
possuem produção residencial de grande
diversidade - casas de madeira, urbanas, rurais etc.
-, mas com unidade impressionante. Entre seus projetos,
destaca-se a casa de Paoliello (1997; PD 219),
localizada em Carapicuíba, SP. Ali, os arquitetos
experimentaram uma cobertura de abóbadas de tijolo,
hit da arquitetura paulista nos anos 60.
Duas residências, por último,
são dignas de nota. A primeira (1994/98), desenhada
por Anne Marie Sumner, é uma interpretação
de como construir em terreno à beira-mar e com
grande declividade. Localizada em Ubatuba, no
litoral norte paulista, a casa é constituída
por uma plataforma que desafia a inclinação
do lote - um gesto humano frente à natureza exuberante.
A segunda é a casa de campo Mário Masetti
(1996/97), em Cabreúva, SP, projetada por Paulo
Mendes da Rocha. O programa foi dividido em dois volumes
de diferentes formas e materiais, conectados por uma
ponte sobre um riacho.
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