Eduardo Martins Ferreira
Condomínio de apartamentos, São Paulo-SP
 
Triângulo urbano
 

Além do desenho incomum, que combina unidades de um, dois e três pavimentos, o edifício desenhado por Eduardo Martins Ferreira, localizado no Sumaré, zona oeste de São Paulo, tem outra peculiaridade: o responsável pelo empreendimento é o também arquiteto Jaime Cupertino.

As diversas modificações realizadas por Cupertino, principalmente no coroamento (a unidade tríplex da cobertura), fazem dele co-autor da edificação.

Uma das solicitações de Cupertino foi de um edifício extremamente alto e esguio, para que da cobertura se avistasse grande parte da cidade - isso porque o lote em que está o prédio fica no alto do espigão que divide as várzeas dos rios Tietê e Pinheiros.

“Ele queria uma agulha”, relata Ferreira, e para isso foi necessário verticalizar ao máximo, com lajes pequenas, de aproximadamente 120 metros quadrados, atingindo quase 60 metros de altura.

A curva de insolação - uma circunferência imaginária com raio de oito metros, necessária para a aprovação de torres na prefeitura de São Paulo - foi posicionada na porção oeste do lote, configurando uma área triangular para a implantação do edifício, com um ângulo reto e dois agudos.

Com isso, definiu-se uma fachada-hipotenusa que engana o olhar em relação à pequena dimensão da laje comparada com a altura do prédio. Nessa face fica mais evidente a diversidade de unidades. A hipotenusa é, na verdade, formada por uma interessante seqüência de recortes e curvas que distraem o olhar acostumado à conformação regular das torres paulistanas.

Um dos elementos mais marcantes dessa fachada é o guarda-corpo, que, além da alternância entre retas e curvas, possui duas formas: uma, mais fechada, “lembra o prédio da Bienal, de Niemeyer”, segundo Martins, e contrapõe-se à outra, formada por trecho de peitoril envidraçado.

Em contrapartida, as duas outras elevações, correspondentes aos catetos, foram tratadas como “empenas”. Mesmo nelas, a seqüência de aberturas deixa clara a variação interna.

A definição das tipologias é curiosa
. Nos estudos preliminares, todos os apartamentos eram dúplex (com exceção da cobertura), porque Cupertino tomava como ponto de partida o edifício em que morava - localizado a poucos metros da nova torre, projetado nos anos 1980 por Antônio Carlos Barossi e construído por um grupo de arquitetos.

No entanto, a solicitação de outros proprietários levou à divisão de algumas unidades em dois apartamentos de um piso. “São os símplex”, brinca Ferreira. Assim, as seis primeiras unidades, dúplex com quatro dormitórios, ocupam os 12 andares mais baixos.

Acima estão quatro unidades de um pavimento, com dois dormitórios, e a cobertura tríplex.

Para Cupertino, a maior vantagem do apartamento de dois níveis é o pé-direito duplo na área de estar. Nesse caso, ela tem mais de seis metros de altura e abre-se, envidraçada, para a varanda que a circunda, conectando-a com sala de jantar.

As unidades de dois andares são identificáveis, externamente, pela varanda angulada no piso inferior e curva no superior. A seqüência de apartamentos com um e dois pavimentos compõe o corpo da edificação, uma vez que o embasamento é formado pela garagem, térreo e mezanino e o coroamento, pelos três pisos da cobertura.

O projeto viabilizou ainda uma espécie de gentileza urbana.

A região em que está implantado caracteriza-se por topografia extremamente acidentada, que se contrapõe à quadrícula regular das vias públicas. O desenho inadequado resulta em interrupções das ruas, em alguns trechos, por excesso de inclinação.

É o caso da área onde fica o prédio: apesar de, hipoteticamente, estar na esquina das ruas Paris e Capital Federal, esta última, por causa do declive de 30 metros de altura por 30 metros em planta, foi interrompida e no lugar da via há um barranco. Com isso, criou-se um quarteirão sem saída.

Cupertino, em acordo com a prefeitura, resolveu financiar um cul-de-sac ao redor de uma árvore existente e o paisagismo no barranco. Assim, acertou-se o acesso ao edifício, que se dá pela Capital Federal, e ao mesmo tempo agraciou-se a cidade com uma pequena melhoria, herança da preocupação de ambos, Martins e Cupertino, desde os tempos da Itauplan.

Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 297 Novembro de 2004

 
 
A fachada junto ao acesso é marcada
pelas aberturas circulares da sala de estar
 
A seqüência de apartamentos de
um e dois pisos marca a fachada-hipotenusa
 
As varandas explicitam, externamente, o tipo do apartamento
 
Escada metálica interliga o mezanino,
destinado a festas, e a piscina, no térreo
 
 
A escada interna das unidades dúplex é de madeira,
o que facilita a remoção, em caso de reforma
 
   
A sala de estar do apartamento dúplex possui pé-direito duplo

Ficha Técnica
Edificio Site
Local
São Paulo, SP
Projeto
1997
Conclusão da obra
2004
Área do terreno
900 m2
Área construída
4 250 m2
Arquitetura
Eduardo Martins Ferreira (autor); Jaime Cupertino
(co-autor);
Angelica Ludovici, Félix de Araújo,
Haile Nunes,
Paulo Massao,
Adelino dos Santos
e Cecília Castro
Interiores
Lúcia Ravache
Paisagismo
Raul Pereira
Estrutura
Ricardo França
Fundações
Cepollina
Elétrica e hidráulica
MA2
Construção
Nelson Correa
Fotos
Gal Oppido

 

Fornecedores
Atlas, Glass Mosaic (pastilhas); YKK (caixilharia); Mage (vidros temperados); Atlas Schindler (elevadores);
Fultec (fachadas); Sobrado das Pedras (pedras); Itaim (luminárias); Engemix (concreto); PJO (instalações);
Pintstil (pintura); Deca (louças e metais); Caciel (madeiras); La Fonte (ferragens); Arte Gesso (gesso);
Promoverd (jardim); Portobello (cerâmicas); Norte-Sul (impermeabilização); Argamonte (massa pronta);
Glasser (blocos); J. R. Patini (piso de madeira); Manchester (granitos)

veja também
  Pedro Gabriel Arquitetos Associados - Prêmio AsBEA2004: Edifícios comerciais e de serviços
  M Roberto Arquitetos - Prêmio AsBEA 2004: Prêmio Roberto Cláudio dos Santos Aflalo
  Marco Donini - Condomínio de apartamentos, São Paulo-SP
  Monica Drucker - Condomínio de casas, São Paulo-SP
  Luciano Andrades, Gabriel Gallina e Marcelo Pontes - Estacionamento, Porto Alegre-RS
  Carmem Sílvia Parlatore e Joubert José Lancha - Espaço cultural, Campinas-SP
 
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