M Roberto Arquitetos
Prêmio AsBEA 2004:
Prêmio Roberto Cláudio dos Santos Aflalo
 
       
 
  Colônia de férias do IRB, 1943
       
 
Pioneiros do moderno
 

Os Roberto são uma lenda na arquitetura brasileira: pioneiros do modernismo, são autores de obras emblemáticas e originais que representam uma alternativa para a escola carioca. Sem contar a ativa participação em entidades da categoria.

O escritório, atualmente coordenado por Márcio Roberto (UFRJ, 1968), acaba de receber o Prêmio Roberto Cláudio dos Santos Aflalo, concedido pela primeira vez pela Asbea - com a qual, aliás, os Roberto mantêm estreita relação: foi no estúdio deles, que em 1973, fez-se a leitura da ata que marcou a criação da associação.

Apesar de o escritório mudar de nome diversas vezes - foi Marcelo Roberto (de 1930 a 1934), depois MM Roberto (1934/1943), MMM Roberto (1943/1968) e, por fim, M Roberto - ele existe há mais de 70 anos sob a direção da mesma família.

O primeiro arquiteto foi Marcelo (1908-1964), graduado em 1930 pela Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro. Antes de se formar, ele trabalhou como chargista com o pseudônimo Marcelo Roberto - uma homenagem ao pai, Roberto Otto Baptista, que morreu de gripe espanhola. Ao se tornar arquiteto, um amigo sugeriu que abrisse um escritório com o nome pelo qual já era conhecido. Como era arrimo de família, Marcelo não teve dúvida: foi ao cartório e alterou o sobrenome da família - a partir daí, os Baptista se tornaram Roberto.

Em 1934, recém-formado, o irmão Milton (1914-1953) se juntou ao escritório. O talento deles não demorou a aflorar: em 1935, conseguiram um grande feito ao vencer o concurso para a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro. Os jovens (Marcelo tinha 28 anos e Milton, 22) foram responsáveis, do ponto de vista cronológico, pela primeira grande obra da arquitetura moderna no Brasil.

O desenho do prédio é alguns meses anterior à criação do Ministério da Educação e Saúde, cujo projeto foi liderado por Lucio Costa. E a conclusão da ABI, em 1938, é muito anterior à do ministério. No prédio da ABI, caracterizado pelo volume austero, estão presentes - ainda que de forma parcial - aspectos corbusierianos como a planta livre, brises fixos e pilotis.

Ou seja, os Roberto são pioneiros na realização da arquitetura racionalista no Brasil.


Fase inicial
Três anos mais tarde, em 1937, a dupla continuou a pavimentar a trajetória - em via paralela à do grupo de Lucio Costa - que conduziu à consolidação da arquitetura criada pela família: ela venceu o concurso de projeto do Aeroporto Santos Dumont, também no Rio. O desenho original não foi executado.

Mas a construção representou um avanço em relação à sede da ABI, sobretudo pelo volume “mais aberto e principalmente mais leve, aliando habilmente força, equilíbrio e elegância”, segundo o historiador Yves Bruand. Mas, na essência, o projeto possuía elemento marcante da trajetória dos Roberto: a resolução dos problemas funcionais com a técnica construtiva moderna.

A essas duas obras emblemáticas seguiu-se o projeto do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), desenhado em 1941, já sob o nome MMM Roberto, devido ao ingresso no escritório do irmão mais novo, Maurício (1921-1996), formado em 1944, também pela Escola Nacional de Belas-Artes. Assim como nos projetos anteriores, os Roberto se valeram de regras geométricas clássicas - como a seção áurea - para determinar as proporções do IRB.

Com o sucesso do prédio - considerado pela Enciclopédia Britânica, em seu livro anual de 1945, uma das melhores construções do ano anterior -, eles foram chamados pela mesma instituição para projetar uma colônia de férias na Tijuca, no Rio de Janeiro. Mais uma distinção: o edifício recebeu uma medalha do Royal Institute of British Architects (Riba), em 1948, por ser considerada uma das 20 melhores obras da época.

Nesse projeto apareceu pela primeira vez, de maneira mais acentuada, a pesquisa plástica com o uso de venezianas, que teve seu segundo passo no edifício residencial MMM Roberto - criado em 1945, em Copacabana, no lugar da casa onde nasceram os três irmãos. No prédio, uma grelha de concreto emoldura as venezianas, móveis e fixas, em engenhosa solução. A construção foi feita pela família e, ainda hoje, alguns de seus membros residem ali. Mas a relação entre a plástica e a veneziana não terminou aí.


Auge da pesquisa plástica
Ao contrário de Oscar Niemeyer ou Affonso Reidy, a pesquisa estrutural nunca foi o mote dos Roberto.

Mas quando isso aconteceu foi, lembra Bruand, de forma “brilhante”, como no edifício para a Sotreq, de 1953. Com seu grande arco de madeira e concreto vencendo vão de 44 metros, o projeto exemplifica a forma de trabalho da equipe: fazer novas pesquisas de acordo com as circunstâncias de cada trabalho.

Contudo, uma das maiores virtudes da obra dos Roberto foi a pesquisa plástica - que, ao contrário de Niemeyer, está intimamente ligada ao programa ou a soluções funcionais de cada caso.

O edifício Seguradoras, desenhado em 1949 e localizado no centro do Rio de Janeiro, inaugurou, dentre os projetos dos Roberto, a tendência para o movimento de fachada de torres urbanas. Ali, a relação entre as ruas Senador Dantas e Evaristo da Veiga, que conformam a esquina do lote, possui um ângulo agudo “um pouco difícil de ser aproveitado esteticamente, na medida em que era aberto demais para ser explorado como tal, mas não bastante próximo do ângulo reto para ser confundido com este”, na análise de Bruand.

A equipe reverteu essa situação desfavorável criando uma empena curva de transição entre as duas fachadas. Além do efeito volumétrico, isso facilitou a separação entre as duas elevações, uma com brise móvel e outra sem.

Essa angulação da fachada aparece, timidamente, no edifício Anchieta, na avenida Paulista, em São Paulo. Criado em 1941, o prédio é constituído por apartamentos de um piso e dúplex, outro aspecto constante na obra dos Roberto: está presente, por exemplo, nos edifícios Morro de Santo Antônio, de 1929 (uma das primeiras obras de Marcelo), Júlio Barros Barreto, de 1947, e Sambaíba, de 1952.

Mais do que a solução de apartamento em dois pisos, a quebra da rigidez ortogonal - presente no Seguradoras, no Anchieta, no Sambaíba e no Parque Guinle (1962) - foi uma das marcas do escritório.

Esse artifício sempre foi utilizado quando era clara a relação entre a massa do edifício e o tecido urbano tradicional, talvez como uma forma de subverter o desenho da cidade e uma resposta às críticas em relação à massa densa da sede da ABI. Essa solução chegou ao ápice nos edifícios Finusia/Dona Fátima (1954), residencial localizado em Copacabana, e Marquês de Herval (1953), de uso misto, no centro do Rio.

No Finusia/Dona Fátima, o volume é agraciado com os movimentos das duas fachadas: de um lado, venezianas e reentrância da varanda; do outro, um brise fixo moldado no traço livre dos Roberto. Já no Marquês de Herval, último projeto que teve a participação de Milton, os brises móveis tomam o lugar da massa construída e protagonizam o movimento - o qual, aliás, rendeu ao prédio o apelido de “Tem Nego Bebo Aí”.

Infelizmente, os brises foram retirados, por decisão do condomínio, dez anos depois da inauguração. Com esses exemplos, a obra do escritório deu outro caráter plástico para a arquitetura brasileira, em um momento em que Niemeyer não havia se sobreposto a todos. Ao aliar proteção contra o sol e ondulação da fachada, os Roberto criaram, com originalidade inegável, uma alternativa para edifícios tidos como vulgares (prédios comerciais e residenciais), à margem da arquitetura oficial brasileira.

A pesquisa plástica também está presente, de forma diferente, em um dos poucos projetos de residência unifamiliar da equipe, a casa de Jacarepaguá, desenhada em 1952. Ela é abrigada por uma cobertura sinuosa que se transforma em jardim suspenso. No entanto, apesar da liberdade no desenho da laje, a planta é ortogonal.


Projetos urbanísticos e a continuidade
A metade da década de 1950 marca uma mudança de atuação da equipe: Marcelo e Maurício começaram a fazer projetos urbanísticos. Entre eles estão os planos para um conjunto residencial na Penha, de 1951, e para a cidade proletária de Ricardo Albuquerque.

Nessa área, a proposta mais forte da equipe foi a apresentada no concurso para o Plano Piloto de Brasília. Classificada em terceiro lugar, ela previa sete unidades urbanas - que poderiam se multiplicar até 14 -, com 72 mil pessoas cada uma. Cada núcleo teria como centro um departamento governamental. O júri considerou que o trabalho apresentava o melhor estudo sobre utilização da terra, era prático e realista. Em contrapartida, não foi considerado um plano para uma capital.

Entre os edifícios desse período, destaca-se a sede da Souza Cruz (1962), no Rio de Janeiro, com interessante solução de brise fixo.

Em 1968, a equipe coordenada por Maurício ganhou o reforço de Márcio (1945), seu primogênito, formado em 1968 na UFRJ. Como todos os outros, Márcio atuou desde criança no escritório. Ele se lembra, por exemplo, de participar como desenhista - dez anos antes de se formar - na proposta para o concurso de Brasília, que define como “o principal projeto do escritório”.

Sua entrada oficial coincide com a realização de uma série de projetos para o Banco do Brasil em diversas cidades do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Outros edificios desse período são a torre para a Academia Brasileira de Letras (1972) e a sede da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (1979), ambas no centro carioca.

Durante as décadas de 1970 e 1980, a equipe ganhou mais de uma dezena de concursos, entre eles o disputado Plano Nacional para Alagados (1973), o Centro de Convenções de Salvador (1976), o Plano Habitacional de Caji (1977), a sede do Clube Europeu (1989) e a área de expansão de Campinas, SP (1990).

Resta lembrar ainda que, em 18 de junho de 1973, a leitura da ata de constituição da Asbea, marco do início da entidade, foi feita por Luiz Paulo Conde no escritório dos Roberto. Antes de ser um dos fundadores da Asbea, Maurício, que também foi fundador da Escola Superior de Desenho Industrial e diretor do Museu de Arte Moderna, havia dirigido o IAB/RJ de 1957 a 1965.

Mas a família já contava com destacada participação nas entidades da categoria: Milton foi presidente do IAB/DN de 1949 a 1953, quando morreu, aos 39 anos, de um infarto fulminante após discutir com o então presidente do Crea. Qual o motivo da polêmica? Um tema antigo, recorrente e, infelizmente, atual: a autonomia no exercício da profissão dos arquitetos.

Esta é parte da história dos Roberto, que continua se desenrolando sob a liderança de Márcio. A ele coube a difícil tarefa de manter vivo o espírito crítico e a sólida cultura teórica de Marcelo, a criatividade plástica de Milton e a agitação e empreendedorismo de Maurício.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 298 Dezembro de 2004

 
Maurício e Marcelo em frente da ABI
 
Aeroporto Santos Dummont, 1937
 
Instituto de Resseguros do Brasil, 1941
 
Edifício Seguradoras, 1949
 
Edifício Júlio Barros Barreto, 1947
 
Maurício, Marcelo e Milton
 
Edifício Anchieta, 1941
 
Edifício à rua Sadock Sá, 1957
 
Casa em Jacarepaguá, 1952
 
Banco do Brasil, São Luís, 1970
 
Campanhia Souza Cruz, 1962
 
 
Banco do Brasil, 1969
       
 
  Casa em Cabo Frio, RJ, 1972
       
  Edifício Marquês de Herval, 1953   Edifício MMM Roberto, 1945
       
   
  Banco do Brasil, no bairro carioca do Andaraí, 1968   Banco Regional de Brasília, 1958
       
   
  Plano Piloto de Brasília, 1957   Academia de Polícia no Rio, 1983
       
 
  Banco do Brasil, Porto Alegre, 1969
 

Bibliografia básica
Yves Bruand, Arquitetura contemporânea no Brasil. Perspectiva, São Paulo, 1981.
Alberto Xavier, Alfredo Britto e Ana Luíza Nobre, Arquitetura moderna no Rio de Janeiro. Pini, São Paulo, 1991.
Alfredo Brito, “O espírito carioca na arquitetura”, em AU 52, fevereiro/março de 1994.
Geraldo Ferraz, “Individualidades na história da atual arquitetura no Brasil: MMM Roberto”, em Habitat 31, 1959.
Paulo Santos, “Marcelo Roberto”, em Arquitetura 36, 1965.
“Brasília, 26 anos”, em Módulo 89/90, janeiro a abril de 1986.

veja também
  Miguel Juliano - Sesc Pinheiros, São Paulo-SP
  Pedro Gabriel Arquitetos Associados - Prêmio AsBEA2004: Edifícios comerciais e de serviços
  Eduardo Martins Ferreira - Condomínio de apartamentos, São Paulo-SP
  Marco Donini - Condomínio de apartamentos, São Paulo-SP
  Monica Drucker - Condomínio de casas, São Paulo-SP
  Luciano Andrades, Gabriel Gallina e Marcelo Pontes - Estacionamento, Porto Alegre-RS
 
patrocínio   informe publicitário
     
Índice Notícias Agenda Fórum Envie por e-mail