Camila Fabrini Arquitetos Associados
Escola de dança, São Paulo-SP
    
  
 Implantado no fim de uma pequena rua, o volume da escola destaca-se no entorno A rampa de acesso de pedestres conduz o visitante ao térreo elevado; à esquerda, o volume de vidro da recepção
    
 
A caixa elementar, local para reeducação de gestos e convívio
 

Localizada em um cul-de-sac no bairro da Pompéia, a escola de dança desenhada por Camila Fabrini e Carlos Ferrata para abrigar os cursos de Ivaldo Bertazzo - conhecido coreógrafo e terapeuta corporal paulistano - é aparentemente simples: uma caixa de concreto aparente e vidro suspensa por pilotis. O interesse do projeto reside nas relações estruturais (um eco da escola brutalista paulista) e urbanas que estabelece.

O nome Escola de Reeducação do Movimento revela que os cursos ali ministrados não ensinam a dançar, pelo menos não diretamente: a instituição propõe aos alunos que tomem consciência das potencialidades do corpo, “recuperando a essência dos gestos humanos”. Para isso, a construção possui poucos espaços, com programa dividido em recepção, vestiário, três salas de aulas e administração.

Aparentemente, o desenho é quase banal: uma caixa de concreto e vidro suspensa, apoiada em quatro pilares. A simplicidade formal resulta da utilização do léxico da escola brutalista paulista, visível desde a opção pelo partido estrutural até a definição dos pormenores, como os guarda-corpos.

A exigüidade do terreno levou a uma solução verticalizada. Ao contrário da lâmina moderna, com empenas nas laterais menores e aberturas nas maiores (o Ministério da Educação e Saúde é exemplo), a escola de dança tem fachadas de vidro, voltadas para a frente e o fundo, três vezes menores que as faces de concreto aparente, nas laterais do lote. Para iluminar e ventilar os ambientes, os autores lançam mão de um antigo recurso - o fosso de luz -, atualmente pouco usado, muito menos da forma que assume neste projeto.

O espaço vazio cria dois blocos bem definidos: na frente estão todas as áreas de apoio (estar no primeiro piso, vestiário no segundo e administração no terceiro); no fundo ficam as três salas de aulas, uma em cada andar. “Dessa forma, não há necessidade de ar-condicionado, pois o vazio é utilizado para criar ventilação cruzada”, revela Camila.

A setorização acabou por definir diferentes tipos de vidro para os fechamentos. Na frente, onde as aberturas voltam-se para a pequena viela e alguns ambientes são de uso privativo, optou-se pelos translúcidos. Como das três salas de aulas pode-se avistar a serra da Cantareira, no fundo eles são transparentes.

A vontade de relacionar-se com a cidade confirma-se em outros elementos. Frente a tamanha rigidez formal - e completa abstração geométrica -, o prédio busca também dialogar com o meio urbano ao criar o acesso em continuidade da calçada. Ao adentrar o espaço, o visitante é convidado a percorrer uma promenade architecturale até chegar à recepção. Isso porque o térreo é um pilotis com pé-direito duplo cortado por um misto de passarela e mezanino, cuja estrutura é atirantada à laje do primeiro piso. Dessa forma, o projeto utiliza a espacialidade do meio público para contrapor-se a sua proposta. O piso mais baixo, considerado um subsolo, receberá a lanchonete e também pode ser utilizado como estacionamento de veículos.

A estrutura é definida por quatro pilares quadrados, deslocados 45 graus em relação à ortogonalidade das divisas, que, por sua vez, apóiam duas empenas estruturais. A utilização do repertório da escola paulista é evidente. Nesse caso, lembra a casa de José Mário Taques Bittencourt (criada por Vilanova Artigas em 1959), que possui empenas laterais apoiadas em quatro pontos e também lança mão de um espaço interno para iluminação e ventilação.

Na escola, a empena voltada para o nordeste possui uma grande abertura que corresponde ao vazio que divide os volumes internos. Na face oposta, vão semelhante (não visível) foi utilizado para a abertura da escada, posicionada em volume secundário, acoplado ao principal. É curioso notar que a posição da escada fez com que um dos pilares fosse menor que os outros.

As empenas possuem ainda outras aberturas: no último piso (que tem pé-direito menor que o dos demais) há duas janelas laterais nas salas de aulas, enquanto os vestiários, no segundo andar, são ventilados, permanentemente, por pequenas aberturas circulares.

O partido arquitetônico, que trata o edifício como um grande objeto manufaturado, traduz as surpresas da caixa elementar não só para os aspectos estruturais, mas também pelo relacionamento urbano proposto - que parece clamar por um espaço público mais generoso e integrado às áreas privadas. Assim, o desenho da escola induz a outro tipo de reeducação: aquela que busca recuperar a essência do convívio humano.

Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 307 Setembro de 2005

 
A passarela que atravessa longitudinalmente o lote
é continuação da calçada
 
A praça elevada do térreo é estruturada por tirantes
 
Tirantes da praça elevada e subsolo com pé-direito duplo
 
Na fachada voltada para o fundo, com vista para a serra da Cantareira, os vidros são transparentes
 
Interior de uma das salas de aulas, com caixilho interno aberto e empena de concreto do volume menor
 
O espaço entre os dois volumes que compõem o edifício auxilia na ventilação cruzada das salas de aulas
 
No subsolo, a praça rebaixada abrigará futuramente a lanchonete
 
  
Vista de uma das salas de aulas
 
Detalhe do caixilho na fachada principal, com vidros translúcidos

Ficha Técnica
Escola de Reeducação do Movimento
Local
São Paulo, SP
Projeto
2001
Conclusão da obra
2004
Área do terreno
570 m2
Área construída
1.400 m2
Arquitetura
Camila Fabrini Arquitetos Associados - Camila Fabrini e Carlos Ferrata (autores); Moracy Amaral (colaborador)
Interiores
Camila Fabrini
Paisagismo
Fernanda Vida
Luminotécnica
Foco Luz e Desenho
Estrutura
Cia. de Projetos
Fundações
Engesonda
Elétrica e hidráulica
MBM
Construção
Tecpla (1ª fase); Dectra (2ª fase)
Fotos
Bebete Viégas

 

Fornecedores
Neocom (divisórias e portas dos sanitários); Itugrass (domos); Serralheria Moreno (esquadrias de ferro);
Nufer (forros); Integral, Quádriga (impermeabilização); Light Works (luminária); Tiga (mármores e granitos);
See Glass (vidros); Arch Floor (piso em manta vinílica); Illi (instalações elétricas);
Completa (instalações hidráulicas); Panebo (pintura)

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