Claudio Vekstein e Marta Tello
Centro de reabilitação motora, Vicente López, Argentina
    
 
 Na fachada principal, a empena de concreto forma uma espécie de tela perfurada com as letras IMRVL
    
 
Letras perfuradas em placa de concreto identificam instituição
 

Rampas suaves, desenho irregular, tela perfurada de concreto que é ao mesmo tempo brise e marca visual. Esses são alguns aspectos do centro de reabilitação projetado por Claudio Vekstein e Marta Tello para a prefeitura de Vicente López, na Grande Buenos Aires. A obra, uma exceção no panorama arquitetônico argentino, segundo o texto de Roberto Segre, contribui para resgatar uma dívida das cidades, que nunca se preocuparam, esteticamente, com a população que enfrenta dificuldades motoras.

Nas cidades, as arquiteturas nunca foram pensadas, do ponto de vista estético, para a existência das pessoas com dificuldades motoras - mais recentemente, nota-se alguma preocupação no âmbito da mera funcionalidade. De fato, os deficientes físicos são, historicamente, os grandes excluídos do espaço urbano. Calçadas, escadas e mesmo o sistema de transporte público, até depois da segunda metade do século 20, foram sempre desenhados para indivíduos fisicamente “normais”. A rejeição aos “anormais” vem de longa data, desde Esparta, na antiga Grécia, onde eram eliminados, até o seu isolamento nas imagens literárias: o corcunda de Victor Hugo morava oculto na catedral de Notre Dame, e os sete anões viviam escondidos na floresta, protegendo Branca de Neve.

No século passado e neste, a valorização da beleza estética dos jovens, reconhecidos como ícones físicos ou ideológicos, foi uma das características dos regimes políticos autoritários, e continua na imagem do consumo da moda e do sexo, da Vogue até a Playboy. Os deficientes físicos nunca receberam atenção e foram associados à população pobre presente no espaço urbano, já que os ricos não necessitariam buscar seu sustento, permanecendo fechados em suas residências. Só ao final da Segunda Guerra Mundial, com a grande quantidade de feridos na Europa e nos Estados Unidos, se estabeleceriam normas urbanas que dessem conta dos problemas vividos pelos deficientes. Minha própria experiência pessoal, marca profunda ao longo da vida, é a lembrança de meu pai, que, acometido pela poliomielite desde a infância, era sempre olhado com misericórdia na rua. Quando adolescente, chegava a me envergonhar de acompanhá-lo em seus difíceis percursos pela cidade.

No Brasil, talvez o próprio culto hedonista ao corpo tenha valorizado o cuidado e a recuperação de sua integralidade física, gerando a difusão de hospitais especializados no tratamento de problemas motores. A criação, nos anos 1980, da Rede Sarah, iniciada em Brasília e com ramificações pelo país - Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e São Luís -, foi caracterizada por uma arquitetura com desenho de alta qualidade, desenvolvida por João Filgueiras Lima (Lelé), com um sistema de estrutura metálica e painéis de argamassa armada. O partido arquitetônico, definido por leveza estrutural, continuidade espacial e adaptação à mobilidade dos pacientes, criou um ambiente alegre, colorido e integrado à natureza, adequado às necessidades psicológicas que acompanham as dificuldades físicas dos usuários. Na América Latina, essa especialidade não teve um desenvolvimento marcante, com exceção de Cuba, que deu particular atenção à recuperação dos deficientes físicos, mas com uma arquitetura pré-fabricada, sem identidade representativa de sua função.

A Argentina não foge desse panorama geral. Nos anos 1930, época do “Estado benfeitor”, surgiram grandes hospitais seguindo os códigos formais do movimento moderno, tradição que se manteria até o fim do governo de Juan Perón, com as suas iniciativas de caráter popular. Entre inúmeros projetos anônimos, teve repercussão a proposta inovadora de Amancio Williams (1913-1989), com uma solução “climática” para um hospital na província de Corrientes.

 
O acesso de pedestres é demarcado pela maior
abertura da placa de concreto
 
Detalhe da segunda pele, destacada do corpo do edifício
 
O pátio interno é circundado por rampas
  
 Vista por baixo, a placa de concreto tem desenho instigante A placa de concreto também funciona como brise
    
  
 Delimitado pelas curvas contínuas das rampas, o pátio tem configuração variável. Desenho irregular também marca o interior do prédio
    
 

Entre a ditadura militar e o retorno à democracia, muito pouco foi feito no campo da saúde, salvo algumas exceções pontuais elaboradas por arquitetos de renome: o Hospital Naval Central, em Buenos Aires (1970-1983), de Clorindo Testa; o hospital de Orán, na província de Salta (1980), de Juan Manuel Llauró, José A. Urgell e Enrique C. Fazio (que admite o modelo de teto duplo de Williams); o Hospital de Urgências, em Córdoba (1979), de Miguel Angel Roca. Na especialidade de reabilitação motora, um exemplo isolado foi o hospital privado Fleni, em Escobar, província de Buenos Aires, de Sade Skanska.

O centro de reabilitação patrocinado pela prefeitura de Vicente López, na província de Buenos Aires, projetado pelo jovem arquiteto Claudio Vekstein (1965), constitui uma exceção no panorama atual da arquitetura argentina, mais caracterizada - parafraseando o arquiteto e crítico Fernando Diez - pela dinâmica produtiva do que pela procura de novas soluções experimentais. Afirmação verificada no número 60 da revista Summa+, de julho de 2003, dedicado aos últimos dez anos da arquitetura no país, no qual predominam os grandes edifícios corporativos, os luxuosos prédios de apartamentos e as residências unifamiliares, com mínima participação de temas sociais promovidos pelas instituições governamentais.

O entusiasmo do prefeito Enrique García tornou a iniciativa possível, pois ele estava disposto a qualificar ambientalmente um território municipal caracterizado pelos contrastes sociais e econômicos e pela desordem urbana, característica comum na Grande Buenos Aires, onde moram 9 milhões de pessoas. Em 2000, Vekstein já havia recebido o encargo do projeto paisagístico das áreas verdes e de lazer na costa do rio La Plata, onde implantou um teatro ao ar livre e um monumento em homenagem a Amancio Williams.

Na regularidade do reduzido terreno quadrado no meio do quarteirão, e com a simplicidade das funções básicas - em três andares foram organizados, considerando as faixas etárias dos pacientes, os escritórios, os consultórios e os setores de reabilitação -, Vekstein chegou a uma solução arquitetônica complexa e densa de significações simbólicas e metafóricas, em antítese com os esquemas minimalistas ou a tradicional organização cartesiana de formas e espaços.

Nesse sentido, ele participa da corrente contestatória de uma geração nova - composta, entre outros, por Pablo Tomás Beitía, Rafael Iglesia e Oscar Fuentes -, que rejeita tanto a tradição do modernismo “bem-comportado” como o regionalismo romântico de forte presença na Argentina; alheia à contraditória dinâmica política, social e econômica (entre a cruel ditadura militar, o paroxismo consumista do governo Menem e a posterior depressão do país); e em busca de uma linguagem expressiva da angústia existencial portenha.
As referências diretas do arquiteto são o rigor analítico e de projeto de Amancio Wil-liams, com quem trabalhou até 1989 como estagiário; as insólitas e inesperadas invenções presentes nas obras de Clorindo Testa (que, com Claudio Caveri, é um dos pouquíssimos arquitetos da “velha guarda” aceitos pelos jovens); a concepção do diagrama e da livre composição baseada na costura de elementos parciais e heterogêneos para construir uma totalidade, aplicada por Enric Miralles (1955-2000) - que foi seu professor de mestrado em Frankfurt e em cujo escritório Vekstein colaborou -, o inglês Peter Cook e, finalmente, o holandês Ben van Berkel.

Os princípios diretores do projeto baseiam-se na criação de uma forte imagem urbana, que resgatasse um espaço cotidiano geralmente negado aos pacientes com dificuldades motoras. Ou seja, que esses habitantes de uma cidade adversa e inóspita pudessem encontrar no interior do edifício a qualidade adequada aos equipamentos necessários para seu deslocamento. Daí o esquema de um pátio central definido por sistema de rampas de inclinação leve, como elemento expressivo da idéia de movimentação, que é o fundamento essencial do centro de reabilitação.

O outro tema assumido foi o relacionamento do edifício com o contexto urbano. Localizado numa avenida de trânsito intenso, com múltiplas funções e marcada por prédios de baixa qualidade, o centro devia identificar-se com uma imagem expressiva, de forte pregnância estética e simbólica. A solução foi obtida com uma espécie de tela de concreto armado perfurada com as letras IMRVL, que identificam a instituição. Esse artifício formal lembra as propostas de gráfica urbana de Robert Venturi e o prédio Minnaert, de Neutelings Riedijk, em Utrecht, Holanda.

Mas a elaboração de Vekstein foi mais sutil e sofisticada. A tela funciona como um brise que protege a fachada curva de vidro, e as perfurações parecem representar as múltiplas janelas dos prédios da cidade. Iluminada à noite, ela aponta, a distância, a presença do centro de reabilitação. Mas o clímax metafórico acontece na entrada principal. Disposta em posição assimétrica na fachada, a tela é substituída por uma abertura que permite a iluminação desde o alto do edifício, inundando com sol o acesso dos pacientes. Um painel perfurado, suspenso no ar, estabelece o limite superior, que o autor identifica como metáfora da mão de Deus. É a simbolização do ser abençoado pela luz da esperança: com a ajuda dos médicos e terapeutas do centro poderá resgatar a mobilidade perdida.

O ascetismo dos materiais - o centro foi construído totalmente em concreto armado - e a simplicidade do sistema construtivo compensaram a alta complexidade espacial e formal do prédio. O pátio, delimitado pelas curvas contínuas das rampas, tem configuração variável, definida pelas dimensões diferenciadas dos volumes dos consultórios e das áreas de fisioterapia.

Um elemento fundamental do projeto foi o controle lumínico dos diferentes ambientes. O desejo de configurar espaços rigorosamente adaptados a suas funções e a composição de ambientes psicologicamente adequados aos pacientes de diferentes faixas etárias levaram ao desenho de janelas com formas livres e variadas - uma clara influência das soluções propostas por Enric Miralles para o Parlamento da Escócia -, o que facilita a visão dos usuários, tanto para o pátio como para a tela, que como um filtro, estabelece um relacionamento com a rua. A originalidade criativa do prédio acabou por convertê-lo em ícone da prefeitura de Vicente López e resgatou, esteticamente, a dignidade esquecida dos deficientes físicos argentinos.


Texto resumido a partir de reportagem
de Roberto Segre
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 307 Setembro de 2005

 
No pátio, algumas aberturas seguem o desenho da fachada
 
As rampas possuem leve inclinação
 
Vista do pátio central
 
A iluminação é presa à placa de concreto da fachada
 
Piscina utilizada em sessões de hidroterapia
 
Circulação interna, com desenho irregular
 
  
Sala destinada à fisioterapia infantil
 
Pormenor da placa de concreto da fachada, vista do interior de uma sala
 
Detalhe do forro do auditório

Ficha Técnica
Instituto Municipal de Reabilitação (IMRVL)
Local
Vicente López, Argentina
Projeto
2001
Conclusão da obra
2004
Área do terreno
1.355 m2
Área construída
4.000 m2
Arquitetura e gerenciamento
Claudio Vekstein e Marta Tello (autores); Luis Etchegorry (colaborador); Andreas Lengfeld (assistente); Marcelo Saus e Tulio Gines (desenhos); Florencia Colombo, Isabel Amiano, Susanne Kiesgen e Stefan Krüger (maquetes)
Paisagismo
Lucia Schiappapietra
Estrutura
Pedro Gea
Construção
Del Tejar
Fotos
Sergio Esmoris

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