| Pode parecer óbvio dar a forma de um peixe
a um edifício implantado em região litorânea, em terreno praticamente
junto à margem de um rio. Entretanto, quando se trata do desenho de Ruy
Ohtake, profissional que tem exibido quase inesgotável capacidade de
surpreender, é necessário lançar à forma aparentemente
pueril um olhar mais atento, porque o arquiteto extrai dela a personalidade do
projeto. Assim acontece no Pavilhão do Menino Pescador, uma das
construções que fazem parte do conjunto O Menino e o Mar,
implantado no litoral norte de São Paulo. Desenvolvido para a
atriz e empresária Ruth Escobar, que preside a mantenedora da entidade,
o centro cultural e educacional está localizado na praia do Ubatumirim,
município de Ubatuba. Seu objetivo é complementar a educação
formal de cerca de cem crianças e jovens carentes daquela região,
com cursos profissionalizantes e programação artístico-cultural.
“O projeto procura contribuir para que crianças hoje excluídas amanhã
se tornem cidadãos, com dignidade”, observa Ohtake. Foi com essa dignidade
que ele procurou impregnar o projeto. O plano de ocupação
definido pelo arquiteto caracteriza-se pelo eixo central que, partindo do
acesso, é interrompido no meio de seu traçado por uma arena construída
em uma grande praça. À esquerda desse eixo ficam o Pavilhão
do Menino Pescador, com frente voltada para uma pequena praça, e, a
seguir, os volumes do posto médico, do berçário e da administração.
Na outra lateral estão posicionadas as salas de aulas/ateliês e,
mais à frente, o espaço reservado para o restaurante, ainda não
implantado. Destinado a exposições, festas e comemorações,
o bloco do Menino Pescador tem seis metros de largura por 23 de comprimento,
e altura que varia de 2,45 a cinco metros. O desenho em forma de peixe tem
origem na estrutura em arco com cobertura de tijolo. Suas laterais são
fechadas com bambu trançado, técnica aplicada por artesãos
locais. “A vedação permite que o ar circule sob a cobertura
e deixa faixas cruzadas sobre o piso de concreto”, explica Ohtake. O posto médico,
o berçário e a administração, construções
com telhados em duas águas, foram visualmente unificados por uma parede
de 60 metros que exibe colorido exuberante. “O desenho é bastante
simples e adotamos materiais locais, sem nenhuma tecnologia avançada”,
revela Ohtake. Em sua opinião, isso não impede que o resultado seja
extremamente contemporâneo. “Trata-se de um projeto de grande repercussão,
que leva ao patamar internacional o desenho brasileiro e a criatividade como ferramenta
essencial do arquiteto”, avalia. Opinião compartilhada por Ruth Escobar,
que o considera uma pequena obra-prima de Ohtake. Texto
resumido a partir de reportagem de Adilson Melendez Publicada
originalmente em PROJETODESIGN Edição 308 Outubro de
2005 |