Piratininga Arquitetos Associados
Biblioteca e ambulatório de fisioterapia, Campinas-SP
    
 
 A esplanada e os dois edifícios: à esquerda, a biblioteca; à direita, o ambulatório
    
 
Uso de pré-fabricados aproxima e contrapõe edifícios universitários
 

Instalados dentro do campus 2 da PUC de Campinas, interior de São Paulo, os dois edifícios foram desenhados pelo escritório Piratininga Arquitetos Associados. Um deles abriga a biblioteca central, cujo acervo congrega livros da área de medicina, odontologia e psicologia. O outro destina-se ao ambulatório de fisioterapia da universidade. Implantados perpendicularmente, ambos são unificados por uma esplanada comum.

A implantação dos dois prédios estava prevista no plano diretor do campus, realizado pelo arquiteto Luis Espallargas Gimenez. No entanto, apesar da proximidade física e temporal na execução das obras, a contratação dos projetos não foi simultânea: dois meses depois que o Piratininga venceu a concorrência para a biblioteca, a instituição encomendou ao escritório o outro trabalho. Segundo uma das titulares, a arquiteta Renata Semin, um dos fatores decisivos para a escolha do estúdio foi o currículo de encargos semelhantes, tanto em bibliotecas, como as unidades da FAU/USP no campus da Cidade Universitária, (leia PROJETO DESIGN 223, agosto de 1998) e na rua Maranhão (PROJETODESIGN 275, janeiro de 2003) quanto em edifícios ligados à saúde - por exemplo, o laboratório Fleury (PROJETO DESIGN 252, fevereiro de 2001).

A característica mais marcante dos edifícios é a utilização de elementos pré-fabricados - lajes, estrutura, fechamentos etc. -, escolhidos por questão de prazo e custo. No caso da biblioteca, decorreram oito meses entre o início do projeto e o final da obra; no ambulatório, foram seis. A rigidez nesse aspecto estava condicionada ao início do ano letivo de 2005, uma vez que os dois prédios são utilizados pelos estudantes.

No entanto, a pré-fabricação é o fator que mais os aproxima e, ao mesmo tempo, os distancia: enquanto o prédio da biblioteca tem estrutura de metal, no ambulatório ela é de peças pré-moldadas de concreto. “A escolha mostrou-se tão acertada que, durante a seleção dos demais componentes construtivos, todos os elementos encaixavam-se, como um jogo de montar”, conta Renata.

A coincidência das contratações possibilitou que os dois edifícios configurassem um pequeno conjunto, com grande unidade entre si - cada prédio é uma ala da implantação em L. Externamente, contribuem para a integração os fechamentos em placas de concreto pré-fabricado - a biblioteca com aplicação de granilha de tom amarelado e o ambulatório com acabamento em concreto branco. Também aproxima as duas propostas o fato de possuírem poucas aberturas. No entanto, é a esplanada comum, com piso elevado de placas de concreto, que fortalece a leitura do conjunto. Na porção junto à biblioteca, parte desse embasamento é ocupado por um pavimento que abriga espaços de uso exclusivo, tais como os ambientes destinados ao processamento técnico e físico, acervo depositário e apoio à pesquisa. Uma circulação interna liga os andares superiores do acervo e os ambientes sob a base. Embaixo dessa esplanada fica também o auditório, que possui acesso externo e pode ser utilizado de forma independente. Seu formato triangular lembra o desenho daquele feito para o Museu Brasileiro da Escultura, projeto de de Paulo Mendes da Rocha do qual José Armênio de Brito Cruz (do Piratininga) participou.

Além dos espaços mencionados, a biblioteca ocupa outros dois andares (onde está o acervo) e um pilotis ocupado com acesso principal e setor de controle de empréstimo e devolução das obras. Espacialmente, a solução embasamento semi-aflorado/pilotis/andares suspensos lembra o Masp, projetado por Lina Bo Bardi na década de 1960. Entretanto, do ponto de vista estrutural, ambos possuem solução diversa, tanto pelo tipo de material utilizado como pelo desenho.

Contudo, assim como o museu, a biblioteca revela um tour de force estrutural. O edifício, com planta pavilhonar de 71,25 x 16 metros, está apoiado em quatro núcleos de pilares de concreto. Com aparência de grandes “mesas”, cada um destes, por sua vez, é composto de quatro pilares, agrupados dois a dois em pórticos ligados por lajes delgadas. Segundo Renata, nos primeiros estudos realizados eram quatro pilares maciços, que, no decorrer do projeto, foram perdendo massa, resultando em uma forma que representa o essencial em termos estruturais. Assim, o resultado formal de cada núcleo corresponde à massa necessária para a carga estabelecida.

Os núcleos de pilares trabalham em pares no sentido longitudinal, de forma a apoiar a peça metálica que estrutura o bloco suspenso. Tal estrutura é formada por dois pares de treliças paralelas situadas no segundo piso da biblioteca, ao longo da maior dimensão do volume. O piso inferior do bloco suspenso - agora sim, tal como o do Masp - é atirantado às vigas treliçadas. Com isso, é formado um vão central de 48,75 metros e balanços laterais de 13 metros.

As estantes estão apoiadas nessas duas grandes estruturas paralelas. “Conceitualmente, qualquer biblioteca é estruturada por suas estantes, ou, no final das contas, pelos livros. Neste projeto, isso também vale no sentido físico e espacial”, observa a arquiteta.

No prédio, que, como o próprio uso induz, é quase hermético, infelizmente o desenho estrutural é pouco perceptível, pelo menos em sua plenitude. Do lado de fora não se vê a estrutura metálica; internamente, ela fica um tanto escondida pelos livros. Curioso notar que na face exterior os painéis de concreto estão paginados com altura dividida por três, e não por dois, conforme o número de andares. Os pisos são interligados visualmente por um vazio central. A iluminação se dá por lanternim (e é potencializada por placa de reflexão) e a ventilação, permanente, é realizada através de aberturas nas lajes - localizadas embaixo das estantes - que permitem, através de grelhas, a entrada de ar, que escapa pela cobertura. Esse fluxo contínuo pode ser interrompido pelo fechamento da saída do ar.

Aberturas com janelas, só nas duas extremidades menores. Na face norte, com insolação mais agressiva, o caixilho está recuado; na oposta, ele está rente à projeção do edifício. Os 2.400 metros lineares de estantes podem ser aumentados para até 5 mil. A equipe propõe que isso ocorra com a colocação de mais prateleiras, sem a necessidade de novas obras civis.

O ambulatório de fisioterapia, em contrapartida, foi estruturado com peças de concreto armado pré-fabricadas, com vão básico de 10 x 7,5 metros. Ele não possui pilotis e foi dividido em quatro pavimentos. Por causa do pé-direito necessário para a piscina, a divisão interna entre as lajes é diferente entre o primeiro e o segundo pisos, este último formando uma espécie de mezanino. O prédio também possui planta retangular, mas nas duas laterais menores estão posicionadas as áreas de apoio.

Um dos elementos de destaque é o volume complementar em vidro - com estrutura metálica - , ocupado pelo conjunto de rampas que interliga todos os quatro andares. Na fachada oposta a ele, o prédio é marcado por pequenas aberturas horizontais recuadas, cujo requinte é a paginação das placas de fechamento. Para fortalecer as peças, devido a sua dimensão, foram necessárias placas de concreto em L, cuja face menor dobra-se na direção interna e possibilita o caixilho recuado.

Internamente, as divisórias possuem 1,8 metro, o que permite privacidade sem excluir a circulação cruzada, uma vez que - assim como na biblioteca -, por questão de custo, não há ar-condicionado.


Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 308 Outubro de 2005

 
A biblioteca apresenta aberturas apenas na face menor;
nesta, mais castigada pelo Sol, há uma varanda
 
Rampa externa marca o perímetro do auditório
 
O pilotis da biblioteca é marcado pela transparência
 
Sob parte do embasamento, está o auditório
 
Detalhe do acesso à biblioteca
 
O conjunto de quatro pilares, em forma de “mesa”, compõe
um dos quatro pontos de apoio da biblioteca
 
Na face sul da biblioteca, o caixilho está rente
à projeção do prédio
 
  
 Grande fachada de vidro marca o volume
de rampas do prédio do ambulatório
 Detalhe do interior das rampas.
A grande abertura possibilita iluminar o interior do edifício
  
Vista do interior do ambulatório, com divisórias que não encostam na laje
 
O vazio interliga os dois pisos da biblioteca e distribui a luz zenital
 
Sob as estantes, que são apoiadas na estrutura, há a passagem permanente de ar pelas grelhas

Ficha Técnica
Biblioteca central e ambulatório de fisioterapia da PUC
Local
Campinas, SP
Início do projeto
2004
Conclusão da obra
2005
Área do terreno
13.740 m2
Área construída
3.100 m2-biblioteca; 4.300 m2-ambulatório
Arquitetura
Piratininga Arquitetos Associados - José Armênio de Brito Cruz, Marcos Aldrighi, João Benger e Renata Semin (autores); Fabiana Stuchi (coordenadora da equipe); André Dias Dantas, Gustavo Panza, Joana Rojo, Juliana Antunes e Juliana Trickett (arquitetos); André Procópio e Davi Lacerda (estagiário)
Interiores e luminotécnica
Piratininga Arquitetos Associados
Paisagismo
Koiti Mori e Klara Kaiser Arquitetos Associados
Acústica
Ambiental
Estrutura de concreto
Teca (biblioteca); Aluízio A. M. D’Ávila & Associados (ambulatório)
Estrutura metálica
Grupo Dois
Fundações
Cepollina
Elétrica e hidráulica
TGR
Ar condicionado
Isotherm (biblioteca); BTU (ambulatório)
Construção
Costa Feitosa (biblioteca); Construcione (ambulatório)
Fotos
Bebete Viégas

 

Fornecedores
Medabil Varco-Pruden (estrutura metálica da biblioteca); CPI (estrutura pré-fabricada de concreto do ambulatório); Pregaia (painel de vedação); ThyssenKrupp (elevadores); Perfilor (telhas metálicas da biblioteca);
Pizzinato (telhas metálicas do ambulatório); Deca, Incepa (louças e metais sanitários); Reka, Itaim (luminárias);
Perfil Molduras (placas de piso pré-fabricado); ACE (manta vinílica); Tecgran (placas de granilite);
Cecrisa (piso de cerâmica); Planam (divisórias); Sol (esquadrias de alumínio da biblioteca);
CG (esquadrias de alumínio do ambulatório); Sermontec (esquadrias de ferro da biblioteca);
Hunter Douglas (quebra-sol da biblioteca); Pouguett, Max-fer (estantes)

veja também
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  Miguel Pereira e Tagore Pereira - Pousada, Imbituba, SC
  OMA - Sala de concertos,Porto,Portugal
  Ruy Ohtake - Centro Cultural e assistencial,Ubatuba,SP
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  Humberto Fogassa - Castelo do Batel,Curitiba
 
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