| Situada na praia do Rosa, litoral catarinense, a
pousada Pedra Grande, desenhada por Miguel Pereira e Tagore Pereira, teve
a primeira fase concluída em 2004. O pavilhão abriga seis apartamentos
- todos com sala/cozinha, dormitório e banheiro -, além da recepção
geral. Estão previstos outros quatro blocos. Os dois menores se destinarão
às suítes maiores (duas em cada construção). Um volume
para o lazer, com piscina, e a moradia do proprietário, no alto do lote,
completam o conjunto. A construção principal, diferentemente
das demais (ainda em projeto), destaca-se pela configuração
pavilhonar em dois pisos. Aberto para o mar em sua face maior, o volume tem
orientação longitudinal e acompanha as curvas de nível do
íngreme lote, dividindo-o em duas glebas de áreas semelhantes, uma
acima e outra abaixo. A edificação adapta-se à
inclinação do terreno, de modo que o piso inferior é
menor do que o superior. Também há diferença construtiva
entre eles. Enquanto o pavimento de baixo possui estrutura de concreto
convencional - imperceptível, uma vez que as peças pintadas
se confundem com a alvenaria -, o superior é estruturado com
toras roliças de eucalipto, posicionadas de forma independente dos
fechamentos. Apesar da utilização de materiais rústicos,
o andar de cima tem grande sofisticação construtiva. Os pilares
de madeira, por exemplo, não encostam na laje nem nas vigas: um pedestal
e um capitel, ambos revestidos de cobre, criam uma delicada transição
entre as peças. Telhas ecológicas onduladas substituíram,
com o mesmo desenho, as de amianto. Para obter bom condicionamento termoacústico,
instalou-se sobre o telhado uma segunda cobertura, denominada costaneira.
O processo é simples: a peça de madeira roliça é cortada
ao meio e colocada, com o auxílio de um ripado, acima da telha ondulada.
Além de esteticamente interessante, ela “ameniza o calor e o barulho da
chuva”, segundo Miguel Pereira. Os autores deixaram a cumeeira livre da costaneira,
assim como duas áreas próximas das calhas, em acordo com o curioso
desenho, já que as inclinações não são simétricas
ao volume. Solução semelhante à costaneira, só que
com peças menores, foi adotada no forro da área sob o telhado.
O telhado possui mais elementos de destaque. Entre eles estão
as duas esculturas de cobre - desenhadas por Miguel Pereira, que as chama
de carrancas, “inspiradas nas do rio São Francisco” - que marcam as extremidades
das cumeeiras. Outro é o fechamento dos oitões, em taipa.
O projeto revela ainda, entre as soluções interessantes,
o brise de bambu, os muros de pedra ou mesmo o piso de cimento queimado com pigmentação
verde, marcado por juntas de madeira. Para o resultado expressivo do bloco contribuem
as cores - verde e vermelho - aplicadas nos caixilhos. O primeiro
pavilhão da pousada Pedra Grande, que alia simplicidade construtiva
e desenho requintado, induz a uma aproximação com a arquitetura
regionalista - seja o regionalismo crítico de Kenneth Frampton,
seja com a utilização do repertório de parte da escola carioca,
sobretudo aquele prescrito por Lucio Costa. E ao universo carioca dos anos
1940 e 1950 não faltam referências: algumas propostas dos irmãos
Roberto (a colônia de férias na Tijuca, de 1943), de Francisco Bolonha
(a fazenda H. Aciolly, de 1949) ou mesmo de Carlos Leão (a residência
Hélio Fraga, de 1951). E até para ficar com as boas lembranças
de alguns projetos hoteleiros nacionais, lembre-se das soluções
pavilhonares dos hotéis de Oscar Niemeyer em Ouro Preto, MG, de 1940, e,
principalmente, do Park Hotel de Lucio Costa, em Nova Friburgo, RJ, de 1945.
Mas, apesar das possíveis citações, o projeto dos Pereira
possui personalidade marcante. Bom seria se nossa costa estivesse repleta de pequenos
edifícios sensíveis, como este. Texto
resumido a partir de reportagem de Fernando Serapião Publicada
originalmente em PROJETODESIGN Edição 308 Outubro de
2005 |