| As referências locais transformaram-se
em elemento de identidade do projeto desenvolvido pelo arquiteto chileno
Enrique Browne para um edifício corporativo em Concepción,
município ao sul de Santiago. “Uma arquitetura moderna que trata de se
acomodar ao local, uma edificação que não poderia estar em
outra parte”, descreveu Browne ao receber, em 2004, o prêmio de melhor
obra de arquitetura e urbanismo concedido pela prefeitura da cidade.
Adequação ao local significa, neste caso, a ordenação
do espaço urbano, a valorização do patrimônio edificado,
o conforto ambiental e, ainda, o manejo de referências simbólicas
da cidade. Em termos arquitetônicos, isso implica o preciso enquadramento
da paisagem através da implantação e do desenho das aberturas,
a cuidadosa escolha dos materiais e, ainda, a volumetria diversificada, que setoriza
o programa e sinaliza os espaços urbanos comuns. Localizado em
terreno de esquina, o edifício Consorcio Nacional Concepción é
composto por três elementos principais. Na porção frontal,
um volume envidraçado e suspenso, que abriga os andares administrativos,
tem cerca de 25 metros de extensão longitudinal e aberturas voltadas para
oeste, norte e leste. Revestido externamente por lâminas horizontais
de madeira, ele será recoberto por densa camada vegetal, um
procedimento já utilizado pelo arquiteto no projeto para a unidade da mesma
corporação em Santiago, em 2000. Constituída por espécies
de folhagens pequenas, essa pele vegetal, como a denomina Browne, terá
tonalidades de verde, vermelho e branco, dispostas seqüencialmente na direção
vertical das fachadas. No embasamento do bloco administrativo,
halls de pé-direito duplo são delimitados pelos pilares circulares
e por painéis verticais de vidro transparente. A entrada e o acesso
aos elevadores ocorre por rua lateral, enquanto a área de atendimento
ao público estende-se junto à fachada principal. Revestidos
por faixas alternadas de mármore e madeira, no piso e nas paredes, e por
painéis metálicos ondulados, no teto, os dois halls são separados
por fechamento vertical, que foi iluminado de forma indireta. A implantação
do acesso principal junto à rua lateral visa qualificar o entorno da única
igreja do século 19 remanescente na cidade. “Sua fachada foi tristemente
reconstruída depois de um terremoto. Tem, além disso, uma pracinha
frontal cercada por grades, que deterioram sua qualidade e caráter aberto”,
comenta Browne. Ele sugere a incorporação efetiva da praça
à área pública com a eliminação do cercamento
e a ligação à calçada do edifício corporativo.
Também a paisagem natural é forte referência do projeto.
“O que melhora a qualidade ambiental de Concepción é a proximidade
do mar, o contato com o rio Bío-Bío, as colinas verdes, como o esplêndido
Caracol, algumas boas praças e ruas arborizadas”, analisa o arquiteto.
Assim, o segundo elemento estrutural da edificação - o bloco branco
posterior, que abriga os halls dos elevadores e os sanitários e é
chamado por Browne de plano-volume - tem extensas aberturas horizontais que emolduram
a paisagem. “Embora abram visuais para as montanhas da cidade, essas janelas dissimulam
a desordem das alturas das construções locais”, observa o arquiteto.
Por fim, a grande cobertura plana, que coroa o salão transparente
posicionado no último andar do bloco administrativo, sinaliza a orientação
do rio Bío-Bío, uma das importantes referências naturais
da cidade. Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 309 Novembro de 2005 |