Carlos Bratke
Edifício comercial, São Paulo-SP
    
 
 Vista aérea do edifício no entorno próximo
    
 
Com core central, volumetria reúne prisma retangular e cilindro
 

Com 16 andares para escritórios de alto padrão, o Centro Empresarial e Cultural João Domingues de Araújo (JDA), desenhado por Carlos Bratke e equipe, possui volumetria que combina cilindro e prisma retangular. Além do core central, novidade na trajetória do arquiteto, o edifício tem fechamentos em vidro alternando peças transparentes e opacas, de cor branca, estas desenvolvidas especialmente para o projeto.

Um dos responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento de edifícios comerciais na região da avenida Luís Carlos Berrini - zona sul de São Paulo -, Carlos Bratke acaba de finalizar mais uma obra no local. No entanto, ao contrário das demais, desta vez ele optou pelo core central - o núcleo de circulação vertical (escadas e elevadores) ocupa o miolo da torre. O prédio possui estrutura de concreto e lajes protendidas. Além do core estrutural, o JDA tem apenas oito pilares, perimetrais, justamente no encontro entre as duas figuras geométricas que desenham a planta. Consideradas o ponto mais nobre dos escritórios, as quatro quinas ficaram isentas daqueles elementos.

O edifício contrapõe-se a quase seis dezenas de outros projetos do arquiteto nas imediações, cuja característica volumétrica principal é a conformação de torres secundárias, para escadas, elevadores e áreas de apoio. “Isso foi condicionado por recuos distintos que a legislação local permitia, diferenciando as áreas de permanência prolongada - os escritórios - e curta, ou seja, os espaços de apoio”, relata Bratke.

Dessa forma, enquanto as obras anteriores revelam rica volumetria, o JDA é quase minimalista, combinando dois volumes simples, que parecem encaixados: um cilindro com 16,8 metros de raio e um prisma retangular de base quadrada, com aproximadamente 30 metros de lado. Nos primeiros quatro andares, a laje é retangular e tem 774 metros quadrados; acima, a planta possui trechos arredondados e a área é de 835 metros quadrados. O último pavimento possui pé-direito duplo parcial, mais precisamente na área correspondente ao círculo.

A clássica formação base/corpo/coroamento não é visível no edifício, apesar de sua tendência ao monolítico e dos tratamentos distintos dados ao corpo e à porção superior, cujas lâminas circulares de ferro com pintura eletrostática na cor branca escondem equipamentos (de ar condicionado, por exemplo) e o heliponto, que possui elevador exclusivo. Em aço corten, a marquise de entrada, com desenho que lembra um tecido pendurado, desafia a materialidade do metal.

O jogo volumétrico é reforçado pelos fechamentos. Enquanto o cilindro recebeu apenas vidros laminados reflexivos em tom azulado, a parte prismática alterna esse tipo e outro, opaco, de cor branca. Este último não é produto de série e demandou desenvolvimento e produção inéditos no país. Para Bratke, do ponto de vista tecnológico, o vidro é o material que mais tem condições de evoluir, tornando-se, inclusive, fonte de energia, o que já acontece em países como a Alemanha. Por isso, ele acredita que a utilização do brise, tal como ficou marcada na arquitetura moderna brasileira, está condenada. “O brise, além de caro, tem custo de manutenção alto e, em muitos casos, corta a visão da paisagem”, relata o arquiteto.

A sofisticação dos vidros reflete o padrão de acabamento do edifício, diferente dos primeiros projetos de Bratke para a região, que hoje têm mais de 30 anos. Se no passado a área era tida como alternativa mais barata em relação a zonas nobres - as imediações das avenidas Paulista e Faria Lima -, hoje o perfil da Berrini mudou completamente. Por questões de custo, os projetos antigos tinham poucas aberturas e os acabamentos eram simples (massa raspada, lajes de concreto aparente sem forro, ausência de piso elevado etc.).

Outra mudança significativa são as garagens: anteriormente, ocupavam os pilotis e, quando muito, um subsolo (pela proximidade do rio Pinheiros, o lençol freático é alto); o JDA, por sua vez, possui quatro subsolos. No entanto, devido à irregularidade do lote - típica da união de áreas vizinhas e presente em quase todas as edificações naquela área -, o subsolo não se estende por todo o terreno, pois os recortes na parede-diafragma sairiam muito caros.

Por tudo isso, atualmente, os escritórios novos implantados na Berrini estão entre os mais modernos da cidade. Basta lembrar o Cenu, de Botti Rubin (leia PROJETODESIGN 235, setembro de 1999), ou mesmo a sede do BankBoston, do SOM (PROJETODESIGN 269, julho de 2002). “Agora, os clientes da Berrini exigem sofisticação nos acabamentos”, relata Bratke.

Além do vidro, o JDA acompanha a tendência dos edifícios de última geração - piso elevado, ar-condicionado central, equipamentos de automação e acabamentos nobres. Neste ponto, para fugir das banalizações do mercado, Bratke propôs soluções alternativas. No hall de entrada do térreo, por exemplo, em vez das vulgares rosáceas de pedra, foi especificado piso de granito do tipo Aurora, em paginação usual, mas com placas de dimensões que ultrapassam dois metros. Outro requinte no hall é o desenho das catracas de acesso e o balcão de recepção, também criados pela equipe de arquitetos. O térreo conta ainda com um auditório, um local de eventos e um café - justificando a inclusão da palavra cultural no nome do edifício.

Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 309 Novembro de 2005

 
O volume de planta quadrada é marcado por faixas de vidro branco, especialmente desenvolvido para o edifício
 
No coroamento, lâminas de ferro formam anéis
 
A volumetria sugere o encaixe de dois volumes:
um prisma retangular com base quadrada e um cilindro
 
A marquise de entrada, em aço corten,
possui desenho que contraria a materialidade
 
A marquise ultrapassa os limites do exterior,
para marcar presença física no lobby
 
Detalhe dos fechamentos em vidro
 
O JDA e, ao fundo, o edifício Plaza Centenário,
também de Bratke
 
O cilindro é coroado por elemento metálico
 
  
 
As catracas de acesso e o balcão da recepção também foram desenhados pela equipe de arquitetos

Ficha Técnica
Centro Empresarial e Cultural João Domingues de Araújo
Local
São Paulo, SP
Início do projeto
2002
Conclusão da obra
2005
Área do terreno
3.649,65 m2
Área construída
27.784,30 m2
Arquitetura
Carlos Bratke (autor); Érika Iyama,
João Belo e
Ricardo Baddini (colaboradores)
Estrutura metálica
Projeto Alpha
Estrutura de concreto
Aluízio D’Ávila
Instalações elétricas e hidráulicas
Soeng
Ar condicionado
Thermoplan
Acústica
Spell
Luminotécnica
Itaim e Carlos Bertolucci
Consultor de caixilhos
Mário Newton
Sonorização do auditório
Loudness
Cenotecnia
Cineplast
Paisagismo
Roberto Bratke
Construção
Bratke e Collet
Fotos
Cacá Bratke

 

Fornecedores
Enthal (ar-condicionado); Sermon (instalações elétricas e hidráulicas); Springer Carrier (chiller, fan coils);
Neocom (divisórias); Atlas Schindler (elevadores); Vista, Italutec (equipamentos de segurança);
Blantech (catracas/torniquetes); Pilkington do Brasil (revestimento de vidro da fachada);
La Fonte (fechaduras e ferragens); KSF (equipamentos e sistemas de proteção contra incêndio); Osram (lâmpadas); Itaim (luminárias); Deca (louças sanitárias); Arabesco (mármore); Stemac (geradores); Pisoag (piso elevado); Doormatic/Intec (portas automáticas/giratórias); Mirage São Paulo (portas corta-fogo);
Portobello (revestimento cerâmico); Oralce (sistemas/software de gerenciamento);
Engemetal (estrutura metálica da marquise); Montadora Brasileira, Vie des Arts (forro acartonado)

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