6ª Bienal Internacional de Arquitetura, São Paulo-SP
    
 
 Projeto da catedral de Belo Horizonte (1939), Clemens Holzmeister
    
 
Evento define-se pela
diversidade de exposições
 

Assim como as anteriores, a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, aberta de 22 de outubro a 11 de dezembro, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, é composta por uma série de exposições de arquitetura. Também como nas outras, igualmente batizadas com um tema, na 6ª BIA é muito difícil perceber a temática - Viver na Cidade - como fio condutor entre as diversas salas.

É possível dividir a 6ª BIA em cinco partes, formadas por agrupamentos de exposições. A primeira dedica-se a salas de arquitetos estrangeiros, consagrados tais como Le Corbusier e Alvar Aalto. Na seqüência, estão os espaços especiais dos arquitetos estrangeiros na ativa - como o espanhol Campo Baeza e o português Souto de Moura. A esse setor seguem-se as salas dedicadas aos brasileiros em atividade - Decio Tozzi e Hector Vigliecca estão entre eles. Há ainda as exposições especiais nacionais, subdivididas em homenagens a importantes arquitetos paulistas, como Carlos Milan, e mostras diversas, ligadas ao universo arquitetônico, como a do fotógrafo-arquiteto Cristiano Mascaro. Por fim, estão as salas dos países convidados.

Arquitetos estrangeiros
Artes plásticas, digitais, retrospectiva histórica e programática foram alguns dos aspectos abordados na seção Mostras Especiais Internacionais, que reúne trabalhos do arquiteto e designer finlandês Alvar Aalto, do franco-suíço Le Corbusier e do austríaco Clemens Holzmeister, além do escritório suíço Jessen+Vollenweider, em parceria com a equipe dos arquitetos brasileiros David e Dácio Ottoni.

Da produção de Alvar Aalto (1898-1976), um dos mais notórios expoentes da arquitetura orgânica, que, no início do século 20, representou contraponto à abordagem do chamado estilo internacional, a bienal apresentou 16 residências projetadas entre os anos 1920 e 1970. Intitulada Alvar Aalto Houses - Timeless Experiences, a mostra desde 1999 percorre importantes instituições culturais e de ensino nos quatro continentes. Foram exibidos desenhos, maquetes e belas fotografias (material pertencente ao Museu Alvar Aalto, na Finlândia), que exemplificam o exaustivo detalhamento dos interiores, um dos traços característicos do arquiteto. O design foi também tema-chave da mostra, que reuniu ainda peças de mobiliário feito com madeira, além de luminárias e vasos de vidro. Já a seção dedicada ao grande expoente moderno, Le Corbusier (1887-1965), trouxe sua faceta artística. Intitulada Gravuras a Serem Fixadas na Parede, a mostra contou com 45 peças, entre as quais a litografia Modulor, sistema de medidas baseado na relação áurea e proporções humanas, que se tornou fundamental e um dos ícones da produção do arquiteto. Le Corbusier criou inúmeras pinturas, esculturas, gravuras e colagens, cerca de 8 mil peças, material que passou a ser divulgado apenas na década de 1950.

A mostra do austríaco Clemens Holzmeister (1886-1983) destacou a relação do arquiteto com o Brasil, motivada pelos projetos institucionais, sobretudo igrejas, que criou no início do século 20. O projeto não executado de uma catedral encomendada por autoridades governamentais e eclesiásticas de Belo Horizonte, na década de 1930, era um dos itens da mostra, que enfocava ainda os trabalhos mais notórios do arquiteto, como o crematório de Viena, de 1921.

Já as salas dos arquitetos estrangeiros, convidados pelos organizadores da bienal, apresentaram diversificado panorama da produção internacional, desde os anos 1980 até a atualidade. O português Eduardo Souto de Moura trouxe uma série de residências, grande parte delas localizada na região do Porto, além do projeto do estádio implantado na cidade de Braga. Este foi um dos finalistas da importante premiação européia Mies Van der Rohe em 2005, o que enfatiza o renome internacional desse arquiteto emblemático da chamada escola arquitetônica do Porto, que trabalhou com o também português Álvaro Siza Vieira.

A produção de Gonçalo Byrne, representante da escola de Lisboa, também foi apresentada na bienal. Os trabalhos selecionados pelo arquiteto português foram: casa da província da Brabant Flamenga, em Louvain, na Bélgica; Centro de Coordenação e Controle de Tráfego Marítimo do Porto, em Lisboa; Complexo do Cais do Carvão e Clube Naval do Funchal; além da intervenção no santuário de Fátima, também em Portugal. Byrne utilizou grandes maquetes, contornáveis por sistema de rampas e degraus, para discorrer sobre a relação entre os projetos, por ele denominados objetos arquitetônicos, e a cidade.

Alberto Campo Baeza conceituou sua exposição com a noção de que o arquiteto é um construtor de idéias. “Gostaria novamente de mostrar que é isso que nós fazemos. Nós construímos idéias segundo as leis da gravidade e da luz; idéias criadas com nossa razão”, declarou o arquiteto espanhol, que exerce também intensa atividade acadêmica. Entre os trabalhos expostos constavam desde a extremamente divulgada residência Blas (2000), em Madri, até projetos institucionais de grande porte.

O chileno José Cruz Ovalle, que conquistou notoriedade internacional com o pavilhão de seu país na Exposição Universal de Sevilha, em 1992, apresentou projetos residenciais e institucionais recentemente implantados, além de resumo da trajetória de seu escritório. Destacou-se a residência do arquiteto (1994), com seus planos multifacetados de madeira.

Outros arquitetos estrangeiros com mostras especiais na bienal foram o argentino de origem uruguaia (e com grande atuação nos Estados Unidos) Rafael Viñoly; o peruano radicado na França Henri Ciriani; o alemão Thomas Herzog, com seus projetos de elevado desenvolvimento técnico e construtivo; os espanhóis Esteve Bonell e Josep Maria Gil, representantes do cenário urbano e arquitetônico da Barcelona contemporânea; além do italiano Vittorio Gregotti, que trouxe trabalhos representativos da escala local e urbana de projetos arquitetônicos, como os desenvolvidos em diversas áreas de Veneza. Ainda apresentaram mostras especiais o norte-americano Richard Meier, o mexicano Ricardo Legorreta e o austríaco Hans Hollein, enfocados em reportagens desta edição.

 
Casa e estúdio do arquiteto, Chile (1994),
José Cruz Ovalle e Ana Turell
 
Litografia Modulor, baseada em original
a gouache (1956), Le Corbusier
 
Maison Carré, França (1961), Alvar Aalto
 
Casa Blas, Espanha (2000), Alberto Campo Baeza
 
Clube Naval do Funchal, Portugal, Gonçalo Byrne
 
 Teatro degli Arcimboldi, Itália (2002), Vittorio Gregotti
  
 Dezessete salas homenagearam arquitetos brasileiros
  
 
 Fórum de Teresina (1972), Acácio Gil Borsoi
    
 

Mostras brasileiras
Outra atração da 6ª BIA foram as 17 salas especiais, dedicadas aos arquitetos brasileiros convidados, escolhidos por suas importantes contribuições no campo da arquitetura e do urbanismo. “A intenção é homenagear esses profissionais, que representam a diversidade da produção nacional e atuam em áreas variadas, evidenciando a qualidade e a versatilidade da arquitetura brasileira”, afirmou Gilberto Belleza, que divide a curadoria do evento com o arquiteto Pedro Cury.

A principal homenagem ficou para o arquiteto carioca Acácio Gil Borsoi, que teve destacada atuação no Nordeste, ao longo de seus 53 anos de carreira. Formado em 1949 pela Faculdade de Arquitetura da Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, e considerado o fundador da escola do Recife, Borsoi recebeu o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) na solenidade de abertura. Em sua sala especial estavam expostos 38 projetos. Foram destacadas 14 obras, entre elas o Palácio da Justiça (1972) e a Assembléia Legislativa do Piauí (1984), a restauração do Palácio São Luís, ainda em andamento, e diversas residências, entre elas sua própria casa, no Rio de Janeiro (1986).

Ainda do Nordeste vieram alguns dos trabalhos mais centrados em aspectos urbanísticos. O escritório Nelson & Campelo Arquitetos Associados, de Fortaleza, fez uma amostragem dos trabalhos produzidos ao longo dos 23 anos de sociedade entre Nelson Serra e Antônio Carlos Campelo Costa. Entre as propostas expostas, ênfase para a requalificação urbana dos centros históricos das cidades cearenses de Aquiraz, Quixeramobim, Icó e Sobral. Destas, apenas a de Aquiraz ainda não foi implantada. Em Sobral, o projeto abrangeu a urbanização da margem esquerda do rio Acaraú, com a construção de uma praça cívica e uma concha acústica.

Luiz Eduardo Índio da Costa, gaúcho radicado no Rio de Janeiro, também destacou projetos de revitalização, entre eles o Rio Cidade Leblon (1994), finalista do prêmio de arquitetura Mies van der Rohe para a América Latina. Nesse trabalho, o arquiteto propõe recuperar elementos tradicionais da cidade, priorizar o pedestre e modernizar o bairro, enfatizando sua vocação natural. Foi exibido um documentário, elaborado pelo Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, com um resumo da produção de Índio da Costa ao longo de seus 40 anos de atuação profissional.

Na sala de Hector Vigliecca, arquiteto uruguaio radicado em São Paulo há 30 anos, destacaram-se projetos de interesse social. O elemento de presença mais forte é a maquete de 12 metros quadrados que mostra uma proposta de transformação da favela Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. A discrepância entre a realidade e o projeto ficou evidente ao se assistir ao vídeo sobre o dia-a-dia da comunidade, que possui cerca de 80 mil moradores.

Projetos de interesse social também estiveram em foco na sala de Joan Villà, nascido na Espanha e formado em 1968 pela FAU/Mackenzie. Eram oito trabalhos expostos na forma de painéis fotográficos e maquetes, com ênfase para o conjunto de 24 residências em Cotia, SP (2002), desenhado em parceria com Sílvia Chile e vencedor do Prêmio Carlos Milan, conferido pelo IAB/SP em 2002 (leia PROJETO DESIGN 276, fevereiro de 2003). A moradia estudantil (1989/91) e o espaço cultural da Unicamp (1989/94), em Campinas, SP, e a residência na praia do Félix (2001), em Ubatuba, foram outros destaques do espaço.

A apresentação do pernambucano Vital Pessoa de Melo reuniu alguns dos principais trabalhos desenvolvidos ao longo de quatro décadas de profissão. Painéis fotográficos e 12 maquetes representavam os mais diversos programas. Os destaques ficaram para escolas do Senai nas cidades pernambucanas de Petrolina e Garanhuns, para a sede do Confea, em Brasília, e para a sede da Celpe (1975), a companhia de eletricidade de Pernambuco. O arquiteto comemorou o fato de a edificação, construída há 30 anos, ainda estar exatamente como na época de sua inauguração.

 
Centro de Convenções David L. Lawrence, EUA (2003),
Rafael Viñoly
 
Urbanização da margem esquerda do rio Acaraú, Sobral, CE, Nelson & Campelo Arquitetos Associados
 
Escola Sesc de Ensino Médio, Rio de Janeiro (2004),
Luiz Eduardo Índio da Costa
 
Intervenção na favela de Paraisópolis, São Paulo,
Hector Vigliecca
 
Casa em Ubatuba, SP (2001), Joan Villà e Sílvia Chile
 Salas especiais apresentaram desde projetos
de sinalização a obras de interesse social
  
 
 Conjunto residencial Villagio San Rafael, Bertioga, SP (1993), Benno Perelmutter e Marciel Peinado
    
 

A arquitetura de Minas Gerais esteve representada por 16 projetos de Joel Campolina, engenheiro-arquiteto e urbanista formado pela UFMG. Para retratar três décadas de carreira, Campolina apresentou projetos como o do edifício residencial Serramares (1984), do Planetário de Belo Horizonte (2004) e das intervenções para refuncionalização de edifícios da Fumec (2005), todos na capital mineira. Ele também lançou um catálogo de 60 páginas, distribuído pela ProLivros, com informações detalhadas sobre os trabalhos expostos.

Paulista radicado em Curitiba desde a década de 1960, Luiz Forte Netto expôs cerca de 60 projetos, considerados os mais representativos de sua trajetória profissional, iniciada com a graduação pela FAU/Mackenzie em 1957 e marcada pela atuação como urbanista - atualmente, ele é superintendente executivo do programa Paraná Cidade. Dentre os projetos em destaque estavam a sede da Petrobrás (1968), no Rio de Janeiro; o Centro de Processamento de Dados do Bamerindus, atual HSBC (1970), e o edifício comercial Picadilly (1986), ambos em Curitiba.

A produção paulista teve diversos representantes. A arquiteta-paisagista Rosa Kliass (formada pela FAU/USP, em 1955) apresentou a evolução de sua carreira a partir de sete projetos principais, entre eles o Parque das Esculturas de Salvador (1996); o laboratório Fleury (1998) e o parque da Juventude (concurso de 1999), ambos em São Paulo; e Feliz Lusitânia, em Belém (1998/2000), além do Plano de Paisagem Urbana de São Luís. Outra atração do espaço foi o vídeo com depoimentos sobre a trajetória da arquiteta, que comemora 50 anos de carreira.

Na sala especial de Carlos Bratke, foi possível acompanhar a metodologia de trabalho do arquiteto a partir de um painel com croquis e plantas que reproduz uma das paredes de seu escritório. Formado pela FAU/Mackenzie em 1967 e pós-graduado pela FAU/USP em 1969, Bratke projetou cerca de 60 torres implantadas na região da Berrini, entre elas o edifício Plaza Centenário (1988/95), conhecido como Robocop. A mostra reuniu ainda trabalhos desenvolvidos para a Petrobrás, um centro de pesquisas da USP, uma escola e o Poupatempo de São Bernardo do Campo, SP (2001).

Benno Perelmutter (FAU/USP, 1960) e Marciel Peinado (FAU/Universidade Católica de Santos, 1976) usaram o espaço da sala especial para expor seis maquetes e dez painéis fotográficos coloridos, que fizeram uma síntese dos anos de parceria profissional, iniciada em 1972. Entre os destaques figuravam diversos projetos de equipamentos públicos, como a Estação de Passageiros do Aeroporto Santa Genoveva (2002), em Goiânia, e o Poupatempo de Guarulhos, SP (2001). Também esteve exposto o projeto do conjunto residencial Villagio San Rafael (1993), em Bertioga, no litoral paulista. Vídeo com uma hora de duração complementou a mostra.

O espaço de Decio Tozzi apresentou toda a produção do arquiteto, formado em 1960 pela FAU/Mackenzie. A exposição baseou-se em livro sobre a obra de Tozzi, lançado na própria bienal. De um lado, fotos, plantas, croquis dos trabalhos exibidos em um painel de 30 metros quadrados. Outra parede servia para a projeção ininterrupta de imagens de seus principais projetos e obras, com destaque para a área residencial, como a casa em São Sebastião, SP (1998), e o edifício Spazio 2222 (1996), residencial de alto padrão na capital paulista.
O escritório Cauduro Martino, comandado por João Carlos Cauduro e Ludovico Martino, de destacada atuação nas áreas de planejamento ambiental, sinalização visual e mobiliário urbano, apresentou alguns de seus principais trabalhos. Entre eles, os sistemas de sinalização do metrô de São Paulo, da rodoviária de Brasíla (1999) e da avenida Paulista (de 1974 e de 2004), bem como o Sistema Metropolitano de Buenos Aires.

Formado pela FAU/USP em 1959, Siegbert Zanettini usou o espaço de cem metros quadrados para a elaboração de dois painéis. O primeiro deles reunia diversos projetos, como Escola Panamericana, Hospital São Luiz, São Luiz Anália Franco, São Camilo Pompéia, Centro Virtual em Cultura. O segundo painel apresentou a proposta de ampliação do Centro de Pesquisas da Petrobrás, na ilha do Fundão, no Rio de Janeiro (2005).

Compuseram ainda as mostras brasileiras as salas de Eduardo de Almeida, Paulo Zimbres e Mário Aloísio Melo, destacadas em reportagens nesta edição.

 
Sinalização da rodoviária de Brasília (1999), Cauduro Martino
 
Poupatempo de São Bernardo do Campo, SP (2001),
Carlos Bratke
 
Edifício da Fumec, Belo Horizonte (2004), Joel Campolina
 
Sede da Celpe, Recife (1975), Vital Pessoa de Melo
 
Casa em São Sebastião, SP (1998), Decio Tozzi
Passeio público de Belém (1998), Rosa Kliass
 Obra de Milan é aula de como fazer arquitetura
  
 
 Residência Roberto Milan, São Paulo (1960), Carlos Milan
    
 

Mostras Especiais Nacionais
A 6ª abriu espaço para o segmento Mostras Especiais Nacionais. Ali foram instalados espaços em homenagem a arquitetos paulistas falecidos: Carlos Milan, Oswaldo Corrêa Gonçalves, Ícaro de Castro Mello e Eduardo Kneese de Melo.

A morte trágica e precoce, aos 37 anos, em 1964, não impediu que o arquiteto Carlos Barjas Milan se tornasse uma figura-símbolo da moderna arquitetura paulista. Passados mais de 40 anos de seu falecimento, Milan ainda desperta interesse, curiosidade e reúne admiradores, inclusive entre as novas gerações. A sala reservada a sua produção foi organizada pela arquiteta Mônica Junqueira de Camargo, que considera as obras e desenhos deixados por Milan mais do que patrimônio arquitetônico, aulas de como fazer arquitetura. A casa que ele desenhou para o irmão Roberto, em São Paulo (1960), exposta na bienal, é até hoje objeto de devoção, especialmente entre os profissionais da sua geração.

Oswaldo Corrêa Gonçalves não pôde conhecer o espaço reservado pelos organizadores para homenageá-lo na sexta bienal. Ele, que foi o responsável pela coordenação da primeira edição do evento, realizada em 1973, morreu, aos 88 anos, menos de dois meses antes da abertura da BIA. Nascido em Santos, SP, Gonçalves desenvolveu a maior parte de seus projetos entre as décadas de 1950 e 1970. Trata-se de outra figura-chave para a compreensão da arquitetura moderna paulista e brasileira - ele foi um dos principais divulgadores do ideário modernista de Le Corbusier. Entre os projetos de Gonçalves expostos no Ibirapuera estavam o Senac de Marília, SP, edificação que criou em 1953. O Sesc e o Senac contrataram o arquiteto para criar edifícios de várias de suas unidades.

Um panorama da arquitetura esportiva desenvolvida e implantada no Brasil do século passado foi proporcionada pelo estande que exibiu os projetos de Ícaro de Castro Mello. O fato de ter sido atleta de competição deve ter exercido influência na linha de trabalho pela qual ele se tornaria mais conhecido. Ao lado dessa especialidade, Ícaro foi um ativista na luta pela regulamentação da profissão, tendo ocupado a presidência do IAB/SP por três gestões e a direção nacional da entidade entre os anos de 1960 e 1966. O Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é uma das obras criadas por ele, assim como o ginásio de esportes da capital federal (1970). O centro cultural e esportivo do Sesc Itaquera, em São Paulo, foi uma das últimas obras de Ícaro, que faleceu em 1986.

Depois de ter desenhado, no início da carreira, dezenas de casas para a elite paulistana, Eduardo Kneese de Melo reverteu esse caminho. Em seguida a sua participação no 5º Congresso Pan-Americano de Arquitetos, em Montevidéu, em 1940, direcionou sua carreira para os chamados clientes coletivos. São desse segundo período os conjuntos habitacionais que desenhou para atender, na época, faixas da população de menor renda. Alguns mantêm a elegância do desenho que os transformou em objeto de desejo da classe média. Além deles, foi mostrada na bienal a sede da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Farias Brito, em Guarulhos, SP, projeto que data do início da década de 1980.

Além das retrospectivas desses quatro arquitetos, no módulo de mostras especiais estiveram em destaque outras atividades ligadas à arquitetura, como fotografia, artes plásticas e iluminação. A obra construída de Cristiano Mascaro é quase como uma nota de cem reais: todos sabem que ela existe, mas poucos a conhecem. Isso porque, formado pela FAU/USP, ele enveredou pelo caminho da fotografia. De certo modo, Mascaro é também um arquiteto, pois recria as obras ao nelas revelar visões pessoais e insuspeitas. Os 30 anos de trajetória do fotógrafo-arquiteto foram sintetizados na exposição Brasil XYZ. As imagens escolhidas por Álvaro Razuk exibem situações urbanas, edifícios, pessoas, e foram colhidas por Mascaro em várias cidades do Brasil.

A arquiteta Odiléa Setti Toscano, egressa da mesma faculdade que Mascaro, tornou-se mais conhecida por sua outra profissão - a de artista plástica, que, como a de fotógrafo, guarda estreita relação com a arquitetura. Não é raro Odiléa tomar como suporte para expressar sua arte a própria edificação. É da artista a série (fotografada por Mascaro) de murais avistados diariamente por milhares de passageiros do metrô paulistano nas estações Paraíso e São Bento. Essas duas obras, junto com outros desenhos preparados para várias publicações, estiveram expostas no espaço reservado à artista-arquiteta.

Quando foi realizada a 1ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 1973, eram raros no Brasil os arquitetos especializados em iluminação. Duas décadas depois, eles não só ocuparam espaços, como fizeram por merecer uma ala no principal evento arquitetônico nacional, representados pela Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (Asbai). Numa espécie de galeria, profissionais como Gilberto Franco, Carlos Fortes, Esther Stiller, Peter Gasper, Mônica Lobo, Inês Benevolo e Cristina Maluf exibiram alguns de seus projetos recentes, mostrando por que nos dias atuais é imprescindível sua participação na produção de arquitetura.

Para mostrar que mesmo nos dias atuais, com as pessoas acuadas e temerosas da violência das grandes cidades, o arquiteto pode trabalhar o espaço privado de forma a suplementar a função de áreas públicas, a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea) desenvolveu um espaço original no Pavilhão da Bienal. Placas de vidro atirantadas em colunas formavam uma espécie de arena. No centro, equipamentos audiovisuais exibiam exemplos nacionais e internacionais de projetos que praticaram a integração público/privado e, até mesmo por isso, no caso da capital paulista, tornaram-se cartões-postais da cidade, como o Museu de Arte de São Paulo, o Conjunto Nacional e o mais recente discípulo dessa tipologia, o Brascan Century Plaza (1999).

Sensibilizar o universo arquitetônico brasileiro para, mais adiante, tornar possível constituir o Museu da Arquitetura Brasileira. Essa foi uma das intenções dos idealizadores da mostra Desenhos da Arquitetura da FAU/USP, que apresentou na bienal reproduções de desenhos de 40 dos mais importantes arquitetos brasileiros. A seleção, realizada com base no acervo da biblioteca da faculdade, reuniu trabalhos de nomes como Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi e Rino Levi, entre outros. Caso se viabilize a implantação do museu, a biblioteca da FAU/USP - cuja capacidade está próxima do limite - terá contribuição fundamental, uma vez que, atualmente, tem em seu acervo mais de 400 mil projetos.

Também figuraram no setor de mostras especiais da 6ª BIA os seguintes espaços e exposições: Alegoria Barroca; Síntese da 4ª Bienal Ibero-Americana; New Territories; Habitação Popular - O Direito à Arquitetura; Identidade Cultural de Heliópolis; Premiação do IAB/SP; Urbanização Dispersa e Novas Formas de Tecido Urbano; Quarenta Anos do Ippuc; Exposição do IAB - Núcleo Ribeirão Preto; Sesc e a Arquitetura.

 
Senac Marília, SP (1953), Oswaldo Corrêa Gonçalves
 
Ginásio de esportes, Brasília (1970), Ícaro de Castro Mello
 
Painel na estação Paraíso do metrô, São Paulo (1990/91), Odiléa Toscano
 
Posto de gasolina, São Paulo (2000),
em foto de Cristiano Mascaro
 
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Farias Brito, Guarulhos, SP (1981), Eduardo Kneese de Melo
 
Brascan Century Plaza, São Paulo (1999), Königsberger Vannucchi
 
  Casa Lucy, Alabama, EUA (2002), Rural Studio
       
  Numa espécie de galeria, profissionais da luminotécnica exibiram projetos
       
 
  Museu Oscar Niemeyer, Curitiba (2002), iluminação de Peter Gasper
       
  Representações estrangeiras
Como a bienal de artes plásticas, o evento de arquitetura contou com a participação de países convidados. Cada um, de acordo com o tema proposto pela curadoria, teve liberdade de enviar a mostra que desejasse. Para a 6ª BIA, a maior parte dessas exposições foi idealizada pelas organizações de arquitetos locais, ressaltou o curador Gilberto Belleza.

Uma das mais interessantes foi a exposição trazida pelos Estados Unidos. Tratava-se de uma mostra sobre o trabalho de Samuel Mockbee, criador do Rural Studio, que trabalhou sobretudo com populações carentes do Alabama, no sul do país. O arquiteto, falecido em 2001 e postumamente premiado com a Medalha de Ouro do American Institute of Architects (AIA), utilizava principalmente materiais simples e reciclados. Um dos destaques era o centro comunitário de Mason’s Bend, em parte coberto por vidros de carros.
 
Edifício de escritórios Berliner Bogen, Alemanha (2001),
BRT Architekten

O maior espaço da 6ª BIA coube à Alemanha (leia texto sobre a montagem da exposição na seção Design), que trouxe sobretudo trabalhos localizados em Hamburgo. Na sala da França estavam expostas, entre outras, a torre Agbar, em Barcelona, de Jean Nouvel além de alguns projetos na China. O espaço expositivo foi criado por Marc Mimram, arquiteto-engenheiro, que se responsabilizou ainda pela montagem da exposição Encore Moderne, sobre a arquitetura brasileira, em Paris.

Israel trouxe uma retrospectiva do trabalho de David Reznik, que nasceu no Rio de Janeiro, onde se formou arquiteto. Aos 25 anos, Reznik - hoje com 81 - transferiu-se para Israel, país na ocasião recém-criado. Lá, desenhou uma série de projetos importantes, como o Centro de Estudos para o Oriente Médio (1980/87), em Jerusalém, e o Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Ben-Gurion (1994/98), em Negev. Além disso, Reznik projetou a Embaixada de Israel em Brasília, criada entre 1974 e 1977. O trabalho dele mescla a arquitetura de Niemeyer, com quem colaborou na década de 1940, e a de Louis Kahn.

A Áustria apresentou o trabalho do grupo Sppliterwerk, em uma mostra quase conceitual, em parte baseada no pato-ícone de Robert Venturi e Denise Scott-Brown, da loja de caça em Las Vegas, que desmistificou a forma-função do movimento moderno. A apresentação utilizou painéis rotativos (leia reportagem na seção Design), cujos motores não funcionaram.

A Holanda trouxe o trabalho do West 8, cujas propostas mais interessantes são os parques. A arquitetura da paisagem também foi a opção da Argentina, o único país sul-americano representado individualmente. Já a China, com a maior delegação, apresentou obras de uma série de arquitetos - e mais maquetes do que projetos executados. Cingapura também possuía um interessante espaço expositivo, com apresentação feita em vídeo. Também trouxeram trabalhos Suécia, México, África do Sul e Portugal.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 310 - Dezembro de 2005
 
Biblioteca da Academia Chinesa de Ciência (2004), Tong Cui
 
Memorial para os Soldados, Jerusalém (1974/78),
David Reznik e Yad Labanim
 
Centro de Estudos para o Oriente Médio, Jerusalém (1980/87), David Reznik e Frank Ferguson
 
Black Treefrog/Blue Shell, Áustria (1998/2004), Sppliterwerk
veja também
  Paulo Zimbres, Marcos Zimbres e Joara Cronemberger - Edifício administrativo, Águas Claras-DF
  Mário Aloísio Melo - Aeroporto, Maceió - AL
  Carlos Bratke - Edifício Comercial, São Paulo
  Oscar Niemeyer - Auditório, São Paulo
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