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Em 26 de abril passado, a Estação da Luz
completou 150 anos: foi em 1856 que começou a exploração
do transporte ferroviário em terras paulistas, ligando
os centros cafeicultores de Jundiaí ao porto de Santos.
Inicialmente uma construção modesta, ela foi
reconstruída entre 1897 e 1901, segundo a presunção,
projeto e materiais ingleses. Sobrevivendo ao fenomenal aumento
da população paulistana, à mudança
na natureza dos trens e ao trágico incêndio
que quase consumiu seus adornos e estrutura em 1946, a estação
passou a abrigar, desde março, o Museu da
Língua Portuguesa.
Um museu de grande escala, à imagem da tipologia da
estação. “Ela é grande, o pessoal chega
de trem”, observa Paulo Mendes da Rocha, autor da intervenção
arquitetônica, ao lado de seu filho, Pedro.
Com o novo programa, eminentemente virtual, já
que não há acervo físico propriamente
dito, os andares superiores da estação
se abriram à visitação pública.
A mudança reverte a centenária lógica
de ocupação por espaços administrativos,
ou seja, a modulação de gabinetes com seis metros
de largura, separados por corredor central de dois metros.
Nesses pavimentos, as salas retangulares já sediaram
as instalações da São Paulo Railway (1901/46),
da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (1946/57), da Rede
Ferroviária Federal (1957/92) e da Companhia Paulista
de Trens Metropolitanos (1992/2002).
Assim, das heranças espaciais do uso corporativo,
da natureza urbana do edifício e das diretrizes preservacionistas
brasileiras - a estação é tombada
por órgãos estadual (Condephaat), municipal
(Compresp/ DPH) e federal (Iphan), desde 1982, 1991 e 1996,
respectivamente -, os autores do projeto arquitetônico
tiraram os elementos de negociação para transformar
o uso da edificação. Algo como um quebra-cabeça.
Nesse processo, normalmente se evidencia em primeiro lugar
o que é proibido. No caso da Luz, não
se poderia, em igualdade de importância: interromper
o fluxo de pedestres e passageiros pelas três passarelas
sobre o trem, na cota da rua; interferir na arquitetura do
saguão central, o espaço articulador desse fluxo;
e, ao menos em princípio, mudar qualquer registro material,
independentemente da escala, da ala que ficou a salvo do incêndio
de 1946 (a oeste, posicionada na direção do
interior de São Paulo).
A setorização do museu funciona, então,
como um pórtico, que se estende por todo o comprimento
do segundo andar e, no solo, praticamente se resume aos pátios
laterais. A visitação transcorre de cima
para baixo, já que “o projeto tem essa posição
intrigante, de o chão continuar sendo estação”,
comentam os arquitetos. Possibilitar a movimentação
de subida e descida dos visitantes foi, assim, um dos desafios
iniciais da arquitetura. “O edifício era problemático
porque, originalmente ocupado por escritórios, possuía
escadas e elevadores pequenos, divididos em setores”, revela
Pedro.
Os quatro novos elevadores surgiram como alternativa para
a circulação vertical, tanto pela capacidade
de passageiros (35 pessoas cada um) como pela área
ocupada - pequena se comparada, por exemplo, ao traçado
de uma rampa. “A cidade é feita disso: transporte mecânico
horizontal, o trem e o metrô; e transporte mecânico
vertical, o elevador”, aponta Paulo. Além disso, dispositivos
eletromagnéticos fazem com que a nova caixa de escada
funcione também como rota de segurança.
Posicionados em pares nas extremidades longitudinais da edificação,
no eixo de portas existentes, os elevadores estão acima
do passeio público pouco mais de um metro, distância
mínima exigida para o poço técnico. Não
se poderia cavar esse espaço abaixo da cota da rua,
já que, no primeiro subsolo, estão os corredores
de acesso ao metrô e ao trem. Demandava-se,
portanto, a elevação da cota dos pátios
laterais, o que deu origem à laje de concreto em frente
das bilheterias.
“Os cálculos estruturais tiveram que considerar
o fato de não haver terra embaixo e, assim, os quatro
pilares de sustentação da cobertura metálica
dos pátios foram precisamente posicionados sobre paredes
do subsolo”, explica Pedro. Essa cobertura metálica,
requadrada por panos de vidro transparente, reproduz o desenho
daquela existente no espaço central da vizinha Pinacoteca
do Estado (leia PROJETO DESIGN 220, maio de 1998).
E, além de novas configurações dos pátios,
a inserção dos elevadores significou a abertura
de grandes vãos nas lajes do edifício,
para criar a torre de circulação propriamente
dita, medida que gerou polêmica com os órgãos
do patrimônio. Os arquitetos relatam que, mesmo já
aprovado o anteprojeto arquitetônico, em certo momento
essas aberturas foram questionadas e temporariamente
suspensas, sobretudo aquelas a serem executadas na ala oeste.
O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional na época, Antônio
Arantes, convocou então profissionais reconhecidos
na área, como o carioca Glauco Campelo e o paulista
Carlos Lemos. E o parecer do Iphan foi favorável
à proposta de Paulo e Pedro Mendes da Rocha.
“Grande parte dos técnicos é visceralmente contrária
à intervenção em bens tombados, e o projeto
interferia muito na edificação original.
Mas o importante é que não se prejudiquem os
espaços essenciais, que efetivamente caracterizam o
edifício, como a gare e a torre do relógio,
por exemplo. Fomos favoráveis à mudança
porque o tombamento não pode significar a mumificação”,
relata Carlos Lemos. Pedro enfatiza ainda: “Não se
pode tocar o prédio só um pouquinho, sob pena
de não se fazer uma boa intervenção.
Nossa preocupação foi sempre a de constituir,
além do passado, o patrimônio do amanhã”.
E se a questão não era rigidamente quantitativa,
um dos méritos do projeto foi transformar espaços
labirínticos e isolados, ainda que originais,
em uma extensa sala que percorre todo o comprimento da edificação.
Trata-se da Grande Galeria, um túnel escuro
concebido para a projeção de imagens, localizado
junto à fachada posterior. “Seria interessante exibir
mais uma vez o tamanho todo da gare. A galeria, assim, não
é grande nem pequena, tem o tamanho exato da estação”,
afirma Paulo.
Além do espaço expositivo multimídia,
a programação do museu se beneficia de outras
áreas conquistadas pela arquitetura. Posicionados no
terceiro andar - um pavimento construído nas alas leste
e central após o incêndio dos anos 1940 -, o
auditório e a denominada Praça da Língua
explicitam a abertura de lajes e a restauração
das faces internas dos telhados. Ao assistir às projeções
na praça, os visitantes passeiam, então, pelo
espaço até então inacessível da
mansarda central. Uma agradável surpresa, como
possivelmente será também o restaurante
previsto para a cobertura da ala oeste, com vista para o jardim
da Luz.
Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 315 Maio de 2006
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