Paulo Mendes da Rocha, MMBB Arquitetos e Alfonso Penela Fernandez
Plano diretor para universidade, Pontevedra, Espanha
    
 
 Maquete eletrônica da via principal, na qual se visualiza o acentuado desnível do terreno e a posição dos elevadores e
dos edifícios-garagem
    
 
Topografia construída preserva declividade e vegetação natural
 

Paulo Mendes da Rocha foi convidado, em 2004, para desenhar a ampliação do setor de ciências tecnológicas da Universidade de Vigo, na Espanha. Idealizada com a colaboração do escritório paulistano MMBB e do espanhol Alfonso Penela Fernandez, a proposta evoluiu para a concepção do plano diretor da unidade Lagoas-Marcosende, na cidade de Pontevedra. O projeto é estruturado por nova lógica de transposição do terreno e pela ordenada provisão da infra-estrutura necessária ao funcionamento das edificações atuais e futuras.

A equipe de Mendes da Rocha partiu da análise das características espaciais e naturais de um campus já consolidado, com quase 15 anos de existência, que possui grande demanda de expansão. Ela detectou como problemático o princípio passivo de ocupação do lote acidentado: a construção de edifícios segundo ofertas parciais da topografia, um raciocínio que privilegia a ocupação de áreas isoladas em decorrência de pequenas movimentações imediatas de terra. A prática é questionável nessa escala, sobretudo quando analisada sob a perspectiva de crescimento da instituição e da urbanização necessária à conexão das edificações.

O primeiro plano diretor de Lagoas- Marcosende, concebido pelo arquiteto espanhol Enric Miralles, nos anos 1990, elegeu como eixo emblemático e de convívio a curva de nível 460. E foi através dela que os arquitetos brasileiros alinhavaram o partido do novo projeto à geomorfologia. A cota é esclarecedora, sobretudo porque evidencia o limite de 60 metros de declive existente no terreno. O que Mendes da Rocha e equipe propuseram foi a criação de um sistema técnico e de circulação de pedestres pelo campus, independente dos “caprichos da topografia”, comenta o arquiteto Fernando de Mello Franco, do MMBB. Esse percurso não se ajusta, portanto, aos desníveis do solo, já que tem origem na lógica de circulação horizontal por quase dois quilômetros de caminhos suspensos. O plano diretor denominou-se, então, Plano de Vias Elevadas.

Seu traçado não só conecta as edificações existentes - um dos problemas que motivaram a contratação de Mendes da Rocha foi a evidente desarticulação entre as faculdades -, mas orienta a potencial expansão da universidade. Ampliação que deverá tangenciar os três pólos principais do campus: o de convívio, administrativo e de moradia; o das ciências tecnológicas; e o das ciências do mar.

A expansão será orientada, assim, por três eixos principais, ortogonais entre si. O mais extenso, uma via de 900 metros de comprimento que prolonga a cota 460, se desenvolverá no sentido leste-oeste, paralelo à área pontuada pela reitoria, biblioteca, praça de convívio e residência estudantil (várias dessas edificações projetadas por Miralles). E transversalmente, na direção norte-sul, dois eixos distanciados cerca de 350 metros consolidarão as áreas de tecnologia e de ciências marítimas. Essas vias menores correspondem às cotas 430 e 425, respectivamente.

O sistema de “construção” das curvas de nível, como o denomina Mendes da Rocha, lança a questão da articulação entre elas, assim como das edificações novas com as existentes. O projeto contempla, então, a circulação vertical por elevadores externos às edificações, além de vias secundárias para interligar as novas circulações aos prédios e áreas de convivência. Em determinados pontos das extensas passarelas, os edifícios complementares aos existentes, correspondentes à ampliação, se ligarão diretamente a elas através de alargamentos triangulares. Esses espaços funcionarão como saguões de convívio, locais para pequenas livrarias e cafés, entre outros serviços.

A exemplo das vias elevadas e dos edifícios-garagem previstos para substituir os esparsos e custosos estacionamentos a céu aberto, as novas edificações tocarão o solo o mínimo possível, favorecendo a preservação natural do campus. A idéia é “recuperar boa parte da vegetação natural”, explicam os arquitetos. Apenas pilares de concreto, com alturas variáveis em função das declividades, atingirão o solo. Sobre eles, treliças pré-fabricadas de aço cortén vencerão vãos de 65,8 metros, servindo ainda como delimitadores externos da galeria técnica de tubulações, abaixo dos corredores de pedestres.

Sobre a galeria, pórticos metálicos, também pré-fabricados e distanciados 9,40 metros, conformarão a estrutura das vias superiores, com construção do tipo balanços sucessivos. Neles se apoiarão as vigas da cobertura, da fachada e também as vigas de bordo da laje de piso, segundo informam os autores.

O projeto adapta-se ao rigoroso clima da região, muito frio e úmido, ao propor fachadas com tratamento térmico, sistema mecânico de exaustão pelo forro e caixilharia de vidro fixo em toda a extensão das vias. Ainda não há previsão para o início das obras.


Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 316 Junho de 2006

 
Os terminais das vias são pontos vitais do projeto, tanto pelo
convívio de funções quanto pelas transposições que abrigam
 
Maquete eletrônica do projeto. As duas vias transversais
e a principal, disposta na direção leste-oeste, ligam as
edificações existentes e as futuras ampliações de forma
independente da topografia
 
 
Maquetes físicas e conceituais do projeto
 
Autor
  Paulo Mendes da Rocha, formado
pela FAU/Mackenzie em 1954, é
um dos mais renomados arquitetos
brasileiros. Entre os prêmios que
conquistou, destaca-se o Mies
van der Rohe e o Pritzker 2006.
 
Colaboradores - MMBB Arquitetos
  Formados pela FAU/USP, Fernando de Mello Franco, Milton Braga (ambos em 1986) e Marta Moreira (1987) são sócios no escritório MMBB desde 1996. Receberam, entre outros, o prêmio da 4ª BIA pelo projeto da garagem do Trianon, em São Paulo. São colaboradores de Paulo Mendes da Rocha em projetos como o terminal rodoviário do parque D. Pedro 2°, o Centro Cultural da Fiesp, o Poupatempo Itaquera e o Sesc 24 de Maio, estes ainda com a presença de Angelo Bucci no escritório.
 
  
Croqui esquemático do projeto, com destaque para a cota 460, de Enric Miralles

Ficha Técnica

Plano diretor para o campus Lagoas-Marcosende/
Universidade de Vigo

Local
Pontevedra, Espanha
Início do projeto 2004
Área do campus
1.100.000 m2
Áreas construídas
previstas 22.864 m2 (vias elevadas); 2.115 m2 (elevadores); 94.270 m2
(edifícios-garagem); 230.000 m2 (novos edifícios)
Arquitetura Paulo Mendes da Rocha (autor);
MMBB Arquitetos e Alfonso Penela Fernandez
(colaboradores)

veja também
  Botti Rubin Arquitetos - Museu, São Paulo
  Paulo Mendes da Rocha, Piratininga Arquitetos e MMBB Arquitetos - Museus, São paulo
  Paulo Mendes da Rocha e Metro Arquitetos - Museu, Rio de Janeiro
  Paulo Mendes da Rocha e MMBB Arquitetos - Edifício público, Brasília
  Pedro e Paulo Mendes da Rocha - Museu, São Paulo
  Reinach Mendonça Arquitetos Associados - Residência em Bragança Paulista, SP
 
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