Herwig Shimizu Arquitetos
Santuário de Santa Paulina, Nova Trento, SC
  
    
 
 A forma ascendente da cobertura, realçada pela entrada de luz filtrada, estimula a meditação
     
 
Em busca da luz exterior
 

Ícone da edificação religiosa, a cobertura de linhas ascendentes estimula a meditação e a busca da espiritualidade, como se fosse um manto que, singelamente lançado sobre a construção, abriga a nave principal, capelas e área de apoio, além de definir os acessos ao santuário.

Região que acolheu Amabile Visintainer quando ela imigrou com sua família, de Trento, na Itália, para o Brasil, no século 19, o bairro de Vígolo, em Nova Trento, SC, presta uma homenagem à madre que se tornou a primeira santa brasileira. Inaugurado 15 anos depois de concluído o processo de beatificação (etapa anterior à canonização, que ocorreu em 2002, ambas sob o pontificado de João Paulo 2º), o Santuário de Santa Paulina expressa o trabalho concebido pelo escritório Herwig Shimizu Arquitetos, que, por meio da releitura da arquitetura sacra tradicional, procurou representar, em composições geométricas e volumétricas, a simplicidade que permeou a vida da religiosa.

O programa desenvolve-se integralmente sob uma cobertura modulada a cada 7,5 metros, de caimento em duas águas, com desenho que remete visualmente às tradicionais vestimentas de algumas ordens religiosas. São três setores distintos - nave principal, capelas e área de apoio -, além de circulações e acessos. Estes são marcados pelo movimento da cobertura, nas laterais da nave principal, onde se localizam as capelas, e pela torre central, representando a Santíssima Trindade, na entrada. A nave possui planta de formato cônico, permitindo a visualização do altar por todos os fiéis. A sacristia, localizada em ponto estratégico, tem fácil ligação com altares, capelas e confessionários.

 
O Santuário de Santa Paulina está localizado em Nova Trento,
a 80 quilômetros de Florianópolis
 
A rampa de acesso ao santuário começa na praça central,
onde está localizada a Igreja de Santa Paulina
 
 
 Nas laterais da nave principal, onde se localizam as capelas, os acessos ao santuário são marcados pelo movimento da cobertura
     
 

Espaços iluminados

“A forma ascendente da cobertura tem como propósito a busca da espiritualidade e a meditação, realçadas pela entrada de luz filtrada na parte mais alta. A iluminação e a ventilação naturais, através de faixa contínua no eixo central da cobertura, buscam a criação de um espaço repleto de luz vinda das alturas, como forma de inspiração à meditação e às preces”, afirmam os arquitetos. O ar entra por janelas laterais, circula pelo interior do templo e sai pelo lanternim central.

A solução construtiva atendeu às necessidades de amplitude dos espaços, com o objetivo de manter a nave e as capelas totalmente isentas de interferências visuais. Para isso foram eliminados pilares internos e suavizada a forma das vigas metálicas aparentes. A estrutura principal é composta de pilares de concreto moldado in loco, duas vigas de concreto protendido e estrutura metálica para apoio da cobertura.

Instaladas a 28 metros do piso, as vigas paralelas de concreto protendido apóiam-se em dois grandes pilares, a leste e a oeste da edificação. Elas vencem vão livre de 56 metros, equivalente a toda a profundidade da nave principal e capelas, e servem, também, para sustentar o lanternim. Apoiadas nos pilares das extremidades e nas vigas protendidas, as vigas metálicas aparentes, do tipo caixão, de apoio da cobertura, vencem vãos de 35 metros.

Para evitar variações bruscas de temperatura e minimizar o ruído externo, principalmente na ocorrência de chuvas, a cobertura termoisolante foi construída com sistema de telha zipada, que oferece duplo isolamento termoacústico com lã mineral. Na parte inferior da cobertura, chapas de alumínio perfuradas funcionam como forro e também colaboram com a acústica do ambiente.


Vistas para a mata

A escolha dos materiais construtivos recaiu sobre elementos puros, que atendem às exigências de fácil manutenção e vida útil prolongada. Estas foram condicionantes do projeto, uma vez que o santuário foi projetado para receber cerca de 3 mil pessoas na nave principal, 150 na capela de Santa Paulina e mais cem na capela do Santíssimo. Para integrar o ambiente de orações à natureza do entorno, proporcionando amplitude visual da mata atlântica, no vale do rio Tijucas, os arquitetos optaram pelo envidraçamento das fachadas.

A face principal recebeu vidros laminados do piso ao teto. “Por se tratar de um santuário, o desejo inicial dos autores era utilizar um vidro azul de baixa reflexão, para permitir a integração interior/exterior”, explica a arquiteta Cláudia Mitne, gerente de marketing da Glassec. Mas os produtos disponíveis no mercado tinham reflexão interna muito elevada. “Com as luzes acesas, principalmente à noite, o reflexo traria desconforto”, afirma a arquiteta.

A solução veio com a utilização do vidro Azul Energy Special, que, mesmo não sendo refletivo, atendeu à cor especificada pelo projeto e às solicitações de conforto térmico. A fachada structural glazing é composta por 680 metros quadrados daquele produto, laminado de oito milímetros, e 570 metros quadrados no padrão opaco. Na face leste, foram aplicados 24 metros quadrados de vitrais.

Tinha-se como premissa de projeto a leveza e a segurança da construção, tornando o ambiente integrado à paisagem e, ao mesmo tempo, protegido. Como quesito para a especificação, foram definidos vidros laminados, partindo-se, então, para composições distintas em cada fachada, em função da incidência solar.

O acesso ao santuário ocorre por escadaria ou rampa, ficando a aproximação de veículos restrita a ocasiões especiais e a pessoas portadoras de deficiência física. A rampa começa na praça central, onde está localizada a igreja original de Santa Paulina. O percurso de veículos também tem origem na praça, passa por vários monumentos comemorativos e circunda o templo, possibilitando o embarque e o desembarque na área desejada


Texto resumido a partir de reportagem
de Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 45 Abril de 2006

 
Telhas de alumínio zipadas, com sistema duplo de isolamento
termoacústico, garantem o conforto ambiental
 
A solução construtiva criou espaços amplos, com o objetivo
de manter a nave principal e as capelas totalmente livres de
interferências visuais
 
A nave principal possui planta de formato cônico, permitindo a
visualização do altar por todos os fiéis
 
Montagem da cobertura, que possui faixa contínua de vidro no eixo central para levar luz natural ao interior da edificação
 
Montagem da cobertura, que possui faixa contínua de vidro no eixo central para levar luz natural ao interior da edificação
 
Montagem da cobertura, que possui faixa contínua de vidro no eixo central para levar luz natural ao interior da edificação
 
  
 
Para integrar o ambiente de orações à natureza do entorno, o projeto optou pelo envidraçamento das
fachadas principal e laterais

Ficha técnica

Obra:
Santuário de Santa Paulina
Cliente:
Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição
Local:
Nova Trento, SC
Projeto:
2002
Início da obra:
junho de 2003
Conclusão da obra:
janeiro de 2006
Área do terreno:
376.948 m2
Área construída:
9.616,61 m2


Equipe técnica


Arquitetura:
Herwig Shimizu Arquitetos - Chirochi Shimizu (autor); Rolf Augusto Herwig, Liege Ferreira, Jorge Alberto da Luz, Ruben August e Paulo Henrique Herwig Gerenciamento da obra: Rolf Augusto Herwig (coordenador geral); Ruben August (coordenador executivo); Paulo Henrique Herwig (arquiteto residente)
Estrutura de concreto armado e estrutura metálica:
OA
Sonorização e acústica:
Resound
Ar condicionado e ventilação:
Michelena
Construção:
Construtora Stein
Fotos:
Carlos Gueller

 

Fornecedores

Estrutura metálica: Krieger (fabricação e montagem); Cobertura de alumínio: Bemo (fabricação e montagem ); Esquadrias especiais: Alumonta; Perfis de alumínio: Belmetal; Vidros: Glassec

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