Aflalo & Gasperini Arquitetos
Escola maternal, São Paulo
       
 
  As áreas livres funcionam como paisagem interna, ambientadas por iluminação natural e requintado projeto paisagístico
       
 
Iluminação, cores e materiais indicam a transição de espaços
 

Com a experiência de mais de 40 anos de atuação, Gian Carlo Gasperini refere-se à arquitetura da escola maternal do Colégio Visconde de Porto Seguro, no bairro do Morumbi, em São Paulo, como um projeto conceitual. “É uma obra que considero próxima dos meus ideais, pela forma como se coloca ao uso das crianças”, comenta. Luz zenital, faixas de madeira e grafismos no piso identificam o acesso às salas.

O que está em jogo no novo edifício da instituição paulistana de ensino, inaugurado no início de 2006, é o entendimento da arquitetura como a ciência da criação de espaços. Assim, o projeto se estrutura a partir do traçado em V das circulações, tratadas como duas generosas varandas interiores. Elas conectam pontos extremos de acesso, originários das cotas térrea e inferior, e conformam ainda a paisagem interna da edificação.

As varandas contínuas setorizam a área de salas de aulas, com orientação nordeste, e aquela que abriga atividades de apoio, como salas de música, brinquedoteca e administração. O primeiro setor possui dois pavimentos, sendo o inferior destinado a estacionamento coberto, enquanto o bloco de entrada é térreo. Nas laterais dos corredores, as classes preenchem a modulação de cerca de cinco metros da estrutura de concreto e, conformadas por alvenaria de vedação, integram-se aos ambientes comuns através de grandes caixilhos.

Junto à entrada de cada classe, a cobertura metálica espacial da circulação permite iluminação zenital, o que faz com que a luz atue como elemento simbólico da passagem de uma atividade a outra. Essa identificação é reforçada por grafismos de mosaico e faixas de madeira no piso. Além disso, nos fundos das salas de aulas, pátios internos e abertos otimizam a iluminação e o contato com a paisagem circundante.

Os espaços comuns, de recreação, caracterizam-se por elementos e materiais que remetem à água (como o azul do caminho sinuoso), à fauna (os mosaicos que ilustram ícones de animais) e à vegetação, implantada em floreiras curvas. “O maternal simboliza o primeiro contato social da criança, sua experiência inicial fora dos domínios domésticos. Interessa-nos pensar como elas vivem, como compreendem as cores, quais suas referências, para, assim, simbolizar a passagem de um ambiente a outro”, comenta Gian Carlo Gasperini, um dos autores do projeto.

Ao contrário da previsão inicial de construção junto a um dos principais acessos da escola, Gasperini defendeu a escolha de um local mais reservado, onde a proximidade com a paisagem atuasse como referência à linguagem da arquitetura. “Procuramos a todo momento misturar o ambiente natural ao construído”, explica o arquiteto.

Iluminação natural, relação entre áreas abertas e cobertas, diversidade de pésdireitos e até pormenores paisagísticos são, portanto, os elementos centrais do projeto. O aspecto lúdico, por sua vez, está presente até em equipamentos de origem estritamente funcional, como a rampa curva de concreto que conecta a cota do estacionamento com o pátio do vértice das varandas. “É um prazer ver as crianças correndo ali. Fiz esse projeto com paixão e gostaria de me dedicar, com tal nível de detalhamento, também em escolas públicas”, declara Gasperini.


Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 317 Julho de 2006

 
O maternal foi implantado em área com vegetação natural e se desenvolve na transição entre duas cotas de nível
 
Os materiais remetem à arquitetura do “velho colégio”, explica Gasperini, referindo-se ao edifício projetado por seu escritório na década de 1960
 
 
Uma generosa rampa circular conecta os andares inferior e térreo da edificação
 
Os pátios individuais das salas de aulas favorecem a iluminação e a integração visual com a paisagem
 
  Gian Carlo Gasperini diplomou-se em 1949 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e obteve título de doutor pela FAU/USP em 1973; Roberto Aflalo Filho graduou-se pela FAU/USP em 1976 e é mestre pela Universidade Harvard, em Cambridge, EUA (1980); Luiz Felipe Aflalo Herman formou-se em 1978 pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Brás Cubas. Os três são titulares do escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos.
 
       
   
  As áreas livres funcionam como paisagem interna,
ambientadas por iluminação natural e requintado projeto paisagístico
  Cada sala de aulas tem, ao fundo, um pátio descoberto, que se projeta em balanço sobre a via de acesso ao estacionamento inferior
       
 
  O acesso às salas é definido por faixas de madeira no piso
   
   
  A articulação dos dois corredores é demarcada por equipamentos de recreação e pelo painel de mosaico   Sala de aulas. Além de garantir iluminação natural, o pátio aos fundos funciona como área de recreação
       
   
  Vista do espaço de transição entre o corredor de entrada e o das salas de aulas   A integração entre espaços internos e externos é exemplificada na vista da piscina. Destaca-se a convivência entre pés-direitos diversos
  
Vista do corredor das salas de aulas em direção ao refeitório. A sinalização das salas é realizada
por ícones reproduzidos no piso e em placas circulares, alternância de materiais e uso da cor
 
Faixas perpendiculares de madeira indicam o acesso às salas de aulas, administrativas e de
atividades complementares

Ficha Técnica

Maternal do Colégio Visconde de Porto Seguro Unidade 1

Local
São Paulo, SP
Início do projeto
2005
Conclusão da obra
2006
Área do terreno
100.591 m2
Área construída
2.554,16 m2
Arquitetura
Aflalo & Gasperini Arquitetos - Gian
Carlo Gasperini, Roberto Aflalo Filho e Luiz Felipe
Aflalo Herman (autores); Carlos Fernando Guimarães
(coordenador); Liliana Luna, Fernando Iglesias
Thompson, Rebeca Perrella, Octavio Lopes Neto,
Camila Hirota, Milena Brasil, Jaime Cunha Júnior,
Marcelo Possagnolo, Carolina Caires e Maria Luíza
Lopes (colaboradores)
Interiores das salas de aulas
Contemporânea -
Juliana Vieira e Ana Sylvia Bardini
Luminotécnica
Franco & Fortes
Paisagismo
Isabel Duprat
Ar condicionado
Teknika
Automação, instalações elétricas e hidráulicas
Soeng
Estrutura de concreto
Aluízio D’Ávila & Associados
Estrutura metálica
Alpha
Fundação
Consultrix
Impermeabilização
Proassp
Construtora
Moura Schwark
Fotos
Nelson Kon

 

Fornecedores

Aeromecânica (ar-condicionado); Air Melting (equipamentos de exaustão); Aluforte (caixilhos); Artesana (forros); ARTR (estrutura metálica); Dautec, Lumini (luminárias); Deca (peças sanitárias); Delifol, Baden (revestimento vinílico da piscina); Engetax (elevadores e monta-cargas); Fademac (piso das salas de aulas); Farkuh (granilite); Gail (pastilhas cerâmicas); Geter (bancada de composto de acrílico e minerais naturais); Glassec (vidros); Gtel (instalações elétricas e hidráulicas); Integrall (impermeabilizações); La Fonte (ferragens); Macom (equipamentos de cozinha); Micromar (mobiliário); Neocom (divisórias sanitárias); Perfilor (telhas metálicas); Permetal (telas metálicas); Philips (lâmpadas); São Rafael (câmaras frigoríficas); Stemac (gerador); Sul Metais (brises); Tecnofontes (fontes); Vidrotil (pastilhas e mosaico de vidro); Werden Solidor (piso elevado)

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