Kruchin Arquitetura
Residência, Ubatuba, SP
 
  A casa, de volume único, está assentada sobre uma placa de concreto polido afastada do solo, para evitar que a umidade do terreno se propague para o interior
 
Pórticos de madeira estruturam moradia e demarcam funções

Nove pórticos paralelos estruturam a casa projetada por e para Samuel Kruchin, na praia Vermelha do Sul, em área do município de Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Trata-se de peças de origem certificada, compostas por madeira laminada e colada, que o arquiteto preferiu utilizar em lugar das toras maciças - estas, para ele, quase sempre de origem indefinida, mas certamente oriundas de algum trecho de floresta que deixou de existir.

A praia Vermelha do Sul, à qual se tem acesso por uma estrada secundária que parte da rodovia Rio-Santos, no trecho que liga Caraguatatuba a Ubatuba, é também conhecida como “praia dos arquitetos”. Não sem motivo: importantes personagens da arquitetura paulista projetaram - alguns deles para seu próprio lazer - casas de veraneio naquele trecho do litoral norte paulista. Quem quiser pesquisar ou conhecer as várias versões dos profissionais paulistas para o tema tem, naquela região, uma boa fonte de estudo.

A interpretação do “paulistano” Samuel Kruchin (que nasceu em Porto Alegre, mas exerce seu ofício na capital paulista) para a composição é relativamente recente: o projeto foi desenvolvido em 2004 e a obra, concluída em 2005, recebeu o nome Casa das Saíras - referência aos pássaros de colorida plumagem, comuns naquela região. O lote possui 10 mil metros quadrados e fica afastado da praia cerca de 300 metros - em épocas passadas, desenvolveu-se, no terreno, a cultura da mandioca, ali conhecida como mandioca-caiçara.

 
Nos dormitórios, as portas voltadas para a baía fazem referência, com sua variação cromática, à plumagem dos pássaros da região
 
Vista a partir dos dormitórios em direção ao espaço social/de convívio
 
  O pátio central, que separa a área íntima da social, tem piso de madeira. Ao fundo, à esquerda, a circulação
 

Menos de 10% do sítio foi utilizado pelo arquiteto para a edificação. Para sua localização, Kruchin optou por uma clareira a meia colina, na qual implantou um patamar - uma placa de concreto polido - sobre o qual apoiou a residência, desenvolvendo o programa em um único pavimento (só a garagem ocupa parte do piso inferior). Nessa plataforma foram ancorados nove pórticos paralelos de madeira laminada e colada de alta resistência, que estruturam a moradia e, ao mesmo tempo, demarcam, com seu ritmo, as funções internas.

Kruchin conta que a opção pela madeira industrializada laminada e certificada se deveu, entre outras razões, à proposta de suprimir da residência as grandes toras maciças de madeira - “de origem indefinida, mas certamente oriundas de algum trecho de floresta que deixou de existir”, ele analisa.

Numa das extremidades, a de acesso, o arquiteto posicionou as áreas social/de convívio e serviços; no outro lado, implantou a parte íntima. Elas são intercaladas pelo vazio do pátio. “O espaço social”, descreve Kruchin, “é limitado por planos envidraçados, formando uma película que, ao mesmo tempo, nos aproxima e nos protege da imponência da paisagem natural.” Já os setores privados são abertos à placidez da baía e das montanhas que cercam a moradia. É através do pátio central que se vislumbra a continuidade da colina, além de um recorte do céu e fragmentos da mata ao fundo da casa. Com piso de madeira, o pátio se integra à varanda, que percorre toda a face voltada para a baía.

A cobertura, que tem cerca de quatro centímetros de espessura, foi executada com painéis de lascas de madeira (MDF) sobre os quais foram dispostas placas de isopor, que arrefecem as altas temperaturas. Acima de tudo, uma manta assegura a estanqueidade do conjunto. Um sistema de ventilação natural - do qual faz parte o telhado com lanternim - através do forro permite o equilíbrio térmico desejado. Para o piso foi utilizada uma placa de concreto polido, elevada do solo, que atenua a acentuada umidade local.

Kruchin revela que a intenção do projeto era “constituir uma múltipla interação entre arquitetura e paisagem; entre horizonte e lugar; entre imponência e intimidade; entre opacidade e transparência; entre o sol intenso e a chuva tropical abundante; entre leveza e consistência; entre o movimento das cores dos seres da mata e o pano de fundo desta, estável e permanente; enfim, entre natureza e cultura”.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 330 Agosto de 2007

 
A varanda coberta percorre toda a face da moradia orientada para o Atlântico
 
Detalhe da junção de três materiais presentes na casa: vidros, viga metálica e madeira
 
Nos dormitórios, as portas deslizam num sistema de roldanas que correm sobre trilho fixado à viga metálica
  Samuel Kruchin é arquiteto pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, formado em 1980. O escritório Kruchin Arquitetura, constituído em 1988, é responsável, entre outros trabalhos, por diversos projetos de restauro e recuperação de edifícios históricos
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Ficha Técnica

Residência unifamiliar
Local
Ubatuba, SP
Início do projeto 2004
Conclusão da obra 2005
Área do terreno 10.000 m2
Área construída 370 m2
Arquitetura Kruchin Arquitetura - Samuel Kruchin (autor); Alexandre Franco Martins (colaborador)
Estrutura Companhia de Projetos (concreto); Alberto Fridman (madeira)
Fundações Zaclis Falconi Engenheiros Associados e Berfac
Elétrica e hidráulica Escritório Eurico Freitas Marques
Sondagens Fernando Hehl Caiaffa
Fotos Sérgio Guerini

 
Os pilares, parte do pórtico laminado de madeira, estão engastados na fundação por peças metálicas, material recorrente na obra de Kruchin
 

Fornecedores
Lajes Paulista (estrutura de concreto); Esmara (estrutura de madeira); Alwitra (cobertura); Perc (esquadrias)

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