Paulo Mendes da Rocha
Museu-escola, Santo André, SP
 
  Vista das faces posterior e norte do pavilhão, que parece flutuar sobre o verde
 
Construção aflora no parque como uma grande rocha suspensa

O projeto da Sabina - Escola Parque do Conhecimento foi encomendado a Paulo Mendes da Rocha pela prefeitura de Santo André, no ABC paulista, que pretendia inserir no parque Central da cidade um museu de ciências associado à rede pública de ensino. O programa inicial foi ampliado para que a construção viesse a abrigar outras atividades, como exposições de arte e eventos diversos. A solução adotada é a de um pavilhão semi-enterrado, com cerca de 180 metros de extensão e grandes vãos, que usa duas vigas-calha como fachadas.

A Sabina (inicialmente chamada Escola Parque Arte e Ciência/Epac) nasceu de uma iniciativa da prefeitura de Santo André, que idealizou um museu de ciências a fim de oferecer às crianças da rede municipal de ensino uma complementação ao programa de iniciação científica. Já com Paulo Mendes da Rocha à frente do projeto, a idéia evoluiu para um museu-escola aberto à visitação pública, que abrigasse também atividades científicas, artísticas e eventos diversos.

O equipamento está inserido em área com cerca de 35 mil metros quadrados, no extremo sudoeste do parque Central. Por estar próximo de vias lindeiras, foi possível estabelecer um acesso independente ao museu-escola. “A idéia era preservar as demais atividades do parque da intensa movimentação dos ônibus escolares”, detalha Milton Braga, do MMBB, escritório que colaborou com o projeto.

 
As extremidades sul e norte das grandes vigas são caracterizadas por balanços de dez metros
 
Apesar de grande e imponente, o pavilhão tem acesso discreto, por meio de rampa estreita que conduz à galeria no nível inferior
 
  Vista posterior e face sul. O grande elemento vertical branco marca o posicionamento do pátio da cantina
 

A solução adotada por Mendes da Rocha transmite a idéia de uma grande pedra flutuante sobre o verde do parque. Duas grandes vigas-calha, cada uma apoiada em quatro pilares, com vão de 55 metros e balanço de dez nas extremidades, sustentam a cobertura metálica e funcionam como fachadas cegas para o pavilhão semi-enterrado, organizado em dois níveis, com 184 metros de extensão e 31 de largura.

O vão de quase dois metros entre a viga-calha e o guarda-corpo de concreto é fechado por caixilharia basculante disposta em plano horizontal, o que dá ao pavilhão aspecto hermético. Esses caixilhos respondem pelo contraventamento das fachadas e propiciam tanto ventilação constante quanto luminosidade natural indireta. “Não é possível pensar um pavilhão desses como se fosse uma casona. Além disso, sem caixilhos na vertical, não há luz do sol nos interiores e a construção torna-se independente da orientação”, explica Mendes da Rocha.

 
As faces menores têm fechamento em chapas de aço pintadas, fixadas em estrutura também metálica
 
  Áreas internas recebem iluminação natural por reflexão, através de caixilhos em planos horizontais
 

Ao chegar ao pátio frontal - um grande estacionamento -, o visitante é surpreendido pela ausência de uma entrada principal que possa ser imediatamente identificada. Discreto, o acesso se faz por meio de uma rampa estreita, que leva à pequena galeria no piso inferior. Delineada pelos blocos dos sanitários, a galeria conduz finalmente ao centro do pavilhão. Segundo Mendes da Rocha, esse desenho do acesso toma por inspiração as cavernas pré-históricas, como a de Altamira, na Espanha. “É uma construção enigmática, que tem por objetivo seduzir as crianças para o universo do conhecimento”, explica.

A organização espacial aproveita as grandes dimensões para criar áreas fluidas, que oferecem grande flexibilidade de utilização. Os dois pavimentos são permeáveis entre si. Esse resultado foi alcançado por meio de rampas nos dois extremos, a fim de agilizar os percursos, e por três recortes na laje superior que abrem pés-direitos de 15 metros.

 
Grandes recortes na laje superior abrem áreas com 15 metros de pé-direito
 
  Espaços amplos, visual e fisicamente integrados, criam percursos agradáveis e áreas com flexibilidade para acolher exposições de portes variados
 

Nos 5,2 mil metros quadrados de área do piso inferior há dois grandes setores de exposição - no lado norte, à esquerda de quem entra, localiza-se o de artes plásticas e no sul, o de ciências, complementado por oficina. Na porção central concentram-se, além do acesso e bilheteria, ambulatório, espaços administrativos e a cantina, esta voltada para um amplo pátio descoberto. Ele é delimitado por painéis amarelos por dentro e vermelhos por fora, que podem ficar abertos, um apoiado no outro, de modo a formar triângulos e oferecer maior resistência à ação do vento. Para dar apoio didático, foram dispostos ainda nesse piso um anfiteatro e duas salas de aulas na extremidade sul.

O pavimento superior, com 2,8 mil metros quadrados, apresenta grandes áreas livres de exposição e acomoda setores administrativos e biblioteca, respectivamente alinhados com as fachadas norte e sul, diferenciadas por apresentarem caixilhos de vidro em plano vertical para permitir a incidência de luz.

Pelo projeto original, o amplo pátio externo da cantina daria acesso a um sofisticado auditório de múltiplo uso, ainda não construído. Outro elemento previsto em projeto mas não executado é o torreão do pêndulo de Foucault, equipamento que demonstra a rotação do planeta Terra. Em seu lugar, foi erguida uma torre menor, que abriga mais um espaço de exposições no nível inferior e caixas-d’água no superior.

As estruturas empregam técnicas mistas, como piso inferior em laje de concreto protendido e superior com laje constituída por painéis alveolares de concreto protendido pré-fabricados. Vigas, pilares, rampas e passarelas foram executados com concreto moldado in loco. As fachadas norte e sul, que vedam os vãos entre as grandes vigas-calha, são estruturadas por treliças metálicas, que também apóiam os extremos das terças da cobertura, composta por telhas metálicas duplas com interior preenchido por material isolante.





Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 330 Agosto de 2007

 
Painéis com uma face vermelha e outra amarela delimitam o pátio e a cantina
 
Emoção raptada
Recordo-me de algumas gratas surpresas em visitas às obras de Paulo Mendes da Rocha, sejam elas recentes, como a fantástica (e renegada) casa Brasley Pessoa, ou antigas, como o Serra Dourada, certamente o estádio mais interessante do país. Por isso, aguardei ansioso a oportunidade de visitar a Sabina. Encomendado pelo prefeito Celso Daniel como rescaldo da proposta de urbanização do eixo do Tamanduateí, o projeto de um museu de ciência para crianças desenhado por Mendes da Rocha poderia ser fascinante. Não só pela expectativa de ver a mais nova construção de um Pritzker, mas, sobretudo, pelo tema que o espaço abriga. Afinal de contas, parte do discurso do arquiteto se apóia nas conquistas da ciência universal.

Antes de visitar a obra já possuía algumas informações sobre o projeto, pois, há cerca de um ano, tive acesso aos desenhos. Mas confesso que me lembrava apenas do sistema estrutural semelhante ao aquário de Santos, da diferença de nível entre o acesso e o térreo, da implantação em um parque e do pêndulo de Foucault.

Fui a Santo André acompanhado de um amigo, também entusiasta da obra do arquiteto. Chegando lá percebi que a área verde ocupa um pequeno vale e, em quase todo o perímetro, se comporta como fundo de quadra. Com alguma boa vontade e muita expectativa, de longe e ainda no carro, tivemos o primeiro contato visual com o volume branco: ele fica no ponto mais alto da área livre. O acesso se dá por uma viela. O museu estava fechado, tínhamos visita agendada. O vigia nos aconselha a deixar o carro lá dentro.

O pátio de acesso é um grande estacionamento. Seus limites são o talude e a construção - vista dali, uma imensa viga apoiada em quatro pilares. De longe, não há como observá-la. De perto, não tem muita novidade - a opacidade entre os vãos torna o esforço discutível. Para os arquitetos, certamente lembrará Artigas e seus paulistas; para as crianças do ABC, deve lembrar as fábricas em que trabalhavam os avós.

Pergunto pelo acesso. “Desce aquela rampa”, é a resposta. Como estamos fora da rotina de visita, suponho que aquele acesso no meio do estacionamento, discreto e estreito, é a entrada de serviço. Depois de uma acanhada abertura zenital sem emoção alguma, lá embaixo avisto o guarda-volumes e a bilheteria. Questiono outro funcionário, que logo responde: “Esta é a entrada principal, sim”. Lembro-me, saudoso, da catedral de Niemeyer.

Como o acesso é subterrâneo, a leitura da estrutura é difícil até mesmo para quem está acostumado a decifrar enigmas arquitetônicos. Os pilares não estão presentes, mas logo lembramos o corte clássico do capixaba, certamente a gênese do projeto. O espaço interno é usual: um piso térreo mais mezanino, ligados por rampas e vazios.

Os pequenos vãos da estrutura do mezanino contrastam com o esforço estrutural da cobertura. Parece que este foi realizado em prol da entrada de luz indireta, mas, pelo efeito obtido, não vale o exercício. A cada questão, nossa guia - que acompanhou todo o desenvolvimento do projeto - nos brindava com um banho de água fria. “Essa escadinha foi exigência dos bombeiros”, ou “esse alçapão é a saída de emergência”, e, só para não me alongar, a última: “o pêndulo não iria funcionar”. Tudo bem, a obra, sendo pública, parece ter sofrido seus problemas: a falta do volume do auditório faz parecer estranha a relação dos muros de arrimo com o terreno.

Eu queria ser surpreendido, e minha única surpresa foi a citação a Artigas na resolução das pias dos sanitários.

Depois do tour, tentamos a todo custo guardar na retina uma imagem do grande esforço estrutural visto do parque. Como há uma infeliz grade entre o museu e o parque, resolvemos buscar, de carro, outros acessos. Entramos em vários, com o auxílio de simpáticas vielas. Em nenhuma, o volume nos tirou o fôlego. Voltei para casa com um sorriso amarelo, esperando que depois as fotos e os desenhos trouxessem emoção para a compreensão do projeto. Mas será uma emoção hermética, de arquiteto, do prazer de ler um corte. Emoção que a vivência fria e pura do espaço não foi capaz de revelar.
(Fernando Serapião)
  Paulo Mendes da Rocha, formado pela FAU/Mackenzie em 1954, é um dos mais renomados arquitetos brasileiros. Entre os prêmios que conquistou, destaca-se o Pritzker (2006)
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Ficha Técnica

Sabina - Escola Parque do Conhecimento
Local
Santo André, SP
Início do projeto 2003
Conclusão da obra 2007
Área construída 8.080 m2
Arquitetura Paulo Mendes da Rocha (autor); MMBB - Fernando de Mello Franco, Marta Moreira e Milton Braga (colaboradores); Márcia Terazaki, Marina Sabino, Renata Vieira e Thiago Rolemberg (equipe)
Estrutura Kurkdjian & Fruchtengarten
Instalações Procion
Ar condicionado JMT
Acústica Acústica & Sônica
Impermeabilização Proassp
Orçamento Rosângela Castanheira
Construção H. Guedes Engenharia
Fotos Nelson Kon

 
Vista do pátio com aparelhagem para experimentos ao ar livre
 

Fornecedores
Pisoag do Brasil (piso elevado); Pilkington Brasil (vidros); Dragões Esquadrias Metálicas, Pamiro Serralheria Artística (serralheria); Pindorama (paisagismo); Gerdau Açominas (aço); Açotec (estrutura metálica); Concrepav, Engemix (concreto); Ibitirama, Cibradis, Cimemprimo (cimento); Diamade, Beija-Flor, Atac (madeiras); Stemac (grupos geradores); Bertel (material elétrico); Hidro Ferpaulo (material hidráulico)

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