Seguindo ensinamentos preservacionistas de Lucio Costa, Paranhos optou por apoiar as construções em pilotis, com elementos que fazem contato apenas pontual com o solo e mantêm a integridade da paisagem. “É o chão que continua”, diz Paranhos, em citação a Costa. A estratégia de ocupação baseia-se em dois eixos perpendiculares, que fazem sutil referência ao sinal-da-cruz. A implantação está em acordo com a legislação ambiental, que estabelece a distância mínima de 30 metros entre qualquer construção e as margens do lago.
A topografia em declive fará com que o conjunto possa ser visualizado de cima, do acesso principal à gleba. À medida que se aproximar, o visitante descobrirá, em meio ao verde, os espaços das edificações contemporâneas, de espírito monástico. Os dois pavilhões de aço e concreto, em dois níveis, são marcados por linhas simples, despojadas de qualquer tipo de luxo ou ostentação. Na área central a eles, destaca-se a igreja, cujos fechamentos translúcidos inundarão o interior de luz. Uma caixa vazia sobre o altar cria a verticalidade que se contrapõe à horizontalidade do conjunto.
O primeiro eixo marca o acesso às áreas de uso público, tais como espaço de celebração, hospedaria (que atende leigos interessados em passar temporadas no mosteiro) e área social destinada a eventos e palestras. O segundo abriga ambientes restritos aos monges. Nesse bloco, o ambiente principal é o das celas no entorno do claustro, pátio que os religiosos utilizam em seus momentos diários de contemplação e reflexão. Ali se situam também ateliês para trabalhos manuais, refeitório, capela, sala de estar, biblioteca e a sala de capítulos, onde os monges se reúnem para debater questões internas, religiosas ou culturais.
“Normalmente, a arquitetura dos mosteiros divide-se em quatro braços, sendo que três deles funcionam como barreiras que restringem a ambiência do claustro. No caso do mosteiro de Brasília, a própria natureza desempenha o papel de um dos quadrantes, contribuindo para ocultar e isolar a área privativa dos religiosos”, detalha o arquiteto.
Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 336 Fevereiro de 2008 |