Ana Catarina Ferreira da Silva
Hotel, Prado, BA
Plantas, cortes e fachadas
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  Os bangalôs estão separados entre si apenas pela vegetação
 
Técnicas vernaculares dão brasilidade a pousada de luxo
A arquiteta portuguesa Ana Catarina Ferreira da Silva costumava passar férias no Brasil e sentia falta de opções de hospedagem que valorizassem a arquitetura brasileira e mostrassem personalidade diferente dos padrões das redes internacionais. Há cinco anos, ela aportou no Sul da Bahia e se propôs a construir e gerenciar o hotel Tauana, obra elaborada a partir de técnicas vernaculares e soluções de interiores que combinam leveza e cuidado nos detalhes.

A praia de Corumbau, no município baiano de Prado, integra o roteiro ecoturístico do Sul da Bahia e está situada entre os parques nacionais do Descobrimento e Monte Pascoal, a uma hora e meia de viagem por rodovia do centro urbano mais próximo. Na região, onde a esquadra de Pedro Álvares Cabral ancorou em 1500, sobrevivem tribos indígenas e porções remanescentes de mata atlântica. Ali também se localiza a área escolhida para a implantação do hotel Tauana, uma fazenda que recentemente foi alvo de projeto de reflorestamento e recebeu mais de 30 mil mudas de espécies nativas.

Para projetar o hotel - que pode ser mais bem definido como uma pousada de luxo composta por nove bangalôs, bloco social e sede administrativa -, Ana Catarina Ferreira da Silva buscou desenho e tipologia tipicamente brasileiros e teve o cuidado de inserir os volumes com mínima interferência na paisagem, onde ainda há vestígios da era pré-cabralina. “O objetivo era que, quando visto do mar ou da praia, o hotel não se destacasse em meio à vegetação”, detalha a arquiteta.

 
O deque é feito com madeira garapa
 
No interior do bloco social combinam-se peças artesanais e de design
 
  Amplos panos de vidro refletem a paisagem
 

Contribuiu para esse resultado o uso de técnicas construtivas locais e materiais naturais, recursos que mimetizam os volumes em meio ao verde. “Esses elementos não são necessariamente característicos de construções pobres”, comenta Ana Catarina ao descrever cabanas com paredes de pau-a-pique, cobertura de piaçava sem forro e a sede com tijolos de adobe e cobertura de taubilha (pele de madeira). “Os turistas querem um hotel com cara brasileira. Há tantas possibilidades aqui, mas as pessoas parecem ter receio de usá-las e acabam preferindo um estilo mais internacional”, ela afirma.

Entre os cuidados com o meio ambiente, destaca-se o uso de madeiras provenientes de áreas de manejo sustentável - maçaranduba nas estruturas, garapa nos deques, cerejeira com desenhos em tatajuba nos caixilhos e cumaru champanhe nas laterais dos pisos dos quartos.

 
Varanda do bloco social
 
  Cabana de pau-a-pique e cobertura de piaçava
 

O projeto estabeleceu sistema de tratamento de esgoto e espaços tanto para separação do lixo reciclável como para a compostagem do lixo orgânico (posteriormente usado como adubo na horta e no pomar orgânicos), de modo que a simples presença do empreendimento não represente uma fonte de contaminação do ambiente. O paisagismo também segue os conceitos de sustentabilidade e adota espécies locais, entre elas bromélias e pés de abacaxi.

Térreos, os volumes estão elevados em relação ao solo e são parcialmente contornados por amplos deques de madeira que dão acesso à praia ou configuram varandas privativas para cada unidade. Com cerca de 400 metros quadrados, cobertura de taubilha e piso de placas de granilite com 40 x 40 centímetros, o bloco social é o maior de todos e concentra as áreas comuns do hotel, tais como restaurante e a ampla sala de estar. O fechamento de vidro, que assegura vista para o mar e para o verde, é uma das raras presenças industrializadas em um conjunto predominantemente artesanal. “Sem o vidro, esse prédio seria mais pesado e ficaria evidente em meio à paisagem”, observa Ana Catarina.

Separadas do mar por um breve percurso em declive, vencido por escada de madeira, as nove cabanas têm área de 130 metros quadrados cada uma e comportam duas pessoas, o que totaliza o máximo de 18 hóspedes simultaneamente. O próprio paisagismo é um recurso para isolá-las umas das outras, de modo a garantir total privacidade. O interior dos bangalôs é dividido em três áreas - uma com mesa e armário de costas para a cama, o quarto e o banheiro, complementado por deque externo privativo com chuveiro. Na ambientação, observam-se soluções como portas entalhadas artesanalmente ou lavatórios de desenho delicado e acabamento de cimento queimado, dispostos ao lado de objetos de designers brasileiros dos anos 1960/70, assim como peças contemporâneas assinadas por Cláudia Moreira Salles.



Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 337 Março de 2008

 
Vista noturna do bloco social. A estrutura das construções foi executada com maçaranduba
 
Cada bangalô acomoda duas pessoas
 
Os lavatórios ladeiam o acesso ao deque privativo, equipado com chuveiro externo
 
Vista do bloco social
  Ana Catarina Ferreira da Silva
formou-se em arquitetura em 1993 pela Universidade Lusíada, de Lisboa. Fez curso prático de arquitetura em terra CraTerre, na Universidade de Grenoble, França, e atuou nos ateliês de Henrique Chico, António Veloso (Lisboa) e Zanine Caldas (Rio de Janeiro). Desde 2003 está radicada no Brasil
 
  As cabanas têm paredes de pau-a-pique e cobertura de piaçava
 
O bloco administrativo, afastado dos demais, tem fechamento de tijolos de adobe
 
Vista interna da cabana. O piso de cimento queimado tem laterais em madeira cumaru champanhe
No bloco administrativo também se situa a residência da proprietária
 
Acesso das cabanas à praia. A estrutura de madeira recebe um toldo que sombreia o deque inferior
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