Aflalo & Gasperini Arquitetos
Edifício de escritórios, São Paulo, SP
Plantas, cortes e fachadas
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  Em primeiro plano, o centro de compras e o edifício-garagem, construído como contrapartida para a inclusão da torre
na operação urbana
 
Volumetria discreta agrega tecnologia de fachada e vidros
“A prefeitura entendeu que, neste caso, o térreo poderia estar a quatro metros de altura.” A observação de Roberto Aflalo Filho se refere ao Eldorado Business Tower - uma torre de escritórios recém-concluída em São Paulo e projetada por ele, Gian Carlo Gasperini e Luiz Felipe Aflalo Herman, sócios no escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos. A frase pode parecer estranha. Contudo, a localização incomum e o porte do edifício a justificam.

São 115 mil metros quadrados de área construída - ou seja, quase três vezes o E-Tower (acesse pelo menu - "Todas as páginas relacionadas ao tema"). De um lado do terreno, há uma via expressa; de outro, o estacionamento de um centro de compras, que é parceiro do empreendimento; e o vizinho lateral é uma estação de trem. E mais: a pequena rua que serve como alça de acesso ao shopping center não possui escala adequada ao prédio. Dessa forma, parece impossível - ou no mínimo artificial - estabelecer uma relação com o pedestre na cota da rua. Mais adequado, segundo os arquitetos, foi criar um térreo elevado, que pudesse se conectar em nível com a gare e com o conjunto comercial.

Para esse térreo, a equipe idealizou uma praça elevada, conectada à rua por elevadores e escadas rolantes. Nela estão o acesso principal à torre e o início da passarela que une o empreendimento ao centro de compras. “Estes se tornam complementares: enquanto os usuários do prédio passam a contar com uma gama de serviços à distância de poucos passos, o shopping center ganha milhares de clientes”, lembra Aflalo. E a ligação direta com a estação? “A gestão anterior do governo estadual havia sinalizado que a idéia seria levada adiante; mas na atual ela foi descartada, sob a alegação de que teriam de criar um segundo controle de catraca”, diz o arquiteto, desanimado.

 
O edifício visto a partir do Jockey Club
 
Vista a partir da rua: o volume de vidro contém escadas rolantes, que ligam a praça baixa, na cota da via, à praça elevada, no térreo do edifício
 
  No térreo do edifício, uma praça interna de acesso
 

O térreo elevado facilitou também a construção de garagens afloradas, para superar a dificuldade construtiva oferecida pela presença de rocha no subsolo. Por exigência da prefeitura - e da Operação Urbana Faria Lima -, foram implantadas mais de 1,8 mil vagas, além de edifício anexo para o estacionamento do shopping.

A volumetria tem destacada presença urbana, mas é discreta. “Um edifício alto, com lajes muito grandes, naturalmente fica com uma massa pesada. Se fosse como o WTC de NY, por exemplo, a fachada estaria resolvida com um tratamento puro, elegante. Mas no caso do Eldorado, com 32 andares, essa solução o deixaria atarracado, principalmente quando visto na diagonal”, revela Aflalo. Por outro lado, é difícil trabalhar com linhas verticais, ele confessa. “Assim, procuramos criar duas massas que marcam as fachadas principais, fazendo uma espécie de sanduíche, para que o resultado fosse mais esbelto”, afirma. Descrito assim, o truque volumétrico parece simples e não revela o histórico de quase uma década, ao longo da qual o projeto sofreu mudanças, desde a forma até o programa.

De fato, a torre, concluída no final do ano passado, possui grelhas brancas ressaltando as fachadas principais, uma voltada para a marginal do Pinheiros e a outra para o centro de compras. “Desde o momento em que chegamos a esse partido, a idéia era que a grelha fosse clara, mas não estava definido o material. Poderia ser pedra, porcelanato ou alumínio”, revela Aflalo. Eduardo Martins Ferreira, um dos coordenadores do projeto, conta: “Roberto passou em frente de um edifício modernista e me ligou dizendo que poderíamos utilizar vidro, como faziam no passado. E assim passamos a estudar essa possibilidade”. Depois de muita pesquisa, o material pareceu ideal para a equipe - “mais leve e resistente ao tempo sem deformação”, detalha Aflalo. Afinal, a proximidade da via expressa expõe o prédio à poluição constante de veículos, sem contar aquela provocada pela rota de aviões (o querosene queimado pelas aeronaves piora a situação).

Assim, o detalhamento buscou, junto com a construtora e os fornecedores, as probabilidades de emprego do material. O vidro foi utilizado de três maneiras: da forma convencional, para dar transparência às aberturas; na área em que forma uma cortina, ocupando as faixas horizontais onde estão as vigas; e, por fim, o vidro branco - “que dá identidade ao prédio”, segundo Ferreira - foi adotado como revestimento. Este é um produto belga, de última geração, que não possui chumbo em sua composição. Além disso, no seu processo de fabricação, há uma camada de pintura cerâmica, que, na colocação, fica voltada para o interior. “Para testarmos a cor, 27 amostras de vidros vindos da Bélgica”, ele relembra.

 
A passarela de pedestres é coberta por vidro
 
Com grelhas brancas, o Eldorado Business Tower é vizinho do edifício negro desenhado por Salvador Candia, que realizou alguns projetos junto com Gasperini
 
  Detalhes de um dos escritórios, com vista para o Jockey Club
 

Aflalo afirma ter certeza de que, para o resultado final, “foi fundamental a sintonia entre o coordenador do projeto de arquitetura e o coordenador da construtora, que se empenharam em estudar intensamente todas as possibilidades que apareciam, como ocorreu no processo de definição do vidro e da fachada”. No caso, a boa dupla de ataque foi formada por Ferreira e Luís Fernando Bueno, da Gafisa. Seguindo a pista de Aflalo, vale destacar que o prédio foi construído com fachada unitizada, que consiste em um sistema modular no qual o fechamento vem pronto, com caixilhos, vidros e revestimento. O sistema tinha 90 módulos (uma quantidade que o fabricante considera alta, segundo Ferreira), mas era composto de apenas quatro perfis de alumínio.

Do ponto de vista técnico, o prédio revela outros aspectos interessantes. Por exemplo, no sistema de ar condicionado inovador, que dispensa centrais individuais nos pavimentos-tipo (todo equipamento fica no entreforros), aumentando a área útil dos escritórios. A estrutura, que não tem vigas, apenas capitéis em alguns pilares, é outro destaque: “Ela é travada somente pelas lajes protendidas, que possuem 27 centímetros”, explica Ferreira. Também torna o edifício especial a sustentabilidade na construção (leia PROJETO DESIGN 332, outubro de 2007); o Eldorado Business Tower foi a primeira edificação de grande porte no Brasil a receber a certificação Leed. “A preocupação com a eficiência estava presente desde 2001, muito antes de imaginarmos que o prédio seria certificado”, conclui Ferreira.




Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 338 Abril de 2008


 
Visto da marginal, o edifíciogaragem, com planta triangular, está em primeiro plano
 
A passarela liga a torre ao centro de compras
  Gian Carlo Gasperini diplomou-se em 1949 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e obteve título de doutor pela FAU/USP em 1973.

Roberto Aflalo Filho
graduou-se pela FAU/USP em 1976 e é mestre pela Universidade Harvard, em Cambridge, EUA (1980).

Luiz Felipe Aflalo Herman formou-se em 1978 pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Brás Cubas. Os três são titulares do escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos.
 
  A escada rolante, protegida por caixa de vidro, conduz da rua ao térreo do edifício
 

Vista do lobby, com pé-direito duplo

 
A cobertura de vidro protege pedestres na passarela
 
  Detalhes de um dos escritórios, com vista para o Jockey Club
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