A criação da fachada do espaço de exposições instalado na alameda Gabriel Monteiro da Silva, endereço dos mais sofisticados showrooms de São Paulo, constituiu um grande desafio para o desenvolvimento do projeto e sua execução. Havia a necessidade de não alterar o sobrado dos anos 1950, e, assim, a solução exigia algo parecido com um invólucro que pudesse ser retirado a qualquer tempo sem deixar vestígios. “Não poderíamos remover paredes nem descaracterizar a edificação com a reforma”, afirma o arquiteto João Armentano.
Como o trabalho da escultora Bia Doria é orgânico - com madeiras recolhidas na natureza -, o arquiteto decidiu valorizar a fachada pelo contraste. Assim, surgiu a idéia de um fechamento multifacetado, geométrico, com planos triangulares de diferentes tamanhos, utilizando painéis de alumínio composto. Pela primeira vez se usou painel preto polido brilhante, o que reforçou o ineditismo da proposta. A fachada reflete o céu, de dia, e as luzes dos prédios vizinhos, da rua e dos carros, à noite. “Ela é totalmente diferente, com extrema visibilidade. Fala por si e também é uma escultura a ser mostrada”, observa Armentano.
Maquete de papel
Todo o projeto foi desenvolvido através de uma maquete de papel, semelhante a um origami, pois através de desenho técnico em 2D não era possível representar fielmente tantos planos e ângulos. “Para desenhar as fachadas, fotografamos a maquete, desenhamos por cima das fotos, colocamos o desenho em escala e daí surgiram imagens em 2D”, explica o arquiteto.
A obra resultou em 160 painéis de alumínio composto de diferentes dimensões. O maior deles, com formato trapezoidal, mede 97 (base) x 1.135 (superior) x 5.000 (lateral direita) x 4.710 (lateral esquerda) milímetros. A menor peça, triangular, mede 300 x 300 x 300 milímetros. A Projeto Alumínio forneceu cerca de 600 metros quadrados de painéis de 1.220 x 5.000 milímetros, com três milímetros de espessura. “Esta foi a primeira obra no Brasil a utilizar em destaque o preto high gloss”, destaca Jefferson Lousa, diretor da empresa. “Foram empregadas tintas especiais da PPG com acabamento de altíssimo brilho”, acrescenta.
A empresa K2 produziu e instalou a estrutura metálica e fez também o corte, usinagem e montagem dos painéis de alumínio composto. Com a maquete de arquitetura em mãos, a K2 construiu um modelo estrutural nas mesmas dimensões, para estudar os melhores pontos de ancoragem da estrutura metálica principal na parede. Havia alguns obstáculos, como a existência de trechos onde a estrutura metálica poderia atrapalhar a montagem dos painéis e a ausência de vigas e pilares de concreto, que seriam pontos naturais de ancoragem. A construção, da década de 1950, tem sistema de alvenaria estrutural, com blocos mais resistentes, que recebem todo o peso próprio e de esforços. Como as características do imóvel deveriam ser preservadas, não foi possível colocar ancoragens extras nesses blocos nem demolir paredes ou abrir vãos. A solução foi utilizar chumbadores químicos, produzidos pela empresa Hilti, que fez testes de resistência em vários pontos da edificação.
Frentes de trabalho
Como a K2 teve um prazo bastante reduzido - cerca de 40 dias - para projetar, calcular e executar os serviços, a estratégia adotada pela empresa foi criar três frentes de trabalho. Os painéis metálicos foram moldados “em cima” da estrutura auxiliar. Uma equipe produzia o molde em tubos de ferro na obra. No final do dia, esse molde contendo todos os ângulos e inclinações era removido da fachada e levado para o galpão da K2. “Enquanto isso, a segunda equipe preparava as bandejas dos painéis de alumínio composto e fazia uma pré-montagem na estrutura auxiliar”, explica Koiti Kawahara, diretor da K2. Por fim, o terceiro grupo instalava o conjunto (composto por estrutura auxiliar + ACM) na obra.
Outra dificuldade enfrentada na fase de instalação foi o peso do conjunto de cada painel, que teve de ser içado manualmente. A isso somaram-se restrições aos horários de trabalho e o trânsito intenso da via. “Não podíamos interditar o trânsito da Gabriel Monteiro da Silva com guindaste para movimentar os painéis, nem era permitido trabalhar à noite ou nos finais de semana”, lembra Kawahara. Desta forma, eles foram fixados com parafusos e silicone estrutural, mais fita dupla face.
Artista resgata elementos da natureza
Troncos e galhos descartados no meio ambiente, muitos calcinados e parcialmente apodrecidos, são a matéria-prima utilizada pela escultora Bia Doria em suas criações. Ela se apropria das formas que a natureza produz nesses elementos para conceber suas obras. “São materiais difíceis de serem trabalhados, pois necessitam de cuidados especiais, desde a higienização até a preservação. É um demorado processo de elaboração”, ela explica. Seu acervo atual pesa em torno de 11 mil toneladas. Por isso, remover as peças de seus locais de origem envolve o uso de máquinas, caminhões e guindastes.
Texto resumido a partir de reportagem
publicada originalmente em Finestra
Edição 53 Junho de 2008 |