AUM Arquitetos

Centro cultural, Araras, SP

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Rampa com piso e guarda-corpo de aço corten define o acesso ao auditório
Rampa com piso e guarda-corpo de aço corten define o acesso ao auditório
Resgate de antiga estação abre espaço para arte e cultura
A equipe formada por André Dantas, André Luque, Bruno Vitorino, Fernando Botton e Renato Dala Marta foi a vencedora do concurso para a transformação de uma estação ferroviária desativada em centro cultural, na cidade de Araras, interior de São Paulo. Aproveitando a antiga estrutura, os arquitetos reconstruíram os edifícios deteriorados e elegeram o aço corten para distinguir os novos elementos dos preexistentes.

Depois de quase duas décadas de abandono, o conjunto centenário da estação ferroviária de Araras estava em ruínas. Deteriorados, o edifício-sede, a plataforma de embarque, a residência do chefe da estação e os armazéns foram tomados pelo mato; pilares de ferro da plataforma, telhas metálicas e até mesmo trilhos haviam desaparecido. Linear, o sítio fica entre a via pública e a fábrica da Nestlé. Numa das ampliações da indústria de alimentos, o acesso ao terminal foi mudado de lugar, o que comprometeu a implantação original, pois deixou o edifício-sede de costas para a nova entrada.

Por meio de um concurso de arquitetura (leia o quadro), foi escolhida a proposta do escritório Aum Arquitetos para transformar as ruínas em um espaço cultural, voltado à população jovem. Ela previa a recuperação da estrutura existente e a construção de um volume, onde seria instalada a biblioteca. “A biblioteca ficou para a fase final de obras. Devido às restrições de orçamento, por duas vezes atendemos aos pedidos para refazer o estudo e readequar o projeto à verba. Chegamos a um projeto orçado e aprovado, mas, por decisão dos clientes, ele não saiu do papel”, lamenta Dantas.

Embora incompleta, a intervenção foi bastante extensa. Com a ajuda do acervo histórico da própria Nestlé foi possível recuperar a aparência original dos prédios, que tinham estruturas e linguagens diferentes, explica Vitorino. Originalmente construído em duas etapas e com implantações desalinhadas, o armazém tinha a parte mais antiga, e maior, em tijolos aparentes de grande formato, enquanto a parte mais nova recebeu acabamento externo de reboco e pintura.

Detalhe do edifício de exposições e da plataforma. Os pisos externos são de placas de concreto
Detalhe do edifício de exposições e da plataforma. Os pisos externos são de placas de concreto
Foyer do café do auditório. O cimento queimado foi o revestimento escolhido para todas as áreas internas
Foyer do café do auditório. O cimento queimado foi o revestimento escolhido para todas as áreas internas
As novas alvenarias são identificadas pela cor vermelha
As novas alvenarias são identificadas pela cor vermelha
A marquise e a arquibancada favorecem a realização de eventos externos
A marquise e a arquibancada favorecem a realização de eventos externos

Cortado pela linha férrea, para facilitar as operações de carga e descarga, o armazém apresentava estrutura metálica na cobertura, feita com os mesmos perfis dos trilhos, e configuração de doca, com desnível entre os pisos. Essa diferença de altura foi propícia à implantação do auditório, com plateia de 200 lugares, na parte mais baixa. A área mais elevada, com novas alvenarias identificadas pela cor vermelha, ficou reservada para o foyer, a sala de projeção e a de tradução simultânea. “Não tem a infraestrutura de um teatro, mas tem boa acústica e permite realizar pequenas apresentações”, detalha Dala Marta. Já a porção mais nova abriga o espaço de exposições. Com planta livre e pé-direito alto, as instalações ficam aparentes na cobertura.

No pátio formado pela implantação desalinhada dos dois volumes foram criados um deque de madeira para mesas do café e a rampa do novo acesso ao bloco do auditório. O aço corten aparece no revestimento externo do antigo embasamento de pedras do prédio, no guarda-corpo e nos painéis que vedam os vãos onde antes encostavam caminhões para carga e descarga.

As intervenções abrangeram ainda a plataforma, que ganhou novos pilares, iguais aos roubados. Ela responde pela articulação do conjunto e induz os visitantes a percorrer todo o centro. Sua antiga cobertura metálica foi restaurada e ganhou extensão em concreto para ampliar a área externa coberta onde são realizados eventos. No antigo prédio da sede hoje funciona a administração do centro; a casa do chefe da estação abriga vestiários para funcionários, sala da segurança e outros setores de serviços.


Texto de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 356 Outubro de 2009

André Dias DantasBruno Bonesso VitorinoRenato Dala MartaAndré Maia LuqueFernando BottonAndré Dias Dantas (FAU/Mackenzie, 2003), Bruno Bonesso Vitorino e Renato Dala Marta ambos FAU/Mackenzie, 2002) são os atuais sócios do escritório Aum Arquitetos, estabelecido em 2004 juntamente com André Maia Luque e Fernando Botton (ambos FAU/Mackenzie, 2002). A equipe participou de diversos certames e conquistou menção honrosa no Concurso para Modernização do Complexo Esportivo do Ibirapuera, em 2003
O embasamento com alturas diferentes em cada lateral permanece aparente no auditório. Painéis de aço corten fecham os vãos das antigas docas
O embasamento com alturas diferentes em cada lateral permanece aparente no auditório. Painéis de aço corten fecham os vãos das antigas docas
Interior do prédio de exposições. As instalações ficam aparentes e contrastam com a estrutura recuperada do telhado
Interior do prédio de exposições. As instalações ficam aparentes e contrastam com a estrutura recuperada do telhado
Interior do prédio de exposições. As instalações ficam aparentes e contrastam com a estrutura recuperada do telhado
O edifício que abriga o setor de exposições e o volume do auditório
 
A área de exposições ocupa o armazém menor
A área de exposições ocupa o armazém menor
Maquete eletrônica
Maquete eletrônica
Conjunto em ruínas havia sido saqueado
Datado do final do século 19, o conjunto da antiga estação de Araras pertencia à Companhia Paulista de Estrada de Ferro e integrava um ramal incorporado pela Fepasa no início da década de 1970. Menos de dez anos depois os trens de passageiros deixaram de circular por ali e em seguida o tráfego de cargueiros também foi encerrado. A estação ficou abandonada e suas instalações passaram por saques e deterioração, restando apenas ruínas. Em 2000, a prefeitura desapropriou a área, já com o objetivo de transformá-la em centro cultural. Para selecionar um projeto para o empreendimento, um concurso de arquitetura foi lançado no final de 2003 pela Fundação Bienal, IAB/SP e Nestlé, cuja primeira fábrica brasileira ainda funciona no terreno vizinho da estação. O resultado foi divulgado em 2004, mas as obras só tiveram início em 2007. Os recursos para a requalificação, cerca de 8,1 milhões de reais, foram assegurados pelas empresas Nestlé e Citrovita por meio da Lei Rouanet. A gestão e a manutenção do novo centro cabem à Secretaria Municipal de Cultura e à Associação de Artes e Cultura de Araras.