Brasil Arquitetura
Residência, Finlândia
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- 24 de Fevereiro de 2010. Visitas: 42.049
À primeira vista, olhando as fotos da casa na Filândia, não há como não lembrar Alvar Aalto. “Ele sempre foi uma referência para nós”, conta Marcelo Ferraz, cuja arquitetura é marcada por influências diversas, como as edificações rurais brasileiras, Lina Bo Bardi, Luis Barragán e Oscar Niemeyer. Contudo, pela própria localização, destacam-se as relações com Aalto, notadas, por exemplo, no telhado com grande inclinação, tal como na Villa Carré (1956, França), uma das mais conhecidas obras do mestre finlandês. A observação atenta revela o truque por trás desse tipo de desenho: Aalto e seus discípulos diretos (como o espanhol Fernando Higueras) utilizam esse recurso para suavizar o volume maciço, reforçando a horizontalidade e o ritmo da construção. A casa francesa, de planta com diversos volumes recortados, tende para o quadrado organizado a partir de um centro. A cobertura alongada se afirma como a expressão mais forte de sua volumetria, diminuindo o impacto da massa difícil de trabalhar.
Mas se compararmos os telhados alongados em Aalto e as obras do Brasil Arquitetura, perceberemos uma grande diferença: tanto neste como em outros projetos da dupla brasileira - a casa em Cotia, de 1998, por exemplo -, eles cobrem volumes pavilhonares. Assim, reforça-se o sentido do olhar, mas não há uma busca por minimizar o impacto volumétrico.
Por outro lado, tanto em Aalto como em Ferraz/Fanucci, o telhado de inclinação única ressalta a posição intermediária entre a tradição e a modernidade. Em outra tendência arquitetônica, mas com linha semelhante de raciocínio, poderíamos fazer conexões, por exemplo, com a casa Errazuriz (Chile, 1930), de Le Corbusier. Aproximando-se do vernacular, Corbusier criou o telhado-borboleta, cujo caimento aponta para uma única calha. Na residência finlandesa, cuja cobertura é de cobre, a leitura transversal remete ao telhado-borboleta.
Mas a obra de Ferraz e Fanucci na Finlândia possui parentescos com outros mestres da arquitetura do século 20. Além da cobertura, o principal elemento do projeto é o muro que corta transversalmente a construção. No primeiro desenho, ele seria de concreto ciclópico, mas foi executado com pedras da Lapônia. Visto por quem chega à casa, é um elemento perpendicular, uma barreira física ao avanço; torna-se, contudo, um elemento-surpresa que protege o primeiro olhar da visão do mar. Internamente, esse elemento acompanha a circulação coberta por vidro, o que torna os diversos blocos volumetricamente autônomos. Estes são organizados conforme a vista e o uso. Os dormitórios, por exemplo, com desenho dentado, lembram soluções de Josep Antoni Coderch.
Os clientes tinham clara percepção da diferença entre a casa finlandesa e a brasileira: enquanto a primeira é um abrigo, protegida do clima hostil, a segunda pode ser aberta à paisagem, mais intensamente relacionada com o espaço externo. Assim, interessava-lhes que o muro também organizasse a leitura interior-exterior. Essa ideia, aliás, não é nova: em residências da década de 1920, Mies van der Rohe usou tijolos para criar esses planos. Marcel Breuer, seu aluno na Bauhaus, enfatizou o recurso, com muros de pedra em seus projetos de moradias. Se observadas com atenção, algumas casas de Breuer, como a Gueller (Long Island, EUA, 1944), assemelham-se mais à da Finlândia que as moradas de Aalto. Além dos muros, Breuer também usa a cobertura do tipo borboleta, faz aberturas semelhantes e fragmenta os volumes de forma linear (sem perder o fio da meada, poderíamos também fazer conexões com as casas usonionas de Frank Lloyd Wright).
De volta ao muro, trata-se de um elemento bastante presente na arquitetura da dupla brasileira. Podemos apontar, por exemplo, a casa em São Francisco Xavier (2000), onde ele enfrenta e revela a leitura topográfica. Ou então, mais próximo do partido da residência na Finlândia, o muro-jardim do Centro Cultural Cataruna (2002), em Pernambuco, ou o da sede do Grupo Corpo (2001), ambos não construídos.
Para enfrentar condições ambientais adversas, a morada finlandesa possui propostas que a diferenciam de projetos semelhantes no Brasil. O piso, por exemplo, é aquecido, usando o calor do solo. A circulação coberta por vidro, estruturada com o mesmo material, foi calculada para suportar o peso da neve e possui um sistema que acelera o derretimento. Os fechamentos da residência são de madeira de origem canadense (resumidamente, um sanduíche de madeira na parte externa, seguido de colchão de ar, material térmico e gesso acartonado por dentro), solução que só apareceu na segunda fase do concurso. Inicialmente, ela seria inteiramente de concreto aparente, mas com aparência final semelhante, pois as fôrmas seriam verticais, tais como as réguas. A construção está sobre uma base de concreto. A estrutura é invisível e variada. Definida por um profissional finlandês, mistura concreto, aço e madeira, conforme a necessidade específica de cada situação. “Achamos a situação muito curiosa, pois no Brasil, em geral, definimos um sistema estrutural preponderante”, conta Fanucci, sentado à frente de enormes reproduções de obras de Aalto nas paredes da sala de reuniões de seu escritório. “Mas achamos pertinente o raciocínio e aceitamos.”
O pátio da sala de estar, protegido em três faces, possibilita o uso da área externa no verão. Esse tipo de solução fazia parte de alguns trabalhos de Aalto, como a casa de Muuratsalo (1953). “Em todos os projetos que fazemos, consideramos as questões de Aalto. Neste, não poderia ser diferente”, conclui Ferraz.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 358 Dezembro de 2009
Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz (FAU/USP, 1977 e 1978, respectivamente), titulares do escritório Brasil Arquitetura, são autores de inúmeros projetos, como o Museu Rodin, o Museu do Pão e a residência no Morumbi



Para nós, é impossível pensar na arquitetura moderna brasileira sem a forte influência da Finlândia, através da obra genial de Alvar Aalto. Quando buscamos nossas raízes, ou melhor, nossas matrizes referenciais, deparamo-nos com estruturas, concepções de espaço, lógicas construtivas, apropriação de materiais e relações com o ambiente natural e urbano oriundas da experiência finlandesa na arquitetura.
Basta voltar os olhos para uma das obras máximas de Oscar Niemeyer, o conjunto da Pampulha - mais especificamente o edifício do cassino -, para encontrar Alvar Aalto pulsando nos detalhes, na escolha e no encontro dos materiais, na magia do espaço, na recriação da luz.

Brasil e Finlândia, tão longe, tão perto através da arquitetura. Podemos afirmar que nosso projeto para a casa na Finlândia é marcado por uma vontade antagônica de aparecer e desaparecer: por um lado, colocar-se clara e contundentemente no local, no território; por outro, mimetizar-se no bosque, camuflar-se, quase sumir, mas nunca se submeter. A residência deverá se apresentar com personalidade própria na paisagem, mas sem agredi-la. A integração com a natureza será dosada, calculada; será variável de acordo com cada estação do ano: sob diferentes circunstâncias, os materiais, as cores, os elementos construtivos deverão propiciar diferentes experiências.


