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Arquitetura reconta história em quadrinhos em três dimensões
Projetado por Christian de Portzamparc, o Museu Hergé foi construído em uma pequena cidade da Bélgica. A inspiração nasceu das histórias protagonizadas pelo jornalista e herói Tintim, recontadas em três dimensões a partir de cenários esculturais e independentes entre si. O prédio, um volume prismático que parece levitar sobre o bosque, é marcado por grandes recortes nas fachadas. Tal como as molduras dos quadrinhos, eles revelam de forma fragmentada um mundo mágico de aventuras.

As festividades pelos 80 anos do personagem Tintim (leia o quadro) foram além de exposições e reedições dos álbuns de Hergé, o criador do jovem repórter e herói dos quadrinhos que se aventurou pelos mais remotos cantos do planeta e conheceu até mesmo a Lua muito antes de Neil Armstrong. O ponto alto das comemorações foi a inauguração do Museu Hergé, em Louvain-la-Neuve, a 30 quilômetros de Bruxelas. O autor do projeto, Christian de Portzamparc, desde criança é fã entusiasmado das aventuras de Tintim. “O visitante não deveria se sentir entrando num museu, mas no universo de Hergé, com toda a sua diversidade, densidade e multiplicidade”, diz o arquiteto.

O hall articula os volumes internos
O hall articula os volumes internos
O prédio parece suspenso sobre o terreno de topografia irregular
O prédio parece suspenso sobre o terreno de topografia irregular

Louvain-la-Neuve é uma localidade construída sobre um grande bolsão de estacionamentos subterrâneos e se desenvolveu ao redor de um campus universitário. A área reservada ao museu situa-se junto de um bosque, já fora dos limites urbanos. No terreno de topografia irregular, o edifício parece flutuar sobre o lote. A conexão entre a cidade e o museu se faz por meio de uma ponte, deque de madeira que simboliza o portal de acesso para a aventura. O conjunto faz alusão a um navio futurista ancorado em meio ao verde. “O distanciamento, a extraterritorialidade, é o que dá essa ideia de levitação. Tem um pouco da imagem do grande barco que Fitzcarraldo içou na floresta amazônica”, afirma Portzamparc, fazendo referência ao filme do cineasta alemão Werner Herzog.

Detalhe da fachada
Detalhe da fachada
Como os quadros dos gibis, as aberturas emolduram fragmentos de um cenário colorido
Como os quadros dos gibis, as aberturas emolduram fragmentos de um cenário colorido

A edificação pode ser definida como um prisma simples, alongado, distribuído em térreo e mais dois pavimentos. Externamente, caracteriza-se pelos recortes que remetem aos quadros dos gibis, como molduras fragmentando o colorido interior do prédio. Seus quatro volumes internos, ou objetos paisagens, abrigam as áreas de exposição e representam extratos de cenários de algumas das aventuras de Tintim. A cenografia estabelece uma divisão volumétrica que rompe com a sequência da narrativa natural, formando uma espécie de labirinto, assim como os espaços presentes no universo de Hergé. Cada um deles tem sua própria forma, cor e grafismos, configurando elementos esculturais autônomos, porém interligados por sinuosas passarelas metálicas de diferentes extensões.

Todos os elementos remetem aos cenários das aventuras de Tintim
Croqui
Croqui

As grandes aberturas da fachada deixam que os interiores sejam invadidos pela luminosidade natural e pelo verde do entorno, incorporados como parte dos cenários. A caixa do elevador está abrigada no quinto volume, concebido como uma espécie de gaiola misteriosa.

O Museu Hergé é um espaço dinâmico, que, devido à fragilidade do material exibido, substitui as peças a cada quatro meses. São cerca de 900 desenhos e pranchas originais, objetos pessoais, documentos e fotografias. O percurso expositivo, que começa no segundo andar e encerra-se na sala de mostras temporárias do térreo, apresenta a trajetória de Hergé, suas múltiplas criações, seus personagens. No térreo ficam restaurante e biblioteca.

A sociedade La Croix de l’Aigle, responsável pela construção do museu, pretendia inicialmente implantá-lo em Bruxelas e inaugurá-lo em maio de 2007, ano em que se comemoraria o centenário do nascimento de Hergé. No entanto, a falta de acordo com a administração pública sobre o melhor local para a edificação acabou levando a casa de Tintim para a pequena cidade e atrasando o início das obras.



Texto de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 356 Outubro de 2009


Christian de PortzamparcChristian de Portzamparc nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1944, e estudou pintura e arquitetura na Escola de Belas- Artes de Paris, pela qual se diplomou em 1969. Recebeu o Prêmio Pritzker em 1994. É autor de projetos como a Embaixada da França em Berlim e a Torre LVMH, em Nova York
Cada volume tem sua cor, forma e grafismos próprios, configurando um elemento escultural independente
Cada volume tem sua cor, forma e grafismos próprios, configurando um elemento escultural independente
Implantação
Implantação
Venturas e desventuras de um mestre
O acesso ao museu se faz por meio de uma ponte, deque de madeira que simboliza o portal de acesso para a aventura
O acesso ao museu se faz por meio de uma ponte, deque de madeira que simboliza o portal de acesso para a aventura
O intrépido Tintim ainda seduz crianças e adultos em todos os cantos do planeta. Nascido em 1929, o personagem vendeu mais de 200 milhões de álbuns em cerca de 50 idiomas e é o mais popular dentre os criados por Georges Rémi (1907-1983)- o pseudônimo Hergé é formado pela inversão de suas iniciais. Seu traço serviu de inspiração e revolucionou a criação de histórias em quadrinhos na Europa. As primeiras aventuras já revelavam seu fino senso de humor e lhe garantiram sucesso, mas também expunham uma visão de mundo considerada colonialista, racista e repleta de preconceitos contra tudo que não fosse europeu. Foi um estudante chinês, com quem iniciou amizade em 1934, que chamou a atenção de Hergé para a necessidade de conhecer melhor as culturas dos povos visitados por Tintim. O autor aceitou a sugestão e colocou em marcha um processo de transformação gradativa que tornaria mais aberto e progressista o olhar de seus personagens. Após a invasão da Bélgica em 1940, Hergé passou a ser apontado como colaborador do nazismo por publicar suas histórias no jornal Le Soir, um dos poucos autorizados pelo regime. Algumas de suas tramas sofreram censura em diferentes locais, como Tintim no país dos sovietes, que passou décadas proibida na União Soviética e na China. Devido ao conteúdo descrito como ofensivo à raça negra, Tintim no Congo não pode circular em países como Reino Unido e África do Sul e em setembro de 2009 foi retirado das prateleiras de acesso direto de uma biblioteca em Nova York.
Referência em arquitetura
Direitos de reprodução reservados à ARCO Editorial Ltda.
Atualizado em: 02/09/2010