Diller Scofidio + Renfro

Concurso nova sede do Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro

O MIS/RJ, segundo Diller Scofidio + Renfro. O escritório nova-iorquino entrou só na prorrogação e acabou ganhando o jogo
O MIS/RJ, segundo Diller Scofidio + Renfro. O escritório nova-iorquino entrou só na prorrogação e acabou ganhando o jogo
Dois dias e uma noite
Dias de apresentação, noite de confraternização: os momentos de tensão nos bastidores do concurso que escolheu o projeto da nova sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, que teve a participação de sete concorrentes e foi vencido pelo escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro.

Transformada temporariamente em auditório, a sala de leitura no oitavo andar da sede da Fundação Roberto Marinho - um edifício de concreto no Rio Comprido, bairro da zona norte do Rio de Janeiro - tinha a vedação vencida pelo raio que o sol conseguiu intrometer ali.

Indiferentes à luz intrusa, as pessoas que ocupavam a sala se dividiam em dois grupos. De um lado, a inquieta plateia da apresentação dos sete concorrentes ao projeto de arquitetura da nova sede do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ). No espaço de dimensões modestas, reduzido ainda pelo pilar da fachada e pela cabine de tradução simultânea, os cerca de 45 convidados - principalmente estudantes e funcionários públicos - se acomodavam em fileiras de tamanhos diferentes. A tensão da disputa por um lugar na fila do gargarejo encerrou-se com a ocupação do último e concorrido assento livre naquele ponto.

Do outro, visivelmente à vontade, os 11 jurados ocupavam uma bancada em forma de U. Nesse mesmo edifício, nos dias anteriores, as cinco perguntas que seriam apresentadas a todos os concorrentes tinham sido definidas por Adriana Rattes (secretária estadual da Cultura), Hugo Barreto (secretário-geral da Fundação Roberto Marinho), Lúcia Basto (gerente geral de Patrimônio da FRM), Jordi Pardo (museólogo espanhol), Paulo Herkenhoff (crítico de arte), Magaly Cabral (diretora do Museu da República do Rio de Janeiro), Sérgio Dias (secretário municipal de Urbanismo), Rosa Maria Araújo (presidente do MIS/RJ), Bel Lobo, Jaime Lerner e James Cathcart (arquitetos, o último do escritório de Ralph Appelbaum).

O entrosamento do júri revelava uma guinada e tanto nos rumos do concurso, que teve início tumultuado. Depois de eleitos dois finalistas - os escritórios paulistas Brasil Arquitetura (Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci) e Tacoa Arquitetos (Rodrigo Cerviño Lopez) -, o resultado do certame foi anulado e a competição retomada. Os autores de espaços culturais como o Museu do Pão, no Rio Grande do Sul, e a galeria de arte de Adriana Varejão em Inhotim, Minas Gerais, respectivamente, foram lançados de novo na arena, em pé de igualdade com os concorrentes que já tinham superado. Ganharam novo fôlego na disputa a dupla carioca Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen - autores de inúmeros projetos residenciais, corporativos e de instalações artísticas - e o paulista Isay Weinfeld, cuja premiada produção transita da escala do objeto à dos edifícios. Entre os estrangeiros, permaneceram na briga o polonês naturalizado americano Daniel Libeskind (criador do Museu do Holocausto, em Berlim) e o japonês Shigeru Ban, mestre das estruturas espaciais de madeira. A novidade foi a inclusão, nesse grupo, do escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro, que chegou para atropelar. O casal de arquitetos Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio, sócios fundadores do estúdio, uniu-se a Charles Renfro em 2004, depois de terem desenhado, entre outros, o etéreo Blur Building, uma edificação que se desvanecia na névoa e que foi o grande sucesso da Exposição Internacional da Suíça, em 2002. Com R$ 65 milhões disponíveis, é a partir do projeto deles que a nova sede do MIS/RJ vai se materializar, junto às areias de Copacabana.

Carmen Miranda e concretismo
O raio de sol ainda marcava presença atrás da lateral esquerda da tela de projeções, naquela quarta-feira, 5 de agosto, quando Hugo Barreto - porta-voz do júri e uma espécie de mestre de cerimônias, ao lado de Adriana Rattes - saudou o público e pediu que a plateia não se manifestasse, pois, como é comum nos eventos do MIS, as apresentações seriam registradas para o acervo da entidade.

Lidas as instruções gerais e as tais cinco perguntas estruturais (sobre a pertinência da linguagem na avenida Atlântica, o conceito do projeto, a relação entre arquitetura e programa, a sustentabilidade e a estratégia do trabalho à distância), Barreto e Adriana caminharam até a porta dos fundos, no canto oposto ao da cabine preta dos tradutores, para receber com cortesia - o microfone da secretária, ligado durante todo o trajeto, tornou públicas todas as banais fórmulas de saudação usadas nessas horas - Daniel Libeskind, o primeiro concorrente a se apresentar.

Libeskind e seu duplo, a esposa Nina - a mesma pouca altura, os mesmos trajes escuros e formais -, vinham acompanhados por um dos funcionários do escritório de Nova York, o arquiteto brasileiro Raul Smith, e pelo também brasileiro Lourenço Gimenes (FGMF Arquitetos), anunciado momentos depois como potencial parceiro em caso de vitória. Smith ocupou local reservado à desconfortável mesa para o comando digital das apresentações, enquanto os demais ficaram no canto oposto, entre os jurados e a fachada de vidro. Intencionalmente ou não, o problema do raio de luz foi resolvido quando Libeskind se colocou bem à sua frente, como uma espécie de brise soleil.

Iniciando um ritual que se repetiria mecanicamente mais seis vezes, Hugo Barreto relembrou os arquitetos da existência da plateia - uma novidade à qual os concorrentes pareceriam reagir bem - e, em seguida, apresentou o júri e passou a palavra ao arquiteto.

Não demorou cinco minutos para Libeskind mencionar o termo paradigmático do concurso: ícone. Ele o usou para referir-se à volumetria estilhaçada de seu projeto, em oposição ao que definiu como a uniformidade de Copacabana. Seu discurso sobre a massa contínua de edifícios verticais à beira-mar, com quarteirões estanques e bem definidos, não dava sinais de intimidade com o local específico de implantação. De todo modo, plateia e juri permaneceram quase imóveis diante de uma explanação que misturou Carmen Miranda, partitura musical e a negação da tipologia da caixa. Com mais energia, Libeskind rejeitou a ortogonalidade, corroborando a imagem do museu de faces angulosas do qual era eloquente porta-voz. “Conhecê-lo será uma aventura”, afirmou, ao que Herkenhoff e Magaly reagiram com breves e inaugurais anotações. O clima harmônico desandou sutilmente quando o arquiteto precisou se defender de seu próprio projeto. “Não considerem literalmente estas cores”, disse olhando para a plateia, enquanto plantas, cortes e croquis davam vez à série de perspectivas eletrônicas coloridas.

Para fazer a transição para o fim da apresentação, o habilidoso Libeskind escolheu um poema visual do brasileiro Haroldo de Campos (1929-2003) escrito em inglês e publicado na coletânea Signantia: quasi coelum. Com sua constelação de termos, frases, conceitos e nomes sonoros, a obra concretista simbolizou, de certa forma, as apresentações de todos os concorrentes, cada um deles com uma série de referências a significar algo em nome da arquitetura. Um comportamento certamente induzido pelo edital ao pedir que se criasse em Copacabana um ícone arquitetônico do século 21.

Aberta a sessão de perguntas, o arquiteto derrapou de tal modo na defesa da linguagem proposta que Nina veio em seu socorro, afirmando que as criações do marido sempre continham ideias urbanísticas fortes, o que conseguiu deixá-lo visivelmente aflito para retomar a narrativa.

Nervosismo declarado
Um esquema sincronizado de entradas e saídas pelos elevadores e salas isoladas de espera, do sétimo para o oitavo andar, impediu que os concorrentes vissem os trabalhos uns dos outros. Conceitualmente, a tática funcionou. Mas não evitou atrasos cumulativos, que embolaram os horários de apresentação, sem contar a saia-justa de ter que apressar os arquitetos a caminho da saída. E tanto cuidado com o sigilo foi ainda bombardeado pelos comentários audíveis do júri durante os intervalos, na pequena sala do café (onde se constatou, por exemplo, que a fala segura de Libeskind havia impressionado os jurados).

A plateia cresceu e ganhou de Barreto autorização para aplaudir, mas sem torcer. Em seguida, Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen iniciaram a segunda apresentação do dia.

Os projetistas cariocas agradeceram a oportunidade e logo confessaram seu nervosismo. Estavam tão próximos da tela que, para enxergar, Bel Lobo encostou em Jaime Lerner. Numa explanaçãode 27 minutos, Bernardes e Jacobsen demonstraram familiaridade com o local. Falaram sobre a dedicação intensa ao concurso (seu projeto mudou completamente desde a primeira edição do certame), o paradigma da vista privilegiada porém privada da beira-mar, o legado de Burle Marx, os metaesquemas de Hélio Oiticica, a intenção de vazar a massa construída a ela interpondo quatro volumes inspirados na geologia do lugar. E, por fim, apresentaram o parceiro José Luiz Canal, coordenador da obra da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, o grande trabalho no Brasil de Álvaro Siza (que, convidado duas vezes para o concurso do MIS/RJ, recusou alegando falta de tempo). Quando foi exibida a placa “5 minutos”, indicativa do tempo que os autores ainda tinham para concluir a apresentação, foi preciso ser sucinto: os arquitetos destacaram então a aptidão da equipe para lidar com obra de grande envergadura sem estourar custos ou desautorizar o projeto.

A reação do júri foi positiva. Herkenhoff disse ser o grande equívoco da museologia brasileira pensar que “se resolve com a arquitetura” e elogiou a maturidade técnica da proposta. Um comentário precedido pela homenagem de Sérgio Dias a Sérgio e Cláudio Bernardes, respectivamente avô e pai de Thiago. Mas pareceu ter ficado no ar uma dúvida, relacionada à circulação bipartida do projeto.

“Vai sobrar o quê?”
O ambiente na sala já era mais descontraído quando entrou em cena o jovem arquiteto Rodrigo Cerviño Lopez, aparentemente desconfortável com sua missão, com o calor, que aumentara, e com a recusa da organização em permitir que falasse sem microfone.

Concentrado na tela, de costas para os jurados e o público, o titular do escritório Tacoa pulou alguns desenhos e textos - eram burocráticos ou ruins de enquadramento, justificou - e só quando apareceu um corte transversal conseguiu elencar com mais desenvoltura suas referências à caixa hermética feita com concreto, à vida corriqueira em Copacabana, ao térreo público, à empena cega com 35 centímetros de espessura, ao auditório aberto para a cidade e à vista não banalizada da paisagem. A ambiência das perspectivas era escura, pois faltou simular a iluminação dos ambientes de concreto aparente.

Após 22 minutos de exposição, começou um diálogo no mínimo truncado com o júri. “Curiosidade de museóloga: por que a exposição não vê Copacabana? Dá para fixar suportes no concreto? Como ele se comporta em termos acústicos?”, Magaly emendou de pronto. “Porque banaliza”, “fizemos assim em Inhotim” e “é um material da arquitetura paulista” foram, respectivamente, as respostas que ouviu. O burburinho cresceu. “Vai sobrar o quê?”, cochichou, inconformada, uma moça na plateia.

De joelhos
A tarde estava quase no final quando Hugo Barreto agradeceu a Diller e Scofidio por aceitarem “no último minuto” o convite para participar do concurso. Num clima de tolerância alargada, arquitetos e jurados mencionaram repetidas vezes a suposta marca de três semanas de trabalho, incompatível com o cronograma do certame: afinal, se da data de entrega (27 de julho) forem subtraídos 21 dias, o escritório teria entrado no jogo apenas na primeira semana de julho, e não entre 19 e 26 de maio, como foi informado oficialmente. Essa seria, aliás, a única menção do júri - ainda que cifrada - à primeira edição do concurso, desfeita em maio, imaginando-se que as “três semanas” tenham a ver com o fato de o estúdio nova-iorquino ser a novidade no returno da competição.

De todo modo, a elegante Elizabeth Diller - calça cinza e blusa de manga preta colada ao corpo - conduziu a apresentação com segurança e desenvoltura similares às de Libeskind, dele se diferenciando, contudo, pelo frescor com que envolveu a todos no passo a passo de seu projeto, manipulando com intimidade seu laser point, enquanto Ricardo Scofidio permanecia sentado na lateral oposta. Após mencionar alguns trabalhos em andamento na Europa e nos Estados Unidos, a arquiteta satisfez a ânsia corrente por indícios da compreensão do lugar e, com frases como “Resolvemos aceitar as regras” e “Que Rio é esse?”, levou a apresentação para o seu ponto alto. O Rio de Diller e Scofidio tem no filme Cidade de Deus a quebra do paradigma de uma cidade romântica “imaginada por nós, estrangeiros”.

Numa rápida sequência de croquis Elizabeth revelou, para espanto geral, que na elaboração de seu trabalho consideraram tanto um edifício vertical muito acima do gabarito vigente quanto uma traquitana mecânica que se projetaria sobre o calçadão, em movimento pelo espaço aéreo. Para enfim chegar à sedutora imagem do museu em forma de percurso contínuo, com as pessoas interpostas entre o exterior e o espaço interno do bulevar vertical, com uma volumetria que se desenvolve em correspondência ao traçado de rampas e patamares sequenciais.

“Para mostrar o interesse pelo conteúdo do museu”, ela apresentou também indícios de ocupação dos interiores. Falou de um museu feito por uma “cidade que ama e ri e tem as referências do samba e do corpo”, em plena era dos gadgets. E já que estes entraram na dança, a arquiteta discorreu sobre softwares que interagem com o visitante, como o empregado na parede feita com porta-retratos digitais, conectáveis à galeria de fotos privadas provenientes de celulares com cara de iPhone.

A exposição emocionou Sérgio Dias. “É uma apresentação a que deveríamos assistir de joelhos!”, proclamou diante de um constrangido Hugo Barreto, que, sem emendar comentários, passou à sessão de perguntas.

Até então calado, Jaime Lerner foi direto ao ponto. “Quanto vocês conseguem garantir de continuidade da calçada?”, questionou, ao referir-se à legislação que estabelece inclinação máxima de 8% para a circulação de portadores de condições especiais. “Quando chove e venta, como se protegem os interiores?” e “Como se dá o isolamento do som e da luz junto à fachada?”, questionaram, respectivamente, Magaly e Jordi Pardo. Mas o conceito estava amarrado e essas questões podiam ser avaliadas no futuro, com calma. Essa foi a conclusão a que chegaram, em conjunto, os arquitetos e os jurados.

Confraternização?
Terminadas as apresentações do primeiro dia, concorrentes e jurados engataram ainda um inusitado jantar de confraternização no restaurante Yorùbá, em Botafogo. No sobrado de fachada vermelha e cardápio afro-brasileiro, que tem em seu site citação de uma música feita por Gilberto Gil em homenagem à chef Neide Santos, o clima era bastante informal. No espaço de piso de cerâmica simples, ventilação natural e pé-direito alto, os convidados se acomodaram livremente em cinco grandes conjuntos de mesas com pés de ferro.

Na mesa da frente, próximo da janela voltada para a rua, estavam Thiago Bernardes, Paulo Jacobsen e seu filho Bernardo, que trabalhou por dois anos e meio com Shigeru Ban, primeiro em Paris e depois no Japão. Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio pareceram avessos aos holofotes quando mudaram do centro do ambiente para a discreta mesa do fundo, onde se sentaram com Marcelo Ferraz. Nas laterais do salão ficaram Daniel Libeskind e, do outro lado, faceando o comprido corredor de entrada, os animados Isay Weinfeld e Shigeru Ban, que ainda não tinham apresentado seus trabalhos. Apesar da fisionomia habitualmente sisuda, Ban aparentava total descontração e chegou a provocar alguns sorrisos animados em seus vizinhos quando recobriu a cabeça com um guardanapo de pano, assim permanecendo imóvel por alguns instantes. Rodrigo Cerviño acabou por se acomodar na quinta mesa, também próximo da entrada, talvez no local mais escuro do restaurante.

De quando em quando, os concorrentes eram visitados pelos membros do júri, que se esforçavam para promover a integração entre os grupos. Também atenciosos, os garçons recomendavam a todos que não deixassem esfriar suas refeições. O jantar terminou pouco depois da meia-noite.

Polido e provocativo
Na quinta-feira, o primeiro a se apresentar foi Isay Weinfeld, com atraso de 23 minutos. Mas a demora não foi culpa dele. Às dez horas, quando deveriam ter início os trabalhos, Sérgio Dias chegou. Só então os jurados começaram a tomar seus postos, repetindo a posição do dia anterior. Foi preciso ainda que se interrompessem as conversas paralelas e que Barreto reafirmasse a proibição de manifestações em clima de “Fla-Flu, para não parecer que estamos induzindo”. Será que ele falava à plateia? Por fim, chegou Herkenhoff, trazendo como justificativa o congestionamento em seu bairro - a mesma Copacabana do futuro MIS.

Desacompanhado e polido - cumprimentou pausadamente os jurados, um a um -, Weinfeld deu início a uma apresentação descontraidamente provocativa, e já na primeira frase cutucou o carioca Oscar Niemeyer: “Tenho 56 anos de idade, 35 de arquitetura e este é o primeiro convite que recebo para participar de um concurso como esse. Minha geração não conseguiu se expressar porque governantes sem imaginação sempre fizeram suas encomendas a um só arquiteto. No máximo, dois”. Seguiram-se então 30 minutos de mais observações contundentes. “Para mim, o mais irritante é falar de conceito. Sou intuitivo”, disse, enquanto a tela estática exibia o título da sua proposta conceitual.

Weinfeld mostrou a sequência de plantas baixas do projeto, a partir do quarto subsolo, e leu detalhadamente a distribuição de cada pavimento. Foi o primeiro concorrente que ousou defender o partido com escolhas pessoais: o museu formado por salas fechadas, o fato de a vista ser uma covardia e a possibilidade de mudança dos materiais. “O edital pede monumento, mas minha arquitetura não grita. Fala baixo”, provocou. Antes de começar a responder a arguição, Weinfeld foi avisado de que, dada sua aversão, não seria questionado sobre o conceito do projeto. “Eu agradeço”, disse, retribuindo a gentileza. O que se seguiu foi uma constelação de “não sei”. “Não sei explicar a vigência da linguagem na avenida Atlântica”, por exemplo.

“Sou muito da arte e do som, mas não levo a sério o meu trabalho”, complementou o arquiteto, que considera Ronaldo Fenômeno um gênio porque também se diverte com sua profissão. A afirmação de que sua arquitetura era atemporal na beira-mar provocou um aceno positivo de cabeça de Lúcia Basto, a jurada que mais se comunicava visualmente com os outros integrantes do júri. “Isto é isto porque veio do coração”, finalizou Weinfeld. Jaime Lerner aprovou, gesticulando palmas no ar.

Sem comentários
Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci preferiram não perder tempo e foram direto ao assunto, talvez movidos pela incômoda sensação de que estavam jogando uma partida que já tinham vencido, quando o orçamento da obra era ainda de R$ 44 milhões.“Aqui nada é gratuito. Não começamos pela forma, embora nosso projeto tenha seguido à risca as recomendações do edital”, disse Ferraz. Vieram, então, as citações à vista e aos eventos na praia de Copacabana, ao branco autolimpante do concreto de Richard Meier, ao respeito às demandas do programa, à forma da esfera e à música de João Gilberto. O jurado James Cathcart questionou “o DNA de museu do projeto”. Tenso, Ferraz retrucou: “Dá vontade de devolver essa pergunta. A funcionalidade é superior a isso”.

O mal-estar cresceu com o surgimento de questões sobre o isolamento acústico e luminoso entre os andares e conjecturas sobre a viabilidade legal da esfera no recuo. O clima foi quebrado por Lerner, que provocou risos ao lembrar que, “enquanto a bola está no alto, não está dentro gol”. Quando veio a pergunta sobre a linguagem da proposta, Ferraz estava pronto para o encerramento: “É a visão de projeto que vocês nos passaram”, respondeu. Não houve comentários.

Loira de biquíni
O último concorrente, Shigeru Ban, foi sucinto nas palavras, defendendo seu projeto em 16 minutos. Veio acompanhado de Marc Rubin e de um assistente que se desdobrou como pôde para montar às pressas a grande maquete feita em quatro partes, cujo material dourado representando a cúpula de madeira despertou a veia irônica da plateia, com comentários como “Lá vem o Sambódromo” ou “Parece Las Vegas dos anos 80”.

O burburinho acabou possivelmente porque todo mundo ficou boquiaberto com a cena seguinte na tela de apresentação, já que Ban se mostrou bem mais loquaz com as imagens: a foto do derrière de uma loira de biquíni. O modelo era mais recatado que o asa-delta, que acabou sendo a inspiração para a forma do embasamento em pilotis da edificação, aspecto defendido com riqueza de detalhes pelo japonês. “Let’s Brazilian wood!” era o enigmático título do trabalho. A discussão se travou, em seguida, sobre o uso de materiais, até ser finalizada por Herkenhoff. “Admiro sua coragem em falar do corpo feminino”, ele arrematou.

O júri então esperou que a sala se esvaziasse para travar, ali mesmo, os debates finais. Conversas posteriores com jurados revelaram que as apresentações não tiveram um papel tão importante na decisão; mais do que uma oportunidade para esclarecer dúvidas relevantes, serviram para confrontar arquiteto e projeto. A abertura do edifício à paisagem acabou pesando bem mais nas considerações.

Se os concorrentes tivessem tido a curiosidade de conhecer suas pontuações - uma informação garantida no edital - e se dispusessem a trocar figurinhas, chegariam à ordem de classificação: Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen em segundo lugar; Daniel Libeskind e Isay Weinfeld empatados na terceira colocação; e, compartilhando o quarto posto com Shigeru Ban, os escritórios Tacoa e Brasil Arquitetura - isso mesmo, os dois finalistas naquele primeiro concurso. Quanto ao projeto vencedor de Diller Scofidio + Renfro, Paulo Herkenhoff definiu bem o mérito de incorporar com seu ziguezague a identidade gráfica dos monumentos fluminenses. “Ou alguém consegue pensar o Corcovado sem o Cristo Redentor?”, exemplificou o crítico de arte.

Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 356 Outubro de 2009
A sensualidade orgânica da paisagem carioca foi a inspiração para Daniel Libeskind criar um projeto com volumetria angulosa, que trouxe à cena, em vez de curvas, as cristas arquitetônicas
Daniel Libeskind
A sensualidade orgânica da paisagem carioca foi a inspiração para Daniel Libeskind criar um projeto com volumetria angulosa, que trouxe à cena, em vez de curvas, as cristas arquitetônicas
Fragmentando a edificação no espaço, criaram áreas semipúblicas de vista privilegiada
Fragmentando a edificação no espaço, criaram áreas semipúblicas de vista privilegiada
Paulo Jacobsen e Thiago Bernardes (ao lado de José Luiz Canal) definiram seu projeto como a negação da morfologia de quarteirão fechado.
Paulo Jacobsen e Thiago Bernardes (ao lado de José Luiz Canal) definiram seu projeto como a negação da morfologia de quarteirão fechado.
A inclinação da plateia semienterrada foi a geratriz do partido de seu projeto, finalista na primeira edição do concurso
A inclinação da plateia semienterrada foi a geratriz do partido de seu projeto, finalista na primeira edição do concurso
Rodrigo Cerviño Lopez foi o primeiro a defender a tipologia da caixa hermética nas apresentações dos projetos ao júri.
Rodrigo Cerviño Lopez foi o primeiro a defender a tipologia da caixa hermética nas apresentações dos projetos ao júri.
São, na realidade, patamares e planos inclinados sequenciais, com vista da paisagem
São, na realidade, patamares e planos inclinados sequenciais, com vista da paisagem
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As rampas em ziguezague sintetizam a ideia de bulevar vertical do projeto vencedor, de Diller Scofidio + Renfro.
As rampas em ziguezague sintetizam a ideia de bulevar vertical do projeto vencedor, de Diller Scofidio + Renfro.
Em seu projeto, no entanto, o arquiteto reservou um andar inteiro para a contemplação da paisagem
Em seu projeto, no entanto, o arquiteto reservou um andar inteiro para a contemplação da paisagem
Isay Weinfeld também foi um defensor do partido do museu como caixa isolada.
Isay Weinfeld também foi um defensor do partido do museu como caixa isolada.
O projeto foi finalista na primeira edição do concurso
O projeto foi finalista na primeira edição do concurso
Recortes orgânicos e de aberturas variadas promoveriam a integração entre os pavimentos no museu de Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci.
Recortes orgânicos e de aberturas variadas promoveriam a integração entre os pavimentos no museu de Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci.
Shigeru Ban foi o único a explorar a idéia de edificação sobre pilotis, mas sua proposta não encontrou muita receptividade, nem no júri, nem na plateia