Emerson Vidigal, Francisco Spadoni e Rosenbaum®
Casas pequenas no Brasil
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- 11 de Janeiro de 2012. Visitas: 25.688
O Censo 2010 do IBGE revela que 87% dos brasileiros vivem em casas, num total de cerca de 50 milhões de unidades desse tipo no país. Quase a metade delas está na região Sudeste, vindo o Nordeste em segundo lugar.
É ainda pequena, então, a porcentagem de moradias em apartamentos (10%), e a tão sonhada vida silenciosa nas vilas urbanas é realidade para apenas 1,7% das habitações.
Já a situação quase sempre desconfortável ou insalubre de morar em cômodos ou cortiços aflige 0,3% dos nossos lares.
O acesso à energia elétrica é praticamente generalizado (97%) no país, mas o abastecimento de água tem desempenho pior, com 82,5% das residências atendidas pelo sistema (54,4% na região Norte, 76,5% no Nordeste, 90% no Sudeste, 85% no Sul e 81% no Centro-Oeste), enquanto 97,3% delas têm algum tipo de esgotamento sanitário, seja em rede ou por fossa séptica.
São índices praticamente constantes, comparativamente, em todas as regiões e que demonstram certo grau de desenvolvimento urbano.
Quanto ao morador, a faixa entre dois e quatro habitantes em convívio representa a maioria esmagadora: 68% dos lares brasileiros.
Já as habitações para uma pessoa apenas sinalizam 12%, e, no extremo oposto, as super-habitações, com oito indivíduos ou mais, surgem como exceção absoluta: 2% dos casos levantados pelo IBGE.
Nesse sentido, as maiores flutuações ocorrem na passagem daquele habitante solitário para os arranjos de dois a quatro moradores por unidade e destes para as casas que abrigam cinco pessoas ou mais.
Praticamente dobra e cai pela metade, respectivamente, a cifra em cada uma dessas transições. Falemos, então, de contrastes.
Esta reportagem especial sobre casas pequenas, no Brasil e no Japão, mostra realidades distintas não apenas entre dois continentes culturalmente tão diversos, mas também na própria prática profissional em solo brasileiro.
Há quem direcione sua atuação para a criação de residências paradisíacas, na praia, no campo ou na cidade, que chegam a mil e tantos metros quadrados de área construída, mas poucos se dedicam com afinco à tarefa de exercitar o projeto da pequena morada.
Selecionamos três casos paradigmáticos dessa escala do Brasil: a residência do arquiteto, em vila; a do designer, na beira de um parque urbano; e a moradia periférica. Francisco Spadoni, Emerson Vidigal e Marcelo Rosenbaum são os autores dessas residências.
Já quando o tema é o morar japonês, uma das principais características de suas cidades é a falta de espaço. Em um país com densidade de 337 habitantes por quilômetro quadrado a disputa por terreno é, de fato, uma questão sempre presente, sobretudo nas áreas urbanas.
Mas existem outras marcas das metrópoles japonesas que, curiosamente, se assemelham às das grandes cidades brasileiras, sobretudo nas regiões periféricas: ruas estreitas, malha viária sem eixos principais, rede elétrica aparente, pouco verde e lotes sem padrão de tamanho e desenho, por exemplo.
No caso do Japão, a explicação para esses atributos talvez esteja, além do excesso de habitantes, no relevo acidentado e nas restrições causadas pela possibilidade de terremotos.
No Brasil, a justificativa pode ser mais resumida: é a falta de planejamento urbano. Mas dentro desse quadro de aparente caos, tão semelhante ao das periferias brasileiras, os arquitetos japoneses dão uma lição de como aproveitar espaços exíguos com criatividade e engenhosidade.
Dividido entre o ensino da arquitetura e a participação em concursos, o arquiteto Emerson Vidigal, de Curitiba, é o autor do projeto desta residência, localizada nas proximidades de um dos parques urbanos da capital paranaense, o Tanguá.
Ela foi idealizada para um designer que tinha como demanda principal a máxima interação visual com o entorno, sendo, de fato, privilegiada a paisagem circundante. Avista-se, desde a varanda íntima do andar superior, o pôr do sol e boa parte do parque, implantado sobre uma antiga pedreira.
Embora o terreno não tenha nada de pequeno - 490 metros quadrados -, o caráter restritivo do projeto fica por conta da existência, no lote, de uma nascente de rio, cujo raio de proteção de 50 metros, em conjunto com o recuo frontal de cinco metros, minimizou a área disponível para a construção.
Assim a residência, com 95 metros quadrados de área, se desenvolve em dois pavimentos, nos quais se destacam a integração total dos ambientes sociais, no térreo, e a generosa varanda ligada ao dormitório do andar superior.
A estrutura de concreto tem vedação de alvenaria convencional na ala íntima, mas na social foi usada tábua com colocação do tipo mata-junta, em referência à tradicional arquitetura residencial da região.
Emerson Vidigal formou-se em 2002 pela UFPR, onde leciona na cadeira de projeto. Vencedor do concurso arquitetônico para a criação da nova sede do Fecomércio RS, acaba de retomar as atividades de seu escritório para desenvolver esse projeto
A produção residencial é exceção na obra de Francisco Spadoni. Este projeto, contudo, trata da reforma da morada do arquiteto, completamente reformulada após mais de uma década já habitando o local. Restaram as lajes e alguns trechos de paredes da casa, que, localizada no bairro do Sumaré, em São Paulo, ganhou espaço interno dado o seu alargamento lateral.
Junto à divisa esquerda, a parede de vedação foi substituída por viga metálica e seus engates na estrutura existente, complementando o sistema a nova parede, deslocada, de concreto aparente.
Projeto e obra andaram quase que simultaneamente em função da necessária prospecção, in loco, das potencialidades estruturais da residência, de modo que cada nova abertura tenha sido desenhada individualmente, caso a caso.
Com os novos vãos, então, a transição direta otimizou a iluminação natural e a mútua visualização entre todos os setores sociais, o que faz a casa parecer muito maior do que é na realidade.
Na reforma, o arquiteto criou ainda um escritório/biblioteca nos fundos do lote, sobre o qual se localizam, no segundo pavimento e na cobertura, o dormitório do filho e um terraço para o desfrute da vista da cidade.
Francisco Spadoni é formado na FAU/Puccamp, com pós-graduação pela École d’Architecture de Paris Villenium e doutorado pela USP
Há seis anos projetando reformas ou reconstruções de casas em áreas carentes do Brasil para o programa de tevê Lar, Doce Lar, da Rede Globo, Marcelo Rosenbaum tem desenvolvido um impressionante exercício de concepção de moradias populares brasileiras.
Por vezes a questão é multifuncional - residência e um pequeno comércio ou serviço acoplados podem fazer a diferença na vida das pessoas -, por vezes o problema é mais primário.
Faltam as mínimas condições de higiene e conforto ambiental, com cômodos de longa permanência desprovidos de janelas ou dormitórios extrapolando a lotação mínima recomendável, além de instalações precárias e problemas infraestruturais ou de acessibilidade.
Nesta casa, reconstruída em 2011 no bairro do Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, foram ambas as abordagens. Os pouco menos de cinco metros de largura do lote deram lugar à casa com pequeno comércio, ocorrendo a transição entre os domínios público e privado através do corredor lateral direito.
O pergolado frontal serve ao atendimento do público numa espécie de bar de pequena escala, ambientado pela horta caseira acondicionada em garrafas plásticas.
Referência direta à melhora da moradia, prevalecem as cores claras e a luminosidade generosa dos interiores.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 381 Novembro de 2011
Rosenbaum® é um escritório de design e inovação comandado por Marcelo Rosenbaum. Atuante nos campos da arquitetura e do design, tem como foco o morar e suas formas de conexão, identidade cultural, cultura popular, memória e inclusão
1. Cozinha / 2. Estar / 3. Corredor / 4. Dormitório / 5. Lavanderia / 6. Horta vertical, com garrafas PET


