Estúdio América
Museu da Memória e dos Direitos Humanos, Santiago
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- 09 de Junho de 2010.
Cerca de dois anos e meio após terem vencido a competição internacional realizada pelo Ministério de Obras Públicas do Chile para o Centro Matucana e Museu da Memória, em Santiago, os arquitetos Carlos Dias, Lucas Fehr e Mário Figueroa viram materializar-se a primeira parte de seu projeto. No dia 11 de janeiro, a presidente chilena Michele Bachelet, que deixaria o cargo em meados de março, inaugurou o Museu da Memória e dos Direitos Humanos - o nome da instituição acabaria ganhando um complemento, de modo a incluir com clareza um tema candente na história recente do país.
Em seu discurso, Bachelet se mostrou entusiasmada com a construção. “O edifício é esplêndido, como vocês podem ver, e tenho certeza de que todos que participam dessa inauguração estão comovidos por suas linhas, sua beleza, sua extraordinária integração com o espaço urbano no qual foi construído. Nossa gratidão para com aqueles que levantaram sua arquitetura material e aqueles que desenharam sua arquitetura conceitual, assim como aqueles que deram vida às coleções, aos arquivos e às obras de arte que este magnífico edifício contém”, afirmou.
A retórica carregada de emoção da presidente chilena se justificava por pelo menos dois motivos: Bachelet via consolidado aquele que, em termos materiais, fora um de seus projetos mais acalentados; além disso, tanto ela quanto familiares foram vítimas da cruel e longeva ditadura - 17 anos - sob a qual o general Augusto Pinochet manteve o país. Esse período que marca a história do Chile foi certamente o mais forte motivo para a implantação de um museu com essa temática. Que, aliás, continua a mobilizar os chilenos: segundo o arquiteto Mário Figueroa, antes de completar o primeiro mês de abertura o museu já contabilizava cerca de 20 mil visitantes, número que superou a expectativa prevista para um ano.
A proposta conceituava o conjunto Matucana como uma quadra aberta destinada a estabelecer um diálogo com a morfologia construída da capital chilena. O museu era tratado como elemento fomentador da fruição do espaço público. “O complexo será um espaço generoso, amplo de possibilidades e percursos, permeado de trajetos por onde será possível transpor a quadra de forma natural e cotidiana”, dizia o memorial do projeto. Essa abordagem levou os autores a tratar o prédio do museu como um elemento estimulador desse percurso.
A “arca museológica” é descrita pelos arquitetos como uma barra íntegra, única e sem concessões, com a qual querem evidenciar a elevação da memória. Estruturalmente, o prédio é constituído por uma série de treliças metálicas que formam um túnel e vencem o vão, com a carga da edificação descarregada em quatro apoios. Na composição plástica externa, a imagem de maior impacto é a caixa revestida de cobre que abriga o cerne do programa e é vazada por baixo pelo caminho que transpõe a quadra. Nesse trecho em que é atravessada, a barra parece levitar.
Internamente, as áreas de exposição, na barra, distribuem-se por três pavimentos que se configuram como caixas translúcidas afastadas das extremidades - é por essas extremidades e pelos rasgos na cobertura que se aproveita, de forma controlada, a iluminação natural. Na base do museu, que, assim como a barra, é composto por três níveis, encontram-se o estacionamento, as áreas administrativas e de apoio, o acesso e um auditório. É também nesse nível que se dá a conexão do museu com a estação metroviária Quinta Normal.
Ao ser escolhida, a proposta do Estúdio América superou mais de 50 concorrentes. A forma como se deu a contratação do projeto e, principalmente, a rápida execução da obra são de deixar com inveja profissionais que vencem concursos no Brasil.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 361 Março de 2010
À diferença da maioria dos museus, que consistem em uma sucessão de salas isoladas, este edifício conta com um grande espaço de três níveis, que se integram mediante um jogo admirável de vazios com a virtude de oferecer ao visitante sempre a noção do conjunto. Ao ingressar no primeiro nível, surge a visão imponente da nave de 15 metros de altura, para a qual os andares intermediários confluem através de balcões envidraçados, que ora se projetam, ora se recolhem.
A arquitetura desmaterializou o muro de forma deliberada. Os fechamentos que organizam os espaços são todos de vidro. O fato de sempre se estar em um ambiente luminoso, alegre, poderíamos dizer, é uma fórmula propícia para reduzir as tensões geradas pela exposição de episódios tão traumáticos da história chilena. O projeto museográfico não se lamentou pela ausência de muros nos quais exibir a mostra. Pelo contrário, tirou partido dessa circunstância e serigrafou os vidros com fotos que ilustram a dor, a angústia e o medo desencadeados entre o povo, mas também cantam o valor, a fé e a organização que permitiram pôr fim ao terror.
Podemos dizer que essa obra genuinamente fez o caminho ao caminhar. Os projetos de arquitetura e de museografia foram encadeando-se até se integrarem em admirável simbiose. É difícil discernir onde termina uma e começa a outra. É uma espécie de modelo do Renascimento, época em que figuras como Leonardo e Michelangelo dominavam técnicas de criação artística tanto na arquitetura como na engenharia, dando à luz obras que admiramos pela sua coerência.
O edifício principal, chamado de barra pelos arquitetos, consiste em um corpo de 18 metros de largura por 80 de comprimento, com três pavimentos, que cruza todo o terreno transversalmente, no sentido leste-oeste. Robustas patas de concreto situadas nos quatro cantos dessa nave recebem a estrutura metálica, constituída por grandes vigas destinadas a acolher a trama que suporta as lajes dos pavimentos. Essa solução permite obter um vão de 51 metros sem interromper a continuidade da praça pública que se estende a seus pés. De fato, o museu flutua sobre o terreno onde está implantado.
O espaço público foi concebido como uma ágora, capaz de abrigar diversos eventos. Arquibancadas ao ar livre e escadarias que confluem até a praça desde as três ruas adjacentes facilitam o acesso ao cidadão comum. Santiago conquista um espaço público aberto que enriquece e harmoniza-se com o circuito cultural já existente no eixo da avenida Matucana. A memória histórica do Chile terá um lar digno e solene. O país recebe um espaço destinado a educar e refletir sobre a necessidade de preservar os direitos humanos.
É emocionante que no concurso internacional para o projeto do museu o primeiro prêmio tenha sido obtido por uma equipe de arquitetos paulistas. Além da demonstração de solidariedade e identidade entre os profissionais sul-americanos, especialmente aqueles que experimentaram as ditaduras militares, o museu expressa uma síntese de conceitos e ideias que são patrimônio da contemporaneidade, e não de um país específico. Em primeiro lugar, os autores rejeitaram o caminho do exibicionismo arquitetônico que identifica a temática da repressão e do sofrimento humano, presente no Museu Judaico, de Daniel Libeskind (2001), e no Memorial do Holocausto (1997/2005), de Peter Eisenman, ambos em Berlim. E na sua abstração e simplicidade, assim como na virtualidade das mensagens gráficas, o museu contém uma lembrança do Memorial aos Presos Desaparecidos (2000), de Marta Kohen e Rubén Otero, em Montevidéu. Ao mesmo tempo, existe uma simbiose entre a herança paulista do Masp, de Lina Bo Bardi - a proposta de um volume puro suspenso por uma megaestrutura -, e a particularidade chilena de uma arquitetura minimalista-regionalista, que valoriza a simplicidade das formas abstratas mas também expressivas dos materiais locais (neste caso, o uso do cobre nas fachadas e os pisos de mosaicos e madeiras regionais).
O museu concretiza a ideia formulada no início do século 20 pelo historiador da arte alemã Alois Riegl, de que na época das massas o sentimento (Stimmung) predominaria sobre a razão na percepção das obras de arte. A originalidade do museu consiste na integração entre a arquitetura e o sistema expositivo, cujas imagens, quase mimetizadas nas extensas superfícies de vidro, percorrem essa dura história na continuidade dos espaços internos. Um dos momentos mais emocionantes é quando se acessa a caixa de vidro do segundo andar e se tem a visão do gigantesco painel com as milhares de fotos dos desaparecidos durante a ditadura militar. É uma linguagem minimalista política, oposta ao silêncio apolítico do Pavilhão de Barcelona de Mies van der Rohe, que somente exibia o frio desenho do mármore ônix. A virtude do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, tanto urbanística quanto arquitetônica, é que nele lateja a vida da cidade e das múltiplas memórias vitais de uma sociedade que deseja lembrar para construir um futuro em que, segundo Bachelet, nunca mais se repita a tragédia passada.

