Fernando Maculan e Pedro Morais

Residência, Nova Lima, MG

Plantas, cortes e fachadas
Fichas técnicas
Fornecedores
A simplicidade dos materiais, que não demandam revestimentos, cria interessante contraposição com as formas irregulares
Irreverente e racional, casa-praça ocupa platô formado por laje plana
Dois arquitetos, duas linguagens: uma austera, ortogonal; a outra irreverente, feita da soma de planos inclinados. É nessa associação que reside a identidade da casa em Nova Lima, MG, concebida por Fernando Maculan e Pedro Morais. Ex-sócios e atuais parceiros esporádicos, eles se valeram da contraposição formal para tirar partido do potencial paisagístico e da topografia acidentada do lote. A distinção de linguagens é indício de entrosamento profissional, e não de incompatibilidade criativa.

A casa está situada em condomínio residencial no município de Nova Lima, ao sul de Belo Horizonte, um dos mais recentes e de maior poder aquisitivo vetores de crescimento da capital mineira.

A implantação da residência resulta do equacionamento de duas demandas de ordem diversa: por um lado, o cliente - um jovem casal sem filhos - a desejava na cota mais alta possível, a fim de apreciar a paisagem do entorno com liberdade e privacidade; por outro lado, os 60% de inclinação do lote impunham restrições quanto à trajetória ideal e menos agressiva da rampa de acesso à edificação. O plano inclinado da circulação de veículos possui desenho em V, alternando no percurso concordância e discordância com as curvas de nível.

O posicionamento do platô é um dos pontos-chaves do projeto. A laje plana que o conforma tem quase a largura total do terreno e excede confortavelmente a área de projeção da edificação, gerando um terraço contínuo ao redor da construção. É uma casa-praça, na definição dos autores. Os ambientes sociais da residência - sempre receptiva aos hóspedes e às confraternizações, assinalam os arquitetos - têm como piso a laje do platô, que funciona também como cobertura das áreas íntimas e de serviço. Se o primeiro setor tem linguagem irreverente, jovial, conforme demanda inicial dos clientes, conhecedores do trabalho de Maculan e Morais (que já haviam desenhado uma casa para um membro da família), o bloco dos dormitórios é um volume de linguagem racional: um paralelepípedo branco com aberturas modestas, embora ambientalmente confortáveis.

Essa contraposição faz com que a casa, ainda que distribuída em dois pavimentos, pareça uma residência térrea, do tipo pavilhonar. Destaca-se, assim, o grande entrosamento entre interiores e exteriores no domínio da laje plana da praça, resultante das fachadas envidraçadas. Os ambientes compartimentados - a sala de televisão e a cozinha - estão localizados ao lado, em volumes autônomos.

Aberturas zenitais complementam o sistema de iluminação natural da casa
Vista frontal, com destaque para a contraposição entre o embasamento austero, fechado, e o térreo do tipo pavilhão
A laje de cobertura, trapezoidal, abriga a garagem numa das extremidades, com pilares delgados e inclinados sinalizando a linguagem despojada do núcleo social. À esquerda, o grande muro de contenção
O platô que abriga a área social da casa tem a largura do lote

Seria, no entanto, um pavilhão à mineira. Se é que se pode, nesses termos, fazer menção à correspondência entre os sucessivos ângulos oblíquos - desde a forma da laje até o plano inclinado da abertura zenital e a angulação das paredes - e as cotas de nível da topografia acidentada, recorrente em Minas Gerais. Nada muito literal, mas, de qualquer forma, diverso da arquitetura de casas pavilhonares paulistas. É dessa dualidade proveitosa que se nutre o projeto, a um só tempo racional e irreverente, moderno e contemporâneo.

Por ora os arquitetos não têm planos para desenvolver novos trabalhos em parceria. Fernando Maculan, admirador de duas residências que ficam no entorno desta - uma desenhada por Camila Fabrini e outra por Carlos Teixeira -, está concebendo uma espécie de casa de cultura mineira em São Paulo. Já Pedro Morais desenvolve o projeto de instalação de um artista argentino, cuja inauguração está prevista para outubro próximo, no Centro de Arte Contemporânea Inhotim, na cidade mineira de Brumadinho. “É o projeto de uma piscina”, ele explica.



Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 352 Junho de 2009


Fernando Maculan e Pedro Morais foram sócios no escritório AUA de 2001 até 2004. Maculan é arquiteto e urbanista formado pela UFMG, sócio do grupo A&M_Hardy_Voltz e da MolMaculan Design. Colaborou com o escritório de arquitetura Hayano Gumi, em Tóquio, entre 2004 e 2005. Morais, arquiteto e urbanista pela UFMG, possui escritório próprio desde 2000, é articulista do jornal Hoje em Dia e sócio fundador da loja e galeria Desvio
A vista aérea evidencia a distinção entre o embasamento ortogonal e o núcleo social de forma irrregular, o que faz a casa assemelhar-se a um pavilhão
O local de implantação do platô social foi orientado pela busca das copas das árvores como paisagem
 
Sobre o estar, a laje de concreto
se abre no plano inclinado da
iluminação zenital
Hall íntimo, pelo qual se chega aos
quartos, no pavimento inferior
Nos interiores, as aberturas têm linguagem despojada e formas irregulares, diferente dos planos puros e dos enquadramentos ortogonais das fachadas
A cozinha, num dos blocos laterais, é iluminada por uma combinação de claraboias e a janela central