Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho

Memorial da Imigração Japonesa no Brasil, Belo Horizonte

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Figuras presentes nas bandeiras do Japão e de Minas Gerais foram incorporadas ao desenho do memorial
Figuras presentes nas bandeiras do Japão e de Minas Gerais foram incorporadas ao desenho do memorial...
Pavilhão sobre espelho d’água liga Minas ao Japão
Como todo memorial, é carregado de simbolismo o pavilhão projetado por Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho para ligar, de forma metafórica, o Japão a Minas Gerais. Ponte suspensa sobre um espelho d’água, a edificação celebra a amizade entre os dois povos e incorpora-se ao rol de homenagens prestadas ao centenário da chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, transcorrido em 2008.

Minas Gerais não recebeu uma leva significativa de imigrantes vindos do Japão: segundo estimativa atual, cerca de 10 mil descendentes nipônicos vivem no estado. No entanto, a capital mineira construiu um dos mais expressivos símbolos do centenário da imigração japonesa para o Brasil, comemorado no ano passado.

Parceiros na concepção do Parque Ecológico Promotor Francisco Lins do Rego - em conjunto com Álvaro Hardy, o Veveco -, Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho repetiram o dueto no projeto do Memorial da Imigração Japonesa no Brasil, inaugurado em maio de 2009, naquele parque, que fica na região da Pampulha, em Belo Horizonte. Paulo Pederneiras, diretor artístico da companhia de dança Grupo Corpo, associou-se a eles e trouxe ainda mais plasticidade à intervenção.

Sua cor vermelha quebra, externamente, a alvura do monumento
...e sua cor vermelha quebra, externamente, a alvura do monumento
croqui
Croqui
Percursos que levam ao interior do memorial são simétricos
Percursos que levam ao interior do memorial são simétricos

A proposta da Usiminas de implantar o memorial em meio a uma área verde levou em consideração a ligação atávica da cultura japonesa com a jardinagem e o paisagismo. E a escolha do parque ecológico foi reforçada pelo fato de este ter sido projetado pela mesma dupla de arquitetos que a empresa contratara para desenhar o memorial, conta Mariza.

O desenho singelo, quase mimético, mas de grande força expressiva, contemplou as exigências de órgãos ambientais e do patrimônio, que permitem apenas intervenções de pequena monta tanto no local como nos arredores da Pampulha. “A forma surgiu como um gesto, um espaço limpo, sem arestas”, explica a autora.

A relevância do conjunto não está, de fato, na sua dimensão física - pouco mais de 500 metros quadrados de área construída -, mas no desenho simbólico que a dupla criou para sintetizar essa aproximação. Separados por oceanos, Brasil e Japão comunicam-se através de um pavilhão-ponte que transpõe metaforicamente essa distância. “O museu a céu aberto celebra a amizade entre japoneses e mineiros e o que essa relação foi capaz de construir de concreto e de imaterial”, pondera Penna.

Grosso modo, em planta o monumento se assemelha a uma hélice: é composto por duas rampas curvas que começam em margens opostas do espelho d’água e se conectam em pontos diferentes da construção circular. “O percurso parte do Japão simbólico, das cerejeiras, para a Minas dos ipês-brancos”, explica Penna, reforçando o papel do paisagismo.

Figuras alusivas às bandeiras do Japão (o círculo) e de Minas (o triângulo), ambas vermelhas, contrastam com a alvura dos muros próximos das rampas. “A forma da ponte simétrica e com curvas que se entrelaçam evoca ao mesmo tempo coesão, movimento contínuo e interdependência, e gera um percurso museológico de recursos multimídia e linguagem acessível”, discorre Penna.

Responsável pela concepção cenográfica do interior do memorial, Paulo Pederneiras explica que procurou produzir um espaço sensorial. A cor vermelha, presente em ambas as bandeiras, foi escolhida também, segundo ele, por sua associação, na cultura japonesa, aos ritos de passagem - o nascimento, o casamento e a morte.

“O vazio ali existente é representativo na civilização japonesa”, acrescenta Pederneiras. Ele procurou imprimir ao espaço o caráter de templo e de reverência: os visitantes devem retirar seus calçados para entrar no local, onde as almofadas em forma de vitória-régia indicam tratar-se de de um ambiente de descanso, contemplação e reflexão. A forma circular escolhida é, simultaneamente, a mais simples e a de mais complexa obtenção, completa Pederneiras.

O uso do aço como material do memorial de certa forma interpreta o significado da comunidade japonesa em Minas. Embora pouco significativa numericamente, ela tem muito a ver com a capacitação tecnológica daquele estado, sobretudo no que se refere à siderurgia.



Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 355 Setembro de 2009


Gustavo Penna Mariza Machado CoelhoGustavo Penna (EAU/UFMG, 1973), titular do escritório Gustavo Penna Arquiteto e Associados, é autor, entre outros projetos, da urbanização do entorno do Mineirão, estádio que será usado na Copa do Mundo de 2014.

Mariza Machado Coelho (EAU/UFMG, 1976) é sócia do escritório A&M Arquitetura, que fundou em 1990, junto com Álvaro Hardy (falecido em 2005)
O paisagismo também leva em consideração aspectos culturais: ipês-brancos de Minas, cerejeiras do Japão
O paisagismo também leva em consideração aspectos culturais: ipês-brancos de Minas, cerejeiras do Japão
A nave pousada no parque - comparação feita por Ricardo Ohtake - é uma homenagem ao centenário da imigração japonesa no Brasil
A nave pousada no parque - comparação feita por Ricardo Ohtake - é uma homenagem ao centenário da imigração japonesa no Brasil
Acesso a uma das entradas do monumento: apenas um recorte na superfície branca
Acesso a uma das entradas do monumento: apenas um recorte na superfície branca
No interior do memorial, o vermelho de fundo infinito, com luz vinda apenas das portas, e as almofadas em forma de vitórias-régias
No interior do memorial, o vermelho de fundo infinito, com luz vinda apenas das portas, e as almofadas em forma de vitórias-régias
Uma nave, por Ricardo Ohtake
Uma nave, por Ricardo Ohtake

A nave aterrissada no parque ecológico da Pampulha, sobre um espelho d’água, voou cem anos. Do Japão ao porto de Santos, subiu a serra do Mar, chegou em São Paulo e foi para o interior do estado. Em alguns momentos esteve no norte do Paraná, em fazendas no Pará e em outras regiões brasileiras, não só na zona rural, mas nos vilarejos, cidades e grandes centros urbanos.

Em Minas Gerais, pousou majestosamente em Belo Horizonte. Em aço, reafirma a grandeza mineira ao buscar o minério de ferro, referência à industrialização. Em belíssima representação, evoca um século de trabalho e de amor à terra.

O belo volume criado por Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho não nos deixa saber como pousou, de tão leve. Nem exige que se pergunte qual material o manteve de pé e o estruturou. Peça circular de linhas puras, pintada de branco imaculado, leve, pode representar um abraço ou qualquer coisa que se invente para saciar os curiosos espectadores, desejosos de uma resposta concreta e mágica. Mas nada disso é importante, apenas a forma, que todos admiram embasbacados pela perfeição e leveza.

Internamente, o vermelho longínquo provoca certa sensação dramática inicial e, em seguida, outra, vazia, numa experiência sensorial sem precedentes em espaço arquitetônico. Paulo Pederneiras o colocou como palco do Grupo Corpo e maravilhosamente transferiu a dança para os visitantes do monumento.

Quando Rinaldo Campos Soares [ex-presidente e atual membro do conselho de administração da Usiminas] tomou para si mais essa desafiante tarefa, o fez mineiramente, dando o exemplo de iniciativa que nenhum paulista conseguiu realizar. O grande líder mineiro reuniu pessoas como ele, representativas das montanhas, e construiu, somando-se aos monumentos de Niemeyer, mais um ícone para a cidade.