Jacques Herzog e Pierre de Meuron
Complexo Cultural Teatro de Dança, São Paulo
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- 08 de Outubro de 2009. Visitas: 41.518
A balança do bairro da Luz, que às vezes pende com estardalhaço para a Cracolândia - região degradada pela venda e consumo de drogas em pleno centro de São Paulo -, pode ganhar mais um contrapeso caso se concretize a intenção da Secretaria da Cultura estadual de implantar o Complexo Cultural Teatro de Dança no terreno onde funcionou durante anos a principal rodoviária paulistana. Projetado pelos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, ele vai somar esforços com o Museu da Língua Portuguesa, de Paulo Mendes da Rocha, e a Sala São Paulo, de Nelson Dupré, na proposta de fazer da cultura um dos focos de estímulo para a revitalização da área.


No início de julho foi divulgado o estudo preliminar preparado pelo escritório Herzog & De Meuron, contratado pela secretaria. Apenas uma praça vai separar o edifício da Estação Júlio Prestes - projetado por Christiano Stockler das Neves e no qual há dez anos Dupré inseriu a Sala São Paulo - do complexo cultural que, segundo a secretaria, vai colocar São Paulo definitivamente na rota dos grandes projetos de arquitetura internacional.
Segundo o órgão paulista, a convocação de Herzog & De Meuron, contratado por notória especialização, entre outros motivos, ocorreu depois de a empresa inglesa TPC Theatre Projects Consultants, também a convite da secretaria, ter definido o perfil do futuro complexo e detalhado o programa de cada item. Seus técnicos estudaram e analisaram a cidade para dimensionar um teatro de características únicas.
A partir desse estudo, a secretaria selecionou escritórios internacionais de arquitetos que poderiam se interessar em desenvolver o projeto: o inglês Norman Foster, o argentino radicado nos EUA Cesar Pelli, o holandês Rem Koolhaas e a dupla suíça. “Queríamos provocar um escândalo na arquitetura brasileira. No bom sentido”, provoca o secretário da Cultura, João Sayad. Mesmo detentores do Pritzker, Oscar Niemeyer e Mendes da Rocha foram descartados, segundo Sayad, por já terem outros projetos na cidade. Na avaliação do secretário, a arquitetura de Foster, Pelli e Koolhaas torna seus projetos facilmente reconhecíveis em qualquer parte do mundo, enquanto a de Herzog & De Meuron revela-se sempre inovadora, invulgar.
A decisão provocou, se não escândalo, pelo menos um choque no meio arquitetônico paulista. De um lado, alguns defenderam a contratação dos suíços, pelos antecedentes de sua admirada arquitetura. Outros, contrariados, contestaram não o trabalho dos arquitetos escolhidos, mas a forma de escolha, argumentando que seria mais justa a realização de um concurso internacional.
Com o caderno do estudo preliminar do TPC nas mãos, Sayad aponta, bem-humorado, a planta de uma das salas e diz: “Aqui vai ficar o camarote do secretário”. Para chegar a ele, Sayad - ou seu eventual sucessor - terá apenas que atravessar a praça Júlio Prestes (a sede da secretaria fica no edifício que também abriga a Sala São Paulo) e percorrer a rampa que demarca a entrada principal do complexo. A partir do lobby, poderá se dirigir a um das dezenas de ambientes, que se distribuirão por aproximadamente 95 mil metros quadrados de área construída. Entre outros, o conjunto contará com três teatros: um para dança e ópera, com 1.750 lugares; outro destinado a teatro e recitais, para 600 espectadores; e uma sala experimental, de 450 lugares.
O conceito intrínseco ao projeto de Herzog & De Meuron foi mesclar e combinar o máximo de atividades possível, transpondo para o edifício a dinâmica da metrópole paulistana. O conjunto possui quatro pavimentos (e altura média de 23 metros), dos quais não se consegue fazer uma leitura externa linear nem definir uma hierarquia entre as fachadas. Uma abordagem possível é a de uma praça suspensa, composta por um jogo de lâminas entrelaçadas nos dois sentidos, que se integra às áreas verdes que a dupla propõe para o entorno.
A quadra abrangida pela intervenção é formada pela praça Júlio Prestes e trechos da rua Helvétia e das avenidas Rio Branco e Duque de Caxias. “Nosso objetivo é criar um espaço cultural bem localizado e de fácil acesso à população, próximo das linhas de metrô e trem. São Paulo merece um grande marco arquitetônico e esse complexo desempenhará tal papel”, avalia Sayad.
Os recursos estimados pelo Estado para a construção do complexo são de 300 milhões de reais, parte dos quais se pretende obter por meio de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Herzog & De Meuron devem receber por seu trabalho cerca de 8,5% desse total, o que representa quase 26 milhões. A secretaria prevê que a licitação para dar início à obra seja realizada no segundo semestre de 2010.
Edição 354 Agosto de 2009

Primeiro pensamos na sede da companhia e no teatro. Procuramos um local e, depois de várias propostas, chegamos a este, uma área deteriorada, em frente da Sala São Paulo. A praça Júlio Prestes está mal aproveitada e éramos cobrados pelo governador para reformá-la. Numa etapa inicial, no primeiro semestre do ano passado, trabalhamos com especialistas do escritório TPC Theatre Projects Consultants, durante cerca de quatro meses, para a definição do programa. Terminada esssa fase, escolhemos conversar com arquitetos de notória especialização: Foster, Koolhaas, Pelli e Herzog & De Meuron. Pareceu-nos que eles tinham mais capacidade de negociação para que o projeto custasse pouco em vista da nossa preocupação primordial, que era a qualidade técnica e cenográfica, em termos de dimensões adequadas de palco, plateia e condições de acústica, em um espaço para dança e ópera. Teremos um teatro de excelência.
Os escritórios foram sugeridos pela TPC?
Conversamos sobre eles e sobre outros que acreditávamos que não topariam vir para o Brasil. Alguns foram convidados para conversar e nem vieram, outros eram excelentes mas apresentavam determinadas exigências técnicas, e outros ainda tinham personalidade profissional difícil para realizar a negociação. Chegamos então a Herzog & De Meuron. O fato de ser um escritório estrangeiro era porque buscávamos arquitetos de notória especialização e não queríamos promover um concurso. Dos notáveis brasileiros, [Paulo] Mendes da Rocha e [Oscar] Niemeyer, por exemplo, já têm bastantes projetos no Brasil. Também imaginamos que, como Secretaria da Cultura, seria uma contribuição positiva para a arquitetura trazer um profissional estrangeiro. E os suíços mostravam algumas características importantes para nós.
Quais são essas características?
O grande interesse deles em fazer um projeto na América Latina, especialmente no Brasil, a disponibilidade de tempo, em comparação com outros escritórios, além da intenção de investir no país. Analisando seu portfólio, percebemos que cada projeto é único. É difícil apontar um edifício e dizer com certeza que é de Herzog & De Meuron. Olhando com olhos de leigo, como são os meus, é possível perceber quais são de Koolhaas, quais são de Foster ou de Pelli - espero que eles não leiam sua revista -, mas não quais são de Herzog & De Meuron. Principalmente porque eles investem muito na concepção do material, na fachada e na adaptabilidade do projeto ao local.
Quando eles foram contratados?
Em julho do ano passado. Desde então, já vieram a São Paulo várias vezes, visitaram a cidade e apresentaram o projeto básico. Mas, como suíços cuidadosos que são, dizem que é a proposta básica e preliminar. Eles gostariam de apresentar o projeto em outubro, mas estamos tentando nos antecipar e fazer com que isso ocorra na próxima bienal de arquitetura.



