José Wagner Garcia

Loja Ferrari e Maserati, São Paulo

Fichas técnicas
Fornecedores
Plantas, cortes e fachadas
Na interface da estrutura metálica com as lâminas de concreto do corpo central do edifício, a estrutura foi fixada pontualmente com a aplicação de chumbadores químicos, sendo a vedação feita com rufos metálicos e silicone
Na interface da estrutura metálica com as lâminas de concreto do corpo central do edifício, a estrutura foi fixada pontualmente com a aplicação de chumbadores químicos, sendo a vedação feita com rufos metálicos e silicone
Painéis de inox e vidro criam filtros de luz
O edifício do showroom da Via Itália deveria ter fachadas transparentes, para expor os veículos Ferrari e Maserati, mas protegidas de forma a garantir o conforto ambiental. A criação de uma malha metálica com planos inclinados e formas não ortogonais, vedada por elementos opacos e transparentes, atendeu a essas condicionantes.

Era exigência da Via Itália - importadora e representante oficial das marcas Ferrari e Maserati no Brasil - que o edifício do novo showroom tivesse condições ideais de conforto ambiental, faces transparentes para exposição dos veículos e caráter emblemático. A resposta dada pelo projeto arquitetônico veio com a criação de fachadas inclinadas compostas por uma malha metálica com formas não ortogonais, originando vãos protegidos ora por painéis de vidro, ora por chapas de aço inox. Implantado em um lote na esquina da avenida Brasil com a rua Venezuela, na região dos Jardins, em São Paulo, o prédio tem três partes diferenciadas pela função, formato, tratamento de materiais e setorização. A partir do traçado de um eixo diagonal no terreno foi desenhado o corpo central, em concreto, do qual se destacam duas asas estruturadas em aço, que no térreo abrigam o salão de exposições. Nelas, fachadas e coberturas se transformam em uma única pele. Um nível abaixo, o subsolo reúne setores de apoio, tendo comunicação visual com áreas externas e jardins, o que permite a entrada de iluminação natural.

Com base no desenho da malha estrutural proposta pela arquitetura, a empresa Construmet estudou a superposição dos perfis estruturais e definiu as espessuras de cada barra metálica
Com base no desenho da malha estrutural proposta pela arquitetura, a empresa Construmet estudou a superposição dos perfis estruturais e definiu as espessuras de cada barra metálica
Perspectiva esquemática
Perspectiva esquemática

A forma quadrilátera do salão de exposições, a transparência de seu envoltório e as exigências de climatização artificial foram premissas determinantes para os estudos de desempenho ambiental, considerando a criação de um espaço confortável dentro de uma caixa de vidro. O conceito e o desenho inicial desenvolvidos pelo arquiteto José Wagner Garcia, do escritório Noosfera, foram apresentados para o Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética da FAU/USP (Labaut), que apresentou as diretrizes para tornar a edificação mais eficiente em termos de conforto termoacústico e luminotécnico. Os estudos do Labaut indicaram o correto posicionamento da construção no terreno em relação à insolação, o ângulo de inclinação mais eficiente para as fachadas, a relação de elementos translúcidos e opacos e o cálculo térmico para o ar-condicionado.

A complexidade da obra levou também ao trabalho integrado, ainda na fase de desenvolvimento do projeto, dos principais colaboradores - fornecedores da estrutura metálica, vidro, aço inox e sistema de ar condicionado -, sob coordenação da construtora WTorre. A forma final da edificação é resultado do conceito inicial apresentado pelo arquiteto, das diretrizes de conforto ambiental elaboradas pelos técnicos do Labaut e das soluções de materiais e sistemas desenvolvidos especialmente. Tudo sob o crivo dos diretores da empresa na Itália.

Malha metálica
Executada de modo artesanal, sem modularidade e com alguns elementos utilizados de forma não convencional, a obra tornou-se estimulante. Nas fachadas, estrutura, elementos de vedação e de revestimento se fundem. A malha metálica, estrutural e autoportante, também serve como parte da vedação. O conjunto de fachadas resulta do fechamento composto por esses três materiais, com vãos de forma não-ortogonal, gerando desafios maiores à estrutura metálica, ao encaixe dos vidros e à instalação das chapas de inox. A particularidade desse sistema exigiu acompanhamento constante de todas as empresas envolvidas e de equipes da construtora e do escritório de arquitetura. A partir do desenho da malha estrutural elaborado pelos arquitetos, a Construmet, responsável pelo projeto e execução da estrutura metálica, estudou a superposição dos perfis estruturais e definiu as espessuras de cada barra.

A malha metálica origina vãos de formas não ortogonais, preenchidos por vidro ou painéis de aço inox
A malha metálica origina vãos de formas não ortogonais, preenchidos por vidro ou painéis de aço inox
O “esqueleto” metálico foi construído em etapas: primeiro as peças foram pré-montadas na fábrica, desmontadas em tamanhos transportáveis, pintadas e depois enviadas para a obra
O “esqueleto” metálico foi construído em etapas: primeiro as peças foram pré-montadas na fábrica, desmontadas em tamanhos transportáveis, pintadas e depois enviadas para a obra
Soluções para portas inclinadas
Elevação da porta principal inclinada
Elevação da porta principal inclinada
Corte
Corte

Para a estrutura metálica foram utilizados perfis dobrados enrijecidos e associados, formando perfis do tipo caixa, com seção retangular de 300 x 170 milímetros, pintados na cor cinza-chumbo. Na distribuição de cargas, os esforços provenientes da cobertura somam-se aos pesos próprios das fachadas, que são absorvidos por uma viga de distribuição contínua no perímetro da construção. Segundo Wilson Ramos, diretor da Construmet, os panos das fachadas funcionam como contraventamento vertical em face das formas geométricas triangulares nelas embutidas. Esse “esqueleto” metálico foi construído em etapas. Primeiro os painéis das fachadas foram pré-montados na fábrica, desmontados em unidades transportáveis, pintados e enviados para a obra. Inicialmente se levantaram as colunas dos vértices com as vigas perimetrais da cobertura e inseriram-se os painéis pré-construídos. A fixação da estrutura nas bases foi através de chumbadores com rosca previamente concretados. Na interface da estrutura metálica com as lâminas de concreto do corpo central do edifício, a estrutura foi fixada pontualmente, com a aplicação de chumbadores químicos e a vedação por rufos metálicos e aplicação de silicone.

Sombreamento
O salão de exposições tem uma diversidade que se assemelha à encontrada em ambientes externos. Ele recebe iluminação natural, mas a incidência direta da luz solar é reduzida devido à relação entre os elementos de vedação opacos e transparentes e os diferentes ângulos de inclinação da fachada, em função da orientação do edifício. “Assim foi possível chegar à melhor equação para obter a luz natural adequada, evitar ofuscamentos e ter o melhor desempenho térmico no interior da edificação”, explica o arquiteto Leonardo Monteiro, do Labaut. A fachada voltada para a avenida Brasil recebeu vidro cristal laminado antirreflexo de 12 milímetros nas áreas inferiores (até cerca de 2,50 metros de altura do piso) e cristal incolor laminado nas porções superiores. A face posterior, voltada para a rua Venezuela, tem cristal incolor laminado de 12 milímetros, enquanto as fachadas nordeste e noroeste têm 25,3% de vidro incolor cada uma, a fachada sudeste tem 26,8% e a sudoeste, 19,8%.

Os painéis de aço inox são compostos por duas chapas de aço escovado 444, de 1,5 milímetro de espessura, intermediadas por uma camada de 25 milímetros de poliuretano, para garantir o isolamento termoacústico. Essas chapas foram enrijecidas com dobras e fixadas com parafusos autoperfurantes, isoladas do contato com a estrutura metálica. Os mesmos cuidados foram dispensados à cobertura. Sua inclinação foi determinada em função das inclinações das fachadas, com as águas voltadas para o sul, de modo a possibilitar menor ganho de calor por radiação solar direta incidente ao longo do ano. A cobertura tem 4,5% de vidro laminado leitoso branco, de 12 milímetros de espessura, composto por duas lâminas de cristal incolor de seis milímetros e duas películas de polivinil butiral (PVB), uma incolor e outra leitosa.

O sistema de distribuição de ar deveria ter elevado desempenho, devido ao caráter atípico das condições ambientais do edifício, com altas temperaturas radiantes e incidência solar através de fachadas e trechos da cobertura. Para estas foram estudadas porcentagens de áreas envidraçadas e opacas, de modo a obter melhor aproveitamento das estratégias de projeto em relação ao desempenho ambiental do edifício. Os estudos do Labaut indicaram que o sistema de condicionamento do ar deveria ter condições homogêneas que propiciassem conforto ambiental para os clientes sem sacrificar o bem-estar dos funcionários, que ficam no local durante todo o dia. Como o pé-direito na área do showroom é alto, caso fosse criado um volume muito grande para resfriar totalmente o ar, ocorreria consumo elevado de energia. Durante os estudos foram consideradas as condições de distribuição da temperatura e da velocidade do ar em sistemas de condicionamento, com opções de insuflamento pela passarela, pelo piso, cortinas de ar nas fachadas ou sistemas mistos.

Segundo a arquiteta Alessandra Prata, do Labaut, a proposta de insuflamento pelo piso era a mais adequada. Essa solução possibilitaria maior homogeneidade na distribuição de temperatura e velocidade do ar, causando ainda a desejada estratificação de temperaturas e permitindo condicionar apenas as áreas efetivamente ocupadas pelos usuários. Mas mostrou-se inviável, devido à intenção da Via Itália de ter um layout flexível no interior da loja, para permitir a circulação de veículos. O sistema de cortina de ar junto às fachadas também foi descartado por sua execução e manutenção complexas, já que os dutos deveriam passar entre as peças metálicas das fachadas, que são soldadas e não ortogonais. Optou-se, então, por mesclar os insuflamentos pelo forro, sob a passarela do mezanino, e pelo piso apenas ao longo das fachadas metálicas, as áreas mais críticas de calor, segundo a arquiteta Telma Portero, da equipe do escritório Noosfera.

Foram utilizados dois sensores combinados, devido às dimensões do vão útil de passagem, para que fossem evitadas zonas mortas
Foram utilizados dois sensores combinados, devido às dimensões do vão útil de passagem, para que fossem evitadas zonas mortas
O desafio começou no tamanho especificado para as folhas das portas e nos ângulos de inclinação acompanhando a fachada, conforme especificação da proposta arquitetônica. O edifício tem três portas inclinadas nas entradas principal, dos fundos e lateral, voltada para a rua Venezuela. Na principal o vão total é de 9,73 metros e o vão útil de passagem é de 4,86 metros.

Nesse caso, o projeto teve de considerar a necessidade de abertura total desse vão, o peso das folhas de vidro (164 quilos) e das ferragens, a inclinação das folhas e eventuais pressões do vento na fachada, explica o engenheiro Dante Boccuto Júnior, gerente da Divisão Automatic para a América Latina da Dorma.

Como a dimensão da porta ultrapassa o limite padrão de seis metros, o sistema opera com duas máquinas. Além disso, foram especificados painéis de vidro temperado de dez milímetros, pesando cerca de 200 quilos, e rolamentos com sistema agulha para ajudar na absorção dos esforços. Importados da Dorma da Alemanha, esses rodízios foram fixados e distribuídos em ferragem especial (um perfil horizontal para proteção da borda inferior do trilho).

São componentes que atendem às solicitações do plano inclinado e absorvem esforços do peso próprio da porta e cargas acidentais, como a pressão do vento. Essa porta possui dois sensores especiais combinados - de movimento e de presença - num único equipamento, utilizando sistema ativador (de micro-ondas) e de segurança (infravermelho). Caso algum usuário fique parado no centro da porta, as folhas não se fecham, pois não existem zonas mortas.

Para a lateral e os fundos também foram utilizados sistemas de portas automáticas deslizantes ES 200, da Dorma, com chaves programadoras, sensores combinados (de micro-ondas e infravermelhos), controle remoto via rádio, além de ferragens especiais para a fixação dos vidros temperados de dez milímetros. Todas as portas possuem chave programadora de cinco posições (fechado, automático, abertura parcial, saída e abertura). Na posição abertura permanente, as folhas das portas se abrem e permanecem abertas (nesse caso, para a entrada e saída dos automóveis, bem como eventual manutenção e limpeza dos vidros).
Os rodízios foram fixados em um perfil horizontal que protege a borda inferior do trilho
Os rodízios foram fixados em um perfil horizontal que protege a borda inferior do trilho
Uma capa protetora evita a incidência direta da luz solar nos mecanismos de abertura
Uma capa protetora evita a incidência direta da luz solar nos mecanismos de abertura
A partir de um eixo diagonal no terreno foi desenhado o corpo central do edifício, do qual se destacam duas asas estruturadas em aço
A partir de um eixo diagonal no terreno foi desenhado o corpo central do edifício, do qual se destacam duas asas estruturadas em aço

Desempenho acústico
Para resolver a questão da acústica, segundo Alessandra, era preciso considerar que havia uma grande área de piso e uma pele de vidro, com alguns elementos opacos, originando uma caixa reverberante. O relatório técnico de desempenho desenvolvido pelo Labaut considerou dois objetos de estudo. O primeiro refere-se ao isolamento acústico do edifício em relação ao meio urbano e entre os ambientes interiores. O segundo aborda o conforto dos espaços internos, com tratamento de diferentes superfícies, adequando seu desempenho acústico às atividades desenvolvidas no local. Segundo os dados levantados pelo Labaut, o nível de ruído externo na avenida Brasil varia em função da quantidade, velocidade e porte dos veículos que ali transitam. Predominantemente ocupada por automóveis, seu nível de ruído oscila entre 70 e 75 dB(A) durante o dia e 60 e 65 dB(A) nas primeiras horas da noite. Há picos com a passagem de motocicletas e veículos pesados, além da parada e aceleração de ônibus no ponto em frente ao local da obra. Nesse ponto a variação é de 85 a 95 dB(A).

O isolamento acústico da fachada de vidro, segundo os estudos do Labaut, deveria ficar acima de 30 dB, considerando a manutenção de todas as portas fechadas. Além disso, pela condição de estanqueidade necessária do envoltório, todos os elementos da fachada deveriam atingir isolamento acústico igual ou superior ao obtido pelo vidro. Para este caso, foram sugeridas pelo Labaut soluções como a instalação de baffles (elementos acústicos decorativos pendentes do forro) e a substituição das chapas lisas de inox do fechamento interno metálico por chapas perfuradas, com material absorvente entre as placas interna e externa. Mas essas soluções foram suprimidas, por questões de custo.



Texto de Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 58 Setembro de 2009
Os panos das fachadas funcionam como contraventamento vertical em face das formas geométricas triangulares nelas embutidas
Os panos das fachadas funcionam como contraventamento vertical em face das formas geométricas triangulares nelas embutidas
Arquitetura e análises técnicas integradas
Os estudos de conforto ambiental desenvolvidos pelo Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética da FAU/USP (Labaut) deram subsídios técnicos para a proposta arquitetônica ainda na etapa inicial de projeto, sendo depois seguidos de análises de desempenho mais rigorosas, durante as fases de detalhamento e de especificação. Assim, a concepção inicial, de construção de uma caixa inteiramente de vidro, foi reconsiderada. Surgiu a proposta de alternar placas opacas e painéis de vidro, sem tirar a transparência fundamental para a função do salão de exposições. A consultoria do Labaut foi feita em duas etapas. Inicialmente, a equipe estudou orientação do edifício, inclinação das fachadas, quantidade de áreas opacas e transparentes. Depois, foi analisado o sistema de distribuição do ar, para que fosse o mais econômico possível e garantisse condições de conforto, considerando as faces envidraçadas, o pé-direito elevado no showroom e a incidência solar por coberturas e fachadas. Levou-se em conta a incidência da radiação solar nos usuários, devido à grande área envidraçada, somada às altas temperaturas superficiais internas do envoltório, pela exposição à insolação. As dificuldades com relação ao conforto térmico surgiram pelo efeito conjunto de alguns fatores, situação acentuada pelas condições climáticas e pela radiação solar direta intensa em grande parte do ano, comum em São Paulo.
Sala suspensa sobre o showroom
A sala de reuniões avança sobre o espaço do showroom
A sala de reuniões avança sobre o espaço do showroom
No térreo do edifício foi instalada sua área mais nobre - o salão de exposições dos veículos Ferrari e Maserati e uma butique com os produtos das marcas. O espaço tem pé-direito de sete metros e uma sala de reuniões suspensa, cujo arranque construtivo sai de um mezanino-passarela.
Sala de reuniões
Sala de reuniões
Corte
Corte
Detalhes
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