Mauro Munhoz Arquitetura
Residência, Campos do Jordão-SP
- Detalhes
- 05 de Março de 2002. Visitas: 53.683

A sede de fazenda para criação de cavalos foi a primeira etapa finalizada de um projeto que inclui a implantação de um haras na divisa entre Campos do Jordão e Santo Antonio do Pinhal, municípios serranos de São Paulo. Com 15 mil m2, a parte reservada para a residência está situada em um vale, onde a topografia é menos acidentada.
Segundo o arquiteto Mauro Munhoz, essas condições deveriam ter um aproveitamento individualizado para que a casa fosse inserida com naturalidade no lote e se integrasse à paisagem, e não apenas servisse de limite com o exterior. “A arquitetura deve ser feita para um contexto”, define Munhoz.
Daí surgiram as primeiras definições da construção, dividida em dois volumes posicionados em cotas mais elevadas e interligados pela passarela coberta. O corpo principal abriga a residência, com três suítes e ampla área social com cozinha e varandas integradas; no anexo menor foram dispostos o setor de serviços, garagens e uma segunda cozinha para o pré-preparo de alimentos.
A parede de um dos banheiros ganha continuidade no jardim para se transformar em muro de arrimo.
A mesma idéia foi usada no abrigo do gás, a fim de aproveitar a topografia como elemento tectônico.
A volumetria recortada reforça essa ausência de limites, permitindo que os jardins avancem pela construção e vice-versa.
A casa nada tem em comum com as típicas sedes de fazenda e muito menos com os chalés de montanha predominantes na área. Ao contrário, ela apresenta linguagem moderna e racional, resultado da formação do arquiteto, um estudioso da obra de Frank Lloyd Wright e da arquitetura de alvenaria praticada ao longo da Estrada de Ferro Campos do Jordão entre as décadas de 1920 e 1940 e mais tarde retomada em construções de Oswaldo Bratke. “A casa não é um cenário, mas uma conseqüência do estudo”, afirma Munhoz.
Ao lado de grandes vãos livres sob os beirais, da forma de assentamento das pedras e do detalhismo do arquiteto, outras das influências de Wright percebidas no projeto é a linha estrutural interna aos caixilhos, com distâncias variáveis, o que permite flexibilidade e leveza na disposição dos grandes panos de vidro, vários deles em ângulos de 90 graus.
Treliças relacionadas à geometria do telhado, dispostas no perímetro da construção independentemente de caixilhos e paredes, sustentam a cobertura sem a necessidade de tesouras e vigas, criando ambientes livres de obstáculos que possam interferir em sua leitura.
Elas ainda funcionam como elemento de iluminação artificial, pois embutem lâmpadas em toda a extensão. Seu posicionamento estratégico faz com que os beirais funcionem como contrapeso do telhado, dispensando também a exigência de pilares nas varandas - exceto na formada pelo recuo da caixilharia.
A influência de Oswaldo Bratke é visível no modo como foi executada a cobertura, com caibros, forros, isolamento térmico, subcobertura e telhas de barro francesas. A casa tem nas transparências uma característica forte, até mesmo nos banheiros, todos eles fechados por vidros e visualmente protegidos por treliças de madeira recuadas, abrindo espaço para jardins internos.
As madeiras foram escolhidas pela função que deveriam desempenhar em cada situação. A alta resistência do jatobá justifica sua presença na estrutura da casa e na passarela. Também resistente e com tonalidade requintada, a peroba-mica aparece nos batentes e no piso. Para favorecer a reflexão da luz, o pau-marfim foi o escolhido para o forro, enquanto o freijó dá formas às folhas da caixilharia. A alvenaria utiliza pedras da região, assentadas com mão-de-obra do lugar. “A boa arquitetura é simples e depende da compreensão do lugar e do modo de vida das pessoas, mas passa também pelo conhecimento dos materiais, das técnicas, dos processos construtivos e da mão-de-obra locais”, defende Munhoz.
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 264 Fevereiro de 2002
paisagem serrana marcam o projeto



