Nitsche Arquitetos Associados

Residência, Guarujá, SP

Fichas técnicas
Fornecedores
Plantas, cortes e fachadas
O volume estruturado em concreto, metal e madeira parece flutuar sobre a plataforma
Plataforma plana de concreto recria lugar do homem no éden
Uma plataforma sobre a mata. Esta pode ser a definição desta casa de veraneio, situada em um condomínio fechado no litoral paulista. Porém, um exame mais cuidadoso do projeto - que é de autoria dos arquitetos Lua e Pedro Nitsche - revela aspectos bem mais complexos. A plataforma e o volume dos dormitórios - este situado em cota superior à daquela - contrapõem artesanato e industrialização, peso e leveza.
O extenso programa apresentado pelos clientes (que inclui cinco suítes), somado à topografia acidentada (típica da região) e à rígida legislação de preservação da mata atlântica nativa, levou os arquitetos à adoção de três pisos. O mais importante deles é o intermediário, na cota térrea, mais próxima da rua, e corresponde a uma plataforma que, semelhante a um grande plano desejável na escala doméstica, faz as vezes do terreno. Para os autores, “o partido estrutural da casa foi inspirado numa típica construção da região litorânea: as pontes para pequenas travessias de canais e mangues”.
A escada conecta a plataforma à varanda do piso superior
A cortina azul dialoga com a severidade tectônica

A plataforma abriga as áreas social e de lazer (piscina, churrasqueira, estar, jantar e cozinha) e pode ser definida como um lugar ideal no meio da mata, uma espécie de ambiente romântico de contemplação da natureza, distante do solo. Trata-se de um plano quase perfeito - o desenho é um pouco irregular em relação às divisas, estabelecido de acordo com o paralelismo da curva de nível junto da via e com uma das faces anguladas para melhor abrigar os carros. Indica um lugar seguro, construído pelo homem, para desfrutar do ambiente natural. É uma grande varanda, ora protegida de intempéries, ora ao ar livre. Mas a área vedada - uma caixa de vidro sombreada pelo pavilhão dos dormitórios - se dissolve frente ao todo, pois a continuidade do material do piso (placas de concreto) e a transparência dos caixilhos aumentam a sensação de espaço contínuo: um refúgio no éden, a 120 quilômetros da barbárie.

A casa fica escondida dos olhares curiosos pela própria vegetação existente. Para aumentar a sensação de privacidade, os arquitetos desenharam um ripado em frente da garagem e um volume de alvenaria que protege a cozinha. Por isso, a residência abre-se sem reservas para as laterais e para o fundo.

No piso inferior, sob a plataforma e assentados diretamente sobre o solo, ficam os ambientes de serviço (lavanderia, cozinha e dormitórios de empregados), ocultando a infra-estrutura necessária ao funcionamento da moradia. O restante da área embaixo da plataforma, ao menos no projeto, se renderia ao perfil natural do lote, intocado.

Passarelas de madeira ligam a plataforma à rua
Volume de alvenaria e ripado resguarda a casa de olhares externos

É certo que a chave do partido é a plataforma - nesse aspecto, vale lembrar que o projeto se aproxima das casas em Brotas e, sobretudo, em São Roque (leia PROJETO DESIGN 263, janeiro de 2002, e 287, janeiro de 2004), ambas desenhadas pelo escritório Andrade Morettin, ao qual Lua se associou em alguns concursos, como o da Faculdade de Medicina da USP (leia PROJETO DESIGN 227, dezembro de 1998). Mas, para tentar desvendar as virtudes do desenho, não se pode esquecer do pequeno pavilhão que abriga os dormitórios. Ele fica na cota superior (sobre a plataforma), contido por uma engenhoca tectônica simples e quase mínima. Suspenso por apenas quatro pilares de concreto (coincidência em relação à essencialidade estrutural de Artigas?), é apoiado em duas vigas de aço paralelas, que, por sua vez, sustentam vigotas de madeira. A diversidade da trinca de elementos estruturais dá ênfase especial à forma da construção do pavilhão, de montagem semi-industrializada, contraposta ao artesanato da plataforma. Por outro lado, a leveza desse volume, que parece flutuar, diferencia-se do peso da densa plataforma de concreto. Ou seja, a tensão entre os dois elementos principais confere especial interesse ao projeto.

A estrutura de madeira foi construída por Hélio Olga, que já havia participado de outra casa litorânea dos irmãos Nitsche (leia PROJETO DESIGN 293, julho de 2004). A planta do volume dos dormitórios, por sua vez, possui sotaque moderno, com todos os quartos abertos para o poente e banheiros iluminados por cima. De um lado, a circulação aberta estende ao pavimento superior a sensação de imensa varanda do piso abaixo; do outro, ela é fechada, e liga-se por uma escada à área envidraçada da plataforma. Nesta tradicional circulação dos dormitórios, fica o componente pop do projeto: tal como na casa de Camburi (que também possui elementos coloridos), uma cortina azul dialoga com a severa composição tectônica.



Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 329 Julho de 2007


Lua e Pedro Nitsche formaram-se pela FAU/USP em 1996 e 2000, respectivamente. Desde 2001 mantêm o escritório Nitsche Arquitetos Associados, em São Paulo
A área de lazer ocupa grande parte da plataforma
Caixilhos de alumínio com grandes painéis de vidro interligam interior e exterior
As vigas do pavilhão alternam aço e madeira
Detalhe de um dos dormitórios
O banheiro da suíte principal ocupa parte do eixo da circulação
Assim como a estrutura do pavilhão, os painéis de fechamento são industrializados