Paulo Bruna Arquitetos Associados

Fábrica, Belo Horizonte

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Plantas, cortes e fachadas

Marquise de concreto protege o acesso
A marquise de concreto protege o acesso. A grande quantidade de corrimãos atende à comissão de segurança da empresa
Soluções priorizam fluxos de produção
A produção de valvas cardíacas biológicas é um processo quase cirúrgico, bastante delicado e complexo, que exige absoluto controle em cada etapa a fim de evitar contaminação por micro-organismos. O conjunto arquitetônico da nova fábrica da St. Jude Medical, projetado por Paulo Bruna Arquitetos Associados, apresenta soluções que priorizam fluxos e as diferentes necessidades de cada espaço da indústria, e usa linguagem tecnológica para traduzir a imagem da ciência e da confiabilidade.

As valvas cardíacas biológicas são feitas a partir do tecido de válvulas do coração de animais - suínos e bovinos ou de doadores humanos.

No caso da St. Jude Medical, a matéria-prima utilizada é de origem suína e viaja do interior de Santa Catarina até Pampulha, em Belo Horizonte, onde está situada a filial brasileira da indústria médica norte-americana.

“A produção é artesanal e emprega cerca de 500 costureiros que passaram por seis meses de treinamento. Depois disso, eles tiveram que ser aprovados em um rigoroso processo seletivo que dispensa dez a cada 12 candidatos”, comenta o arquiteto Paulo Bruna, autor, junto com seu filho Pedro, do projeto arquitetônico da unidade fabril.

Balanço e varanda no primeiro andar marcam a volumetria da fachada
Balanço e varanda no primeiro andar marcam a volumetria da fachada
Vista geral do conjunto
Vista geral do conjunto

Originalmente, a fábrica pertencia a um cirurgião cardíaco e situava-se em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em um terreno compacto. Verticalizada e com fluxos caóticos, ela não permitia mais expansões quando foi adquirida pela St. Jude Medical.

A solução era a compra de um terreno para construir um novo prédio em acordo com as necessidades da empresa, que atualmente exporta cerca de 90% de sua produção para Estados Unidos, Europa e Japão.

Com mais de 50 mil metros quadrados de área, dos quais quase a metade é destinada à preservação ambiental, a gleba de 460 metros de comprimento apresenta aclividade bastante acentuada e tem suaparte posterior ocupada por lago e bosque.

Após as ampliações previstas, ainda restarão 150 metros lineares de área de preservação ambiental. O prédio foi acomodado em um platô, o que deu visibilidade à construção e evitou que tivessem de ser feitas intervenções mais significativas e onerosas no terreno.

Segundo Pedro, o cliente queria um volume único para todas as dependências da fábrica, incluindo escritórios e refeitório.

Além disso, era necessário prever estrutura e distribuição espacial já considerando as ampliações pelas quais a planta virá a passar.

A arquitetura de linguagem tecnológica, que traduz uma imagem científica e de confiabilidade, era outro item do programa apresentado pela empresa.

Vidro verde, recepção com fundo de madeira e balcão preto configuram a identidade da empresa em todas as suas unidades
Vidro verde, recepção com fundo de madeira e balcão preto configuram a identidade da empresa em todas as suas unidades
Vidros verdes fecham a caixa de circulação vertical
Vidros verdes fecham a caixa de circulação vertical
Os planos transparentes correspondem ao refeitório, no térreo, e aos escritórios, no piso superior
Os planos transparentes correspondem ao refeitório, no térreo, e aos escritórios, no piso superior

Diferenças culturais entre brasileiros e norte-americanos acabaram surgindo no desenvolvimento do projeto e foram supe- 3 radas. Entre elas estava a exigência inicial de mais de 800 vagas de estacionamento e o estranhamento com o conceito de ônibus fretado, que responde pelo transporte da maioria dos funcionários.

“Nos Estados Unidos cada um vai trabalhar com seu próprio carro, não existe o transporte coletivo privado. Para o cliente não fazia o menor sentido ter menos vagas de estacionamento e precisar reservar lugar para dez ônibus. Mas eles acabaram compreendendo essas diferenças”, explica Paulo.

O grande desafio estava no desenvolvimento de fluxos específicos, um para matérias-primas e produtos, outro para o pessoal dos escritórios e o terceiro, mais complexo, que conduz as equipes de produção pelos ambientes de troca de roupa, calçados e assepsia antes de permitir o acesso ao posto de trabalho.

“Na última etapa os funcionários lavam mãos e braços da mesma forma que os cirurgiões antes de operar”, relata Pedro. Esse percurso tem início no vestiário localizado no térreo, próximo da sala de treinamento, refeitório e demais instalações para uso dos empregados.

A produção forma o desenho de um U e tem em sua parte central todos os setores de apoio, tais como salas com autoclaves para esterilização de instrumentos e laboratórios para o preparo das soluções nas quais as válvulas do coração do animal são imersas até se tornarem tecidos inertes.

Os materiais chegam e saem pelas docas dos fundos do prédio, para onde se voltam as duas extremidades do U. A volumetria do prédio destaca o balanço sobre o acesso principal e o terraço do primeiro pavimento.

Os grandes planos transparentes da fachada marcam a localização de escritórios e áreas de estar, enquanto as faces opacas correspondem a setores da produção, que não podem sofrer exposição ao sol. A estrutura do edifício é pré-fabricada de concreto e a cobertura é do tipo metálica com telhas zipadas, a fim de evitar problemas de infiltração.

A fachada combina dois acabamentos: na área da administração, agregado mineral jateado na cor branca, aplicado sobre argamassa impermeabilizante; e nas superfícies opacas, telhas pré-pintadas aplicadas sobre camada de impermeabilização e manta para isolamento de vapor. Os pisos internos são revestidos por mantas vinílicas e os externos, por porcelanato antiderrapante.


Texto de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 380 Outubro de 2011

Paulo BrunaPedro BrunaPaulo Bruna (FAU/USP, 1963) concluiu pós-doutorado em 1985 no MIT e leciona história da arquitetura contemporânea na pós-graduação da FAU/USP. Foi sócio diretor do Escritório Rino Levi Arquitetos Associados de 1972 a 1992, quando fundou com Roberto Cerqueira César o escritório Paulo Bruna Arquitetos Associados. Pedro Bruna (FAU/ USP, 2000) trabalhou no escritório Cesar Pelli & Associates em New Haven, EUA, de 2002 a 2004. De lá para cá atua no estúdio Paulo Bruna Arquitetos Associados, do qual se tornou sócio em 2007
Detalhe do salão de escritórios, no primeiro andar
Detalhe do salão de escritórios, no primeiro andar
Transparente, o refeitório oferece vista para o entorno
Transparente, o refeitório oferece vista para o entorno
O espelho d’água marca o espaço de transição entre interior e exterior
O espelho d’água marca o espaço de transição entre interior e exterior
A implantação aproveitou o platô do terreno em aclive com 460 metros de extensão
A implantação aproveitou o platô do terreno em aclive com 460 metros de extensão