Paulo Bruna Arquitetos Associados
Fábrica, Belo Horizonte
- Detalhes
- 04 de Janeiro de 2012. Visitas: 7.217
As valvas cardíacas biológicas são feitas a partir do tecido de válvulas do coração de animais - suínos e bovinos ou de doadores humanos.
No caso da St. Jude Medical, a matéria-prima utilizada é de origem suína e viaja do interior de Santa Catarina até Pampulha, em Belo Horizonte, onde está situada a filial brasileira da indústria médica norte-americana.
“A produção é artesanal e emprega cerca de 500 costureiros que passaram por seis meses de treinamento. Depois disso, eles tiveram que ser aprovados em um rigoroso processo seletivo que dispensa dez a cada 12 candidatos”, comenta o arquiteto Paulo Bruna, autor, junto com seu filho Pedro, do projeto arquitetônico da unidade fabril.
Originalmente, a fábrica pertencia a um cirurgião cardíaco e situava-se em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em um terreno compacto. Verticalizada e com fluxos caóticos, ela não permitia mais expansões quando foi adquirida pela St. Jude Medical.
A solução era a compra de um terreno para construir um novo prédio em acordo com as necessidades da empresa, que atualmente exporta cerca de 90% de sua produção para Estados Unidos, Europa e Japão.
Com mais de 50 mil metros quadrados de área, dos quais quase a metade é destinada à preservação ambiental, a gleba de 460 metros de comprimento apresenta aclividade bastante acentuada e tem suaparte posterior ocupada por lago e bosque.
Após as ampliações previstas, ainda restarão 150 metros lineares de área de preservação ambiental. O prédio foi acomodado em um platô, o que deu visibilidade à construção e evitou que tivessem de ser feitas intervenções mais significativas e onerosas no terreno.
Segundo Pedro, o cliente queria um volume único para todas as dependências da fábrica, incluindo escritórios e refeitório.
Além disso, era necessário prever estrutura e distribuição espacial já considerando as ampliações pelas quais a planta virá a passar.
A arquitetura de linguagem tecnológica, que traduz uma imagem científica e de confiabilidade, era outro item do programa apresentado pela empresa.
Diferenças culturais entre brasileiros e norte-americanos acabaram surgindo no desenvolvimento do projeto e foram supe- 3 radas. Entre elas estava a exigência inicial de mais de 800 vagas de estacionamento e o estranhamento com o conceito de ônibus fretado, que responde pelo transporte da maioria dos funcionários.
“Nos Estados Unidos cada um vai trabalhar com seu próprio carro, não existe o transporte coletivo privado. Para o cliente não fazia o menor sentido ter menos vagas de estacionamento e precisar reservar lugar para dez ônibus. Mas eles acabaram compreendendo essas diferenças”, explica Paulo.
O grande desafio estava no desenvolvimento de fluxos específicos, um para matérias-primas e produtos, outro para o pessoal dos escritórios e o terceiro, mais complexo, que conduz as equipes de produção pelos ambientes de troca de roupa, calçados e assepsia antes de permitir o acesso ao posto de trabalho.
“Na última etapa os funcionários lavam mãos e braços da mesma forma que os cirurgiões antes de operar”, relata Pedro. Esse percurso tem início no vestiário localizado no térreo, próximo da sala de treinamento, refeitório e demais instalações para uso dos empregados.
A produção forma o desenho de um U e tem em sua parte central todos os setores de apoio, tais como salas com autoclaves para esterilização de instrumentos e laboratórios para o preparo das soluções nas quais as válvulas do coração do animal são imersas até se tornarem tecidos inertes.
Os materiais chegam e saem pelas docas dos fundos do prédio, para onde se voltam as duas extremidades do U. A volumetria do prédio destaca o balanço sobre o acesso principal e o terraço do primeiro pavimento.
Os grandes planos transparentes da fachada marcam a localização de escritórios e áreas de estar, enquanto as faces opacas correspondem a setores da produção, que não podem sofrer exposição ao sol. A estrutura do edifício é pré-fabricada de concreto e a cobertura é do tipo metálica com telhas zipadas, a fim de evitar problemas de infiltração.
A fachada combina dois acabamentos: na área da administração, agregado mineral jateado na cor branca, aplicado sobre argamassa impermeabilizante; e nas superfícies opacas, telhas pré-pintadas aplicadas sobre camada de impermeabilização e manta para isolamento de vapor. Os pisos internos são revestidos por mantas vinílicas e os externos, por porcelanato antiderrapante.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 380 Outubro de 2011

Paulo Bruna (FAU/USP, 1963) concluiu pós-doutorado em 1985 no MIT e leciona história da arquitetura contemporânea na pós-graduação da FAU/USP. Foi sócio diretor do Escritório Rino Levi Arquitetos Associados de 1972 a 1992, quando fundou com Roberto Cerqueira César o escritório Paulo Bruna Arquitetos Associados. Pedro Bruna (FAU/ USP, 2000) trabalhou no escritório Cesar Pelli & Associates em New Haven, EUA, de 2002 a 2004. De lá para cá atua no estúdio Paulo Bruna Arquitetos Associados, do qual se tornou sócio em 2007


