Ruy Ohtake
Complexo de múltiplo uso Ohtake Cultural, São Paulo-SP
- Detalhes
- 22 de Setembro de 2004. Visitas: 54.487
Fichas técnicas
Fornecedores
Plantas, cortes e fachadas
O prédio mais baixo, em primeiro plano, é o edifício Pedroso de Moraes
Um marco urbano para São Paulo
Um dos mais comentados edifícios de São Paulo nas últimas décadas, o Ohtake Cultural finalmente ficou pronto. Desenhado por Ruy Ohtake, é composto por duas torres de escritórios e um espaço cultural que agrega salas de exposições e de reuniões, ateliês, livraria, teatro e auditório. Cada edifício abre-se para uma via diferente. O arquiteto acredita que o conjunto desafia a lógica do mercado e tem capacidade para modificar o caráter da região.
Não é pelo porte que o Ohtake Cultural chama a atenção: os 32 mil metros quadrados construídos , apesar de não ser pouco, não figuram entre os maiores empreendimentos paulistanos. O Renaissance Hotel , para citar outra obra de Ohtake (leia PROJETO 117, dezembro de 1988), possui quase 50 mil metros quadrados, área parecida com a do Birmann 21 (leia PROJETO DESIGN 205, fevereiro de 1997), edifício de escritórios no mesmo bairro do novo edifício.
No entanto, ao não se alinhar com a produção do mercado local, pela forma ou pelo uso, o prédio destoa na paisagem .
Segundo Ohtake, o projeto tem três características principais. A primeira diz respeito à localização , em interessante vértice urbano. O lote situa-se no encontro de três bairros bem caracterizados. O Alto de Pinheiros , bairro-jardim desenhado pela Cia. City, é reduto de casas unifamiliares para população de renda elevada. A Vila Madalena , de origem pobre, hoje concentra ateliês e vida noturna agitada. O bairro de Pinheiros , por sua vez, é um núcleo histórico que atualmente apresenta conflitos de crescimento desordenado. Para o arquiteto, o conjunto possui a capacidade de dialogar com os três lados.
“Tenho a convicção de que o Ohtake Cultural é importante para a renovação do entorno como referência do contemporâneo”, avalia o arquiteto. Para o Alto de Pinheiros e a Vila Madalena, dada a altura da torre maior, o empreendimento tornou-se visível de longa distância. Em relação a Pinheiros, por sua vez, ele marca a possível transformação do bairro. Desde a abertura do novo trecho da avenida Faria Lima há uma expectativa de modificação do perfil local. Como reflexo disso, a prefeitura (em parceria com o IAB/SP ) organizou um concurso de projetos para a readequação urbanística da área, vencido por Tito Lívio Frascino .
A segunda característica apontada por Ohtake está intimamente ligada à primeira e diz respeito ao papel da arquitetura contemporânea . Para ele, um edifício dessa escala deve atrair o público. Assim, não pode mimetizar-se na paisagem e passar despercebido. Ele cita como exemplos a pirâmide do Louvre , em Paris (de I. M. Pei), o Museu Guggenheim de Bilbao (de Frank Gehry) e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (de Oscar Niemeyer). E mais: “O projeto deve ser compreendido por todos, e não só por aqueles que entendem de arquitetura”, completa o arquiteto. Nesse aspecto, certamente o Ohtake Cultural cumpriu seu papel: para o bem ou para o mal, ninguém fica indiferente a ele . Com isso, seu autor torna público o debate da arquitetura, seguindo o exemplo único, no âmbito nacional, de Niemeyer.
Não é pelo porte que o Ohtake Cultural chama a atenção: os 32 mil metros quadrados construídos , apesar de não ser pouco, não figuram entre os maiores empreendimentos paulistanos. O Renaissance Hotel , para citar outra obra de Ohtake (leia PROJETO 117, dezembro de 1988), possui quase 50 mil metros quadrados, área parecida com a do Birmann 21 (leia PROJETO DESIGN 205, fevereiro de 1997), edifício de escritórios no mesmo bairro do novo edifício.
No entanto, ao não se alinhar com a produção do mercado local, pela forma ou pelo uso, o prédio destoa na paisagem .
Segundo Ohtake, o projeto tem três características principais. A primeira diz respeito à localização , em interessante vértice urbano. O lote situa-se no encontro de três bairros bem caracterizados. O Alto de Pinheiros , bairro-jardim desenhado pela Cia. City, é reduto de casas unifamiliares para população de renda elevada. A Vila Madalena , de origem pobre, hoje concentra ateliês e vida noturna agitada. O bairro de Pinheiros , por sua vez, é um núcleo histórico que atualmente apresenta conflitos de crescimento desordenado. Para o arquiteto, o conjunto possui a capacidade de dialogar com os três lados.
“Tenho a convicção de que o Ohtake Cultural é importante para a renovação do entorno como referência do contemporâneo”, avalia o arquiteto. Para o Alto de Pinheiros e a Vila Madalena, dada a altura da torre maior, o empreendimento tornou-se visível de longa distância. Em relação a Pinheiros, por sua vez, ele marca a possível transformação do bairro. Desde a abertura do novo trecho da avenida Faria Lima há uma expectativa de modificação do perfil local. Como reflexo disso, a prefeitura (em parceria com o IAB/SP ) organizou um concurso de projetos para a readequação urbanística da área, vencido por Tito Lívio Frascino .
A segunda característica apontada por Ohtake está intimamente ligada à primeira e diz respeito ao papel da arquitetura contemporânea . Para ele, um edifício dessa escala deve atrair o público. Assim, não pode mimetizar-se na paisagem e passar despercebido. Ele cita como exemplos a pirâmide do Louvre , em Paris (de I. M. Pei), o Museu Guggenheim de Bilbao (de Frank Gehry) e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (de Oscar Niemeyer). E mais: “O projeto deve ser compreendido por todos, e não só por aqueles que entendem de arquitetura”, completa o arquiteto. Nesse aspecto, certamente o Ohtake Cultural cumpriu seu papel: para o bem ou para o mal, ninguém fica indiferente a ele . Com isso, seu autor torna público o debate da arquitetura, seguindo o exemplo único, no âmbito nacional, de Niemeyer.
Na base, com 25 metros de altura, fica o Instituto Tomie Ohtake; a torre, com 22 pavimentos-tipo,
é coroada por heliponto
é coroada por heliponto
A igreja, também desenhada por Ohtake, ocupa a esquina
O gabarito da torre Faria Lima destaca-se no entorno
O heliponto encontra-se parcialmente em balanço
Para o projetista, edifícios desse porte devem agregar mais de um uso - esse é o terceiro aspecto importante apontado por ele. “Na Vila Olímpia, por exemplo, existe um prédio comercial atrás do outro”, relata Ohtake, descrevendo outro bairro paulistano, não muito distante do Ohtake Cultural, cuja destinação divide-se entre trabalho e cultura: são dois edifícios de escritórios e um instituto cultural.
O primeiro deles destinado ao trabalho é o Pedroso de Moraes , que se abre para a rua de mesmo nome. Ele possui seis pavimentos e tem como característica o escalonamento invertido e as extremidades apoiadas em pilares metálicos, o que lhe rendeu o apelido de Carambola, dado pela população, lembra Ohtake. O espaço é ocupado inteiramente por uma firma de advocacia , que alugou o imóvel justamente pela proximidade do espaço cultural.
A torre agora concluída é a Faria Lima , também nome da avenida para onde se volta o acesso principal. Com 22 andares-tipo (com laje de 620 metros quadrados), o edifício possui planta retangular de extremidades arredondadas. Cada piso pode ser subdividido por dois locatários. O core, orientado para o poente, é destacado por outra curvatura no eixo transversal da edificação. A forma e a coloração desse prédio, que nas perspectivas iniciais possuía vidro em tom magenta, lembram o Renaissance. A torre apresenta três tonalidades de vidro , com dimensões diferentes em seqüência regular. A mudança na fachada se justifica, segundo Ohtake, para evitar a monotonia do tom único e pela economia de material.
No entanto, o coroamento possui outro caráter, marcado pelo heliponto deslocado dos eixos que cortam o prédio. “Procurei fazer um desequilíbrio equilibrado”, relata o autor. A solução desse elemento assemelha-se à de outro projeto paulistano de Ohtake, no Itaim Bibi. Assim como o primeiro edifício comercial do complexo, a torre Faria Lima possui lojas no térreo .
Os três edifícios se organizam de forma bastante livre, e o resultado formal possui uma unidade de lógica própria. Apesar do paralelismo entre as duas edificações, o embasamento aglutinador, destinado ao Instituto Tomie Ohtake, unifica o conjunto, a despeito de seu imenso volume hermético. Enquanto os prédios possuem leitura na escala urbana (de visibilidade do público, como Niemeyer), no interior do instituto, caracterizado pelo detalhe, se reconhecem mais facilmente elementos da trajetória de Ohtake, como guarda-corpos e escada de concreto aparente . O acesso é marcado por uma seqüência de seis painéis curvos de diferentes cores e dimensões, que chamam a atenção do transeunte. A forma lembra outros projetos de Ohtake, como o cartório em Itanhaém (concluído em 1989), litoral paulista.
Com cerca de 4 400 metros quadrados, o Instituto Tomie Ohtake é um ativo centro cultural, com intensa programação. O acesso é conformado por uma pequena praça e o hall se configura à maneira da escola paulista: um grande espaço interno, dividido em níveis e iluminado por abertura zenital . Essa cobertura possui interessante solução, com tesouras metálicas invertidas e alternadas, algumas das quais atirantando o mezanino.
A edificação se divide em seis pisos . Pouco abaixo da cota da rua estão hall, restaurante, biblioteca, livraria, ateliês e espaços de exposição. Nesse piso ficam também os acessos internos, que se ligam ao core das duas torres. Pouco acima do nível da rua, no mezanino, estão sete salas destinadas a mostras. No primeiro andar foi implantado o espaço multiuso, o ball room e respectivo foyer. Um piso acima, estão três salas de reuniões. No terceiro andar ficam o teatro e o auditório, com 560 e 214 lugares, respectivamente. O último pavimento é ocupado por mais cinco salas de reuniões e o acesso ao balcão do teatro.
O instituto reforça a vocação do bairro , de que são exemplos o ex-shopping cultural Ática e atual Fnac , de Paulo Bruna e Roberto Cerqueira César, e o Centro Brasileiro Britânico , de Botti Rubin. Esse esforço é complementado pelo Sesc Pinheiros , desenhado por Miguel Juliano, inaugurado em setembro de 2004.
Interessante notar que a mistura de usos foi reforçada, por obra do acaso, pela presença de uma igreja presbiteriana . Localizada na esquina da rua Coropés com a avenida Faria Lima, ela foi objeto de polêmica acerca de sua desapropriação, já que o espaço (de caráter arquitetônico desprezível), segundo seus defensores, marcava a presença nipo-brasileira no bairro. O traçado da nova Faria Lima foi modificado para que a igreja permanecesse. No meio da construção do complexo projetado por Ohtake, os proprietários da torre fizeram um acordo com a igreja e o arquiteto desenhou, para o mesmo local, uma nova edificação, que possui ainda dois subsolos e integrou-se à linguagem arquitetônica adotada. Com isso, diminuiu-se o recuo entre o empreendimento e o templo, além de o complexo comercial ganhar potencial construtivo.
O laboratório farmacêutico Aché , proprietário do empreendimento, é cliente de Ohtake desde os anos 1960. Direta e indiretamente, essa parceria rendeu diversos frutos: o edifício do próprio laboratório (que passou por diversas ampliações, e cujo projeto inicial concedeu prêmios e visibilidade à obra do arquiteto) e o Hotel Unique .
Com esse complexo em Pinheiros, mais uma vez Ruy Ohtake estabelece uma ponte entre a arquitetura de Niemeyer e a escola paulista. Não dos pontos de vista formal ou ideológico, dos quais o arquiteto afasta-se cada vez mais. Mas pela visibilidade do projeto, misturada a elementos recorrentes da própria obra de Ohtake, que, queiram ou não, é marcada a ferro e fogo pelo brutalismo caipira.
O primeiro deles destinado ao trabalho é o Pedroso de Moraes , que se abre para a rua de mesmo nome. Ele possui seis pavimentos e tem como característica o escalonamento invertido e as extremidades apoiadas em pilares metálicos, o que lhe rendeu o apelido de Carambola, dado pela população, lembra Ohtake. O espaço é ocupado inteiramente por uma firma de advocacia , que alugou o imóvel justamente pela proximidade do espaço cultural.
A torre agora concluída é a Faria Lima , também nome da avenida para onde se volta o acesso principal. Com 22 andares-tipo (com laje de 620 metros quadrados), o edifício possui planta retangular de extremidades arredondadas. Cada piso pode ser subdividido por dois locatários. O core, orientado para o poente, é destacado por outra curvatura no eixo transversal da edificação. A forma e a coloração desse prédio, que nas perspectivas iniciais possuía vidro em tom magenta, lembram o Renaissance. A torre apresenta três tonalidades de vidro , com dimensões diferentes em seqüência regular. A mudança na fachada se justifica, segundo Ohtake, para evitar a monotonia do tom único e pela economia de material.
No entanto, o coroamento possui outro caráter, marcado pelo heliponto deslocado dos eixos que cortam o prédio. “Procurei fazer um desequilíbrio equilibrado”, relata o autor. A solução desse elemento assemelha-se à de outro projeto paulistano de Ohtake, no Itaim Bibi. Assim como o primeiro edifício comercial do complexo, a torre Faria Lima possui lojas no térreo .
Os três edifícios se organizam de forma bastante livre, e o resultado formal possui uma unidade de lógica própria. Apesar do paralelismo entre as duas edificações, o embasamento aglutinador, destinado ao Instituto Tomie Ohtake, unifica o conjunto, a despeito de seu imenso volume hermético. Enquanto os prédios possuem leitura na escala urbana (de visibilidade do público, como Niemeyer), no interior do instituto, caracterizado pelo detalhe, se reconhecem mais facilmente elementos da trajetória de Ohtake, como guarda-corpos e escada de concreto aparente . O acesso é marcado por uma seqüência de seis painéis curvos de diferentes cores e dimensões, que chamam a atenção do transeunte. A forma lembra outros projetos de Ohtake, como o cartório em Itanhaém (concluído em 1989), litoral paulista.
Com cerca de 4 400 metros quadrados, o Instituto Tomie Ohtake é um ativo centro cultural, com intensa programação. O acesso é conformado por uma pequena praça e o hall se configura à maneira da escola paulista: um grande espaço interno, dividido em níveis e iluminado por abertura zenital . Essa cobertura possui interessante solução, com tesouras metálicas invertidas e alternadas, algumas das quais atirantando o mezanino.
A edificação se divide em seis pisos . Pouco abaixo da cota da rua estão hall, restaurante, biblioteca, livraria, ateliês e espaços de exposição. Nesse piso ficam também os acessos internos, que se ligam ao core das duas torres. Pouco acima do nível da rua, no mezanino, estão sete salas destinadas a mostras. No primeiro andar foi implantado o espaço multiuso, o ball room e respectivo foyer. Um piso acima, estão três salas de reuniões. No terceiro andar ficam o teatro e o auditório, com 560 e 214 lugares, respectivamente. O último pavimento é ocupado por mais cinco salas de reuniões e o acesso ao balcão do teatro.
O instituto reforça a vocação do bairro , de que são exemplos o ex-shopping cultural Ática e atual Fnac , de Paulo Bruna e Roberto Cerqueira César, e o Centro Brasileiro Britânico , de Botti Rubin. Esse esforço é complementado pelo Sesc Pinheiros , desenhado por Miguel Juliano, inaugurado em setembro de 2004.
Interessante notar que a mistura de usos foi reforçada, por obra do acaso, pela presença de uma igreja presbiteriana . Localizada na esquina da rua Coropés com a avenida Faria Lima, ela foi objeto de polêmica acerca de sua desapropriação, já que o espaço (de caráter arquitetônico desprezível), segundo seus defensores, marcava a presença nipo-brasileira no bairro. O traçado da nova Faria Lima foi modificado para que a igreja permanecesse. No meio da construção do complexo projetado por Ohtake, os proprietários da torre fizeram um acordo com a igreja e o arquiteto desenhou, para o mesmo local, uma nova edificação, que possui ainda dois subsolos e integrou-se à linguagem arquitetônica adotada. Com isso, diminuiu-se o recuo entre o empreendimento e o templo, além de o complexo comercial ganhar potencial construtivo.
O laboratório farmacêutico Aché , proprietário do empreendimento, é cliente de Ohtake desde os anos 1960. Direta e indiretamente, essa parceria rendeu diversos frutos: o edifício do próprio laboratório (que passou por diversas ampliações, e cujo projeto inicial concedeu prêmios e visibilidade à obra do arquiteto) e o Hotel Unique .
Com esse complexo em Pinheiros, mais uma vez Ruy Ohtake estabelece uma ponte entre a arquitetura de Niemeyer e a escola paulista. Não dos pontos de vista formal ou ideológico, dos quais o arquiteto afasta-se cada vez mais. Mas pela visibilidade do projeto, misturada a elementos recorrentes da própria obra de Ohtake, que, queiram ou não, é marcada a ferro e fogo pelo brutalismo caipira.
Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETO DESIGN
Edição 295 Setembro de 2004
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETO DESIGN
Edição 295 Setembro de 2004

Tesouras metálicas, invertidas e alternadas,
apóiam a cobertura e atirantam a laje do mezanino
apóiam a cobertura e atirantam a laje do mezanino
Cores e formas tornam o conjunto um marco urbano
No core, o volume ganha curvatura
e vidros de coloração diferente
e vidros de coloração diferente
O volume da base é revestido por placas coloridas
com diferentes dimensões
com diferentes dimensões
Grandes caixilhos conferem transparência ao hall
da torre Faria Lima
da torre Faria Lima
O acesso à torre Faria Lima é marcado pelo
volume negro da caixa do palco do teatro
volume negro da caixa do palco do teatro
Uma pequena praça define a entrada do Instituto Tomie Ohtake
O hall com cobertura de vidro caracteriza o interior do instituto


