A crítica de arquitetura, crise da crítica?

Ruth Verde Zein

Cinco perguntas aos críticos de arquitetura
A revista PROJETODESIGN (edição 266, abril 2002) e o portal ARCOweb promovem um debate a respeito da crítica de arquitetura no Brasil.

A questão é polêmica, como pode ser observado
nas respostas de alguns dos principais profissionais em atividade em nosso país.
Pode-se dizer que há crítica de arquitetura no Brasil, atualmente?
Talvez não como atividade institucionalizada e reconhecida, mas sim, certamente, como vontade e busca por parte de muitos profissionais que insistem em pensar, pesquisar, reflexionar e debater arquitetura.

Sobrevivemos, teimosamente, à revelia da gradual oclusão do pouco espaço crítico na mídia especializada, que foi duramente conquistado a partir dos anos 1980. Em compensação, o mercado editorial para livros vem conhecendo certo crescimento, que, esperamos, se consolide e amplie.
Qual é (ou deveria ser) a formação do crítico de arquitetura? Não-arquitetos podem desempenhar essa função?
Para falar, escrever e pensar sobre qualquer assunto é preciso apreciá-lo, conhecê-lo, estudá-lo, e manter-se atualizado e informado sobre o estado-da-arte daquele campo do conhecimento e/ou território do fazer.

Quem a tanto se habilite, disponha de razoável base conceitual e filosófica e tenha alguma facilidade de expressão, poderá exercer com qualidade e pertinência a crítica - no caso, de arquitetura.

Já a excelência, como em qualquer atividade, só virá com o tempo e com o esforço constante - mesmo quando nasce e se desenvolve a partir de uma vocação.
Qual o papel do crítico de arquitetura, ou seja, para que (e para quem) serve a crítica?
Certamente não será o papel do papagaio do pirata, que fica no ombro do chefe bajulando-o e repetindo suas ordens. Tampouco precisa ser o de professor, embora na nossa realidade um pouco de didatismo e clareza sejam bem-vindos.

A crítica de arquitetura é uma atividade criativa, e provavelmente não ´serve´ para nada - mas, como a arte, é uma expressão ineludível da condição humana. E assim será apreciada, por quem o quiser.
A linguagem da crítica especializada, muitas vezes, é hermética (não por falta de conhecimento, mas em geral por excesso de jargão e falta de clareza). Em sua opinião, qual deveria ser a linguagem adotada pelos críticos?
Dizia Oswald de Andrade: ´o povo ainda há de provar do meu fino biscoito´.

Em respeito ao leitor, o crítico não deve subestimá-lo. Mas para isso deve escrever fácil - que é a mais difícil maneira de escrever.
Quais são os espaços para o exercício da crítica de arquitetura no Brasil atualmente? São suficientes e adequados ou precisaria haver mais espaços em outros veículos de comunicação, até na mídia geral, à semelhança do que existe em países europeus e mesmo na Argentina e Chile, entre outros?
Os sites de arquitetura são hoje o espaço mais flexível e apropriado para o debate e a crítica. Talvez por sofrerem menos com a limitação de ´espaço´, dão abertura à qualidade, que nem sempre se coaduna com a necessidade de resumir sua opinião sobre todo e qualquer tema em dez linhas.

As revistas estão cada vez mais superficiais e imediatistas, pouco espaço oferecendo à crítica, que já não comparece nem mesmo nas descrições das obras, feitas com demasiados adjetivos e pouca substância.

Quanto aos jornais, enquanto forem pagos por anúncios imobiliários, não haverá abertura efetiva para a crítica de arquitetura em seu meio. Ou, em outros termos: enquanto arquitetura for vista apenas como negócio, e não também como cultura, o espaço para a crítica sempre será tacanho, seja qual for o meio em que pronuncie.”
Clique nas fotos para ler as respostas
dos críticos.
Ana Luíza Nobre
Roberto Segre
Ruth Verde Zein é arquiteta pela FAU/USP (1977), mestre em teoria, história e crítica da arquitetura pela UFRGS (2000), professora das universidades Mackenzie e Anhembi Morumbi, e autora de mais de uma centena de artigos publicados em revistas brasileiras e internacionais
Edson Mahfuz