Walid Yazigi
Edifícios residenciais, São Paulo
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- 21 de Setembro de 2009. Visitas: 21.110
Em São Paulo, caso exemplar é o da Formaespaço, (1) construtora que levou mais a fundo a ideia da industrialização na habitação coletiva e construiu projetos desenhados por, entre outros, Eduardo de Almeida e Abrahão Sanovicz. E dos irmãos Helcer, donos da Auxiliar, que desenvolveram uma série de prédios com Franz Heep. Alguns desses construtores que valorizaram a arquitetura correm o risco de ser esquecidos, o que seria um desserviço. Walid Yazigi, responsável por edifícios assinados por Paulo Mendes da Rocha, Miguel Juliano, Botti Rubin e Salvador Candia, por exemplo, é um incorporador que tem uma história para contar.
Do oitavo andar do prédio de vidros amarronzados desenhado por Roger Zmekhol, na avenida Paulista, o parque Trianon parece um carpete verde. “É mata atlântica preservada. Um milagre ter sobrevivido”, suspira Walid Yazigi. Aos 73 anos, o engenheiro civil desfruta há mais de 25 desta vista que tem ainda o Masp em primeiro plano. Sua sala de 50 metros quadrados tem a melhor vista do escritório, além de uma pequena estante - a grande maioria dos livros são antigos volumes sobre técnica construtiva -, uma mesa de reuniões com oito lugares, poltronas, mesa de trabalho e banheiro. Uma divisória de vidro permite que ele observe a área onde sua equipe trabalha. Conhecido por ser autor do best-seller A arte de edificar, (2) atualmente indo para a décima edição, Yazigi foi presidente do conselho do Sinduscon e é dono de uma construtora que leva seu sobrenome.
Ele é paulistano, filho de imigrante libanês. Seu pai sustentou a família com uma fábrica de tecidos. Com cinco irmãs, Walid passou a infância em uma casa confortável na alameda Rio Claro, a poucos metros do local onde trabalha. A engenharia surgiu com naturalidade: não queria dar continuidade aos negócios do pai e sempre foi bom aluno. Yazigi entrou na Escola Politécnica da USP. Durante o curso de engenharia civil, fez estágios na empresa de cálculo “do Vasco, sabe?”, diz, em referência ao calculista Augusto Carlos de Vasconcellos. Também trabalhou na construtora Teca, “que era comandada por Nelson Acar e por Zake Tacla, que era meu tio”.
Walid Yazigi formou-se em 1958, quando a construção de Brasília estava a pleno vapor. Com um ano de formado abriu um pequeno escritório no centro da cidade, na rua Xavier de Toledo, e foi à luta por encargos. Logo surgiram encomendas da família: a pedido do avô materno, fez um conjunto de sobrados na altura do número 360 da alameda Lorena, “que não existem mais”. Em seguida, fez sobrados na Vila Mariana, com dinheiro do pai e do tio, que eram sócios na tecelagem. Esses projetos foram confiados a um arquiteto que trabalhava para a Teca.
O clube e os arquitetos
Nessa mesma época, Yazigi começou, sem planejar, a se aproximar de alguns arquitetos paulistas modernos. O estopim desse processo ocorreu em 1963, quando integrava a diretoria do Clube Sírio Libanês. Nessa época, a associação realizou um concurso de arquitetura para sua sede, localizada em Indianópolis, bairro da zona sul de São Paulo, entre o parque Ibirapuera e aeroporto de Congonhas. Venceu a disputa o projeto realizado pela equipe de Pedro Paulo de Melo Saraiva, Sami Bussab e Miguel Juliano.
Ainda em 1963, Yazigi comprou um terreno no Jardim Paulistano e ergueu sua casa, projetada por Plínio Croce e Roberto Aflalo. No final da década, com dez anos de formado, finalizou a construção de seu primeiro grande prédio, em São Vicente, litoral paulista. Com 336 apartamentos e 13 lojas no térreo, o projeto foi entregue a Labib Yamim, arquiteto aparentado de sua mulher. Entre 1970 e 1972 (as datas no catálogo da construtora (3) se referem sempre à conclusão da obra e não do projeto), ele finalizou outros quatro prédios, com a assessoria de Miguel Juliano, autor de pequenas modificações em projetos aprovados, que vieram juntos no pacote, em terrenos comprados pelo empreendedor.
No Paraíso
Ainda em 1972, Yazigi finalizou a construção dos dois primeiros prédios encomendados a arquitetos vinculados à escola paulista. Situados no bairro do Paraíso, os edifícios Marie (na avenida Brigadeiro Luís Antônio) e Marisa (na rua Tutóia) foram desenhados por Juliano. Se a lâmina em I do Marie acompanha o lote tradicional, com frente estreita e fundo comprido, a disposição em H do Marisa foi favorecida pela grande testada. Em comum, ambos possuem estrutura aparente e externa ao volume. Os dois edifícios de Juliano sobrevivem dignamente - a mudança mais visível é a retirada da proteção das janelas de sanitários voltadas para a fachada frontal. “Os condôminos acharam feio”, conta Yazigi.
No ano seguinte, Yazigi e Juliano concluíram mais dois empreendimentos: o Dona Rachel, na rua Frei Caneca, e um conjunto de seis prédios na Vila Mariana, com pouco mais de 47 mil metros quadrados de área construída - o maior já edificado por Yazigi. “Foi encomenda de um médico. Mas ele queria aproveitar ao máximo o lote e o conjunto ficou muito apertado. O Dona Rachel tem esse nome por causa da mãe de João Saad; foi construído para a Aricanduva, uma imobiliária que ele tinha”, conta o engenheiro. O Dona Rachel possui proteção de sanitários da fachada principal semelhantes à do Marie, enquanto os seis prédios da Vila Mariana têm a configuração em I e estrutura aflorada do volume, tal como o Marisa. Ainda em 1973, o dono da Rede Bandeirantes recebeu de Yazigi as chaves de outro prédio: o Maria Leonor, na rua Vasconcelos Drumond, na Vila Monumento. Desenhado por Salvador Candia, o prédio desconhecido, (4) do ponto de vista arquitetônico, é um dos mais significativos construídos por Yazigi, que foi chamado para executá-lo quando o projeto de Candia já estava pronto.
Botti Rubin e Burle Marx
Em 1974, a construtora Yazigi finalizou outros dois edifícios. O primeiro deles é o Paula - nome de uma das filhas do engenheiro -, na rua Apiacás, em Perdizes. Adivinhe de quem é o projeto? Acertou quem respondeu Miguel Juliano. Dentre todos os arquitetos que trabalharam com Yazigi, Juliano foi aquele que mais encargos recebeu: são pelo menos 15 empreendimentos (mais quatro consultorias). A medalha de prata vai para o escritório Botti Rubin, com dez projetos, o primeiro deles finalizado justamente em 1974. Trata-se do edifício Jardim América, na rua da Consolação. Todo em concreto, o prédio possui 153 apartamentos distribuídos em 31 mil metros quadrados de área construída. Um dos destaques são os jardins de Burle Marx.
Nos três anos seguintes, Juliano recebeu duas encomendas por ano. Em 1975, ele criou o Ipê (com pequenos apartamentos na avenida Francisco Matarazzo) e o Alef (na rua Costa), em cuja sobreloja manteve seu escritório de arquitetura durante vários anos. Em 1976, foi a vez do Gabriel Gonçalves (também com pequenos apartamentos e lojas, na avenida Casper Líbero) e do Juliana (na alameda dos Maracatins). Este edifício, pouco conhecido, possui a clareza das melhores composições do arquiteto: apenas seis pilares nas laterais (mais o núcleo central), o que deixa livre a fachada menor - voltada para a rua -, com uma janela contínua dos três dormitórios. Por fim, em 1977, Yazigi e Juliano fizeram o Cláudia (uma lâmina residencial com lojas no térreo, na esquina da rua Cubatão com a Eça de Queiroz) e a sede da Sharp, o mais significativo desenho feito pelo arquiteto por encomenda do engenheiro.
“Quatro paredes-cortinas”
O prédio da Sharp foi construído no terreno da casa em que Yazigi cresceu. Além de vender o lote para a família Mach-line, ele construiu a sede da empresa de eletroeletrônicos. Inicialmente, estavam previstos jardins de Burle Marx. Contudo, depois de um almoço em que apresentou o paisagista ao contratante (e a sua mulher), Burle Marx desistiu do encargo. Ao que parece, ele não gostou das opiniões da esposa, que tinha “um jardineiro de confiança”, conta o engenheiro. Quando ficou pronto, o edifício chamou a atenção de Pietro Maria Bardi em uma de suas caminhadas diárias nas redondezas do Masp, após o almoço. Em sua coluna na revista Visão, (5) Bardi escreveu: “Dentro do espírito de racionalismo, não do racionalismo dos tempos do seu lançamento, ainda muito dependente da função por razões polêmicas, Juliano resolveu perfeitamente o problema do organismo em combinação com a estrutura formada por quatro paredes-cortinas que permitem e propiciam conveniente utilização do espaço”. As lâminas estruturais, calculadas por Mario Franco, partem das fachadas voltadas para as ruas Rio Claro e Pamplona e, com vãos quase regulares, delimitam o core central. Nas fachadas, por sua vez, “o arquiteto cuidou de ajeitar no seu prédio um tipo de brise-soleil que, a seu modo, representa a proposta de se servir do sistema lecorbusiano, através de diagramas bem combinados, uma proposta que revisiona a função e a estética do elemento fachada, desvinculando-a do esquema secular da janela”, escreveu Bardi.
A maior parte das obras concluídas nos anos 1980 é do escritório Botti Rubin (Juliano desenhou no mesmo período o Barbi, um prédio de apartamentos nos Campos Elísios, e o Paraíso, um de escritórios na rua Vergueiro). Um dos destaques da parceria é o edifício Ibirapuera (finalizado em 1981), na avenida Conselheiro Rodrigues Alves, na Vila Mariana. Também construída por encomenda de Saad, a torre de concreto possui quase 30 andares. Outro projeto que Botti Rubin realizou no período e que chama a atenção é o Shopping Center Jabaquara (finalizado em 1988). O conjunto é composto por dois edifícios gêmeos, com planta circular. Nos dois primeiros pisos ficam as lojas; nos três superiores, apartamentos cuja circulação comum é aberta para o átrio do centro de compras. “A idéia do proprietário era que o espaço fosse ocupado por um shopping de informática, mas não vingou. Hoje é um pequeno shopping convencional”, conta Yazigi.
Periferia
Até então, a atuação da construtora Yazigi era focada na classe média, em terrenos da área central, região da Paulista e Moema. Nessa década, começou a fazer conjuntos de apartamentos mais populares, na periferia. A tipologia mudou: prédios baixos, sem elevador, em grandes terrenos. Um deles é o Conjunto Residencial Paratibe (1983), em Artur Alvim, zona leste da cidade. No catálogo de projetos da empresa, o projeto consta como do arquiteto Raymundo de Paschoal. “Na verdade quem fez foi Satoro Nagai, do escritório de Sami Bussab”, conta Yazigi. Com 260 apartamentos e um centro comunitário, o complexo possui 13 prédios em H, com cinco andares, estruturados em alvenaria autoportante. Nagai, que desenvolveu outras propostas semelhantes para Yazigi - como o Vila Verde (no Capão Redondo, finalizado em 1996) e o Parque das Flores (no Jardim Ângela, em execução), desenhou também a logomarca da construtora. “Ele é ótimo. Mas tem uma coisa: trabalha só de noite. Quando tenho que falar com ele, ligo lá de casa”, diz Yazigi.
Na década de 1990, Yazigi construiu seis prédios. Entre eles, um de escritórios com nove andares, erguido para a família de sua mulher. Trata-se do edifício JJA, na rua Apeninos. O desenho ficou a cargo de Renato Lenci, que foi sócio de Carlos Bratke no início da carreira. “Ele morreu muito jovem, nem viu o prédio”, lembra o engenheiro. Também foi finalizado nos anos 1990 o Jardim das Orquídeas, de Botti Rubin, com 225 apartamentos.
O mesmo escritório desenhou para Yazigi o edifício Santa Maria, de alto padrão e apenas nove apartamentos. O engenheiro mudou-se da casa de Croce e Aflalo para a cobertura, no Itaim Bibi. O prédio possui estrutura de concreto e fechamento de alvenaria pintada. “O condomínio mudou a cor original dos blocos. Eu não briguei, mas está tudo conservado. O térreo está em ordem, com cadeiras Barcelona etc. Se tentassem colocar aquelas coisas pavorosas, clássicas, aí eu não iria deixar”, argumenta Yazigi, que tem horror às construções neoclássicas que infestam São Paulo.
Obra-prima e notícia rara
A poucos passos de sua casa, há outro prédio de apartamentos construído por ele. É o mais famoso e seu preferido: o edifício Aspen, de Paulo Mendes da Rocha. Na ocasião em que o projeto foi publicado, o arquiteto escreveu: “Hoje em dia no mercado imobiliário só há apartamentos que parecem um castelo medieval em miniatura, todo compartimentado. Talvez por minha educação, conheço as virtudes da espacialidade, de um salão grande, porque posso tocar piano, ou jogar bilhar, ou ter uma biblioteca. Não acredito nessa padronização do mercado; acho que há uma luta surda entre os arquitetos e esses empreendedores porque eles querem uma fórmula, assim qualquer um faz uma planta com sala em L etc.”. Na continuação do texto, Mendes da Rocha descreve o projeto. “Não é uma casa, mas queria que tivesse as virtudes das casas que conhecemos há mais tempo”, começa.
Na década atual, Yazigi continua produzindo, mesmo que em número menor. Além do conjunto habitacional citado, concluiu recentemente o Espaço Duo Leopoldo, no Itaim Bibi. Desenhado pelo escritório Aflalo & Gasperini, o projeto é composto por duas torres com unidades dúplex de 130 metros quadrados. Outro trabalho recém-concluído é o Solar das Perdizes, na rua Herculano, de Miguel Juliano.
1 - Imbronito, Maria Isabel. “Três edifícios de habitação para a Formaespaço: Modulares, Gemini e Protótipo”, São Paulo, dissertação de mestrado na FAU/USP, 2003.
2 - Yazigi, Walid. A arte de edificar, São Paulo, Pini/Sinduscon, 1997.
3 -Yazigi, Walid. Catálogo da Construtora Yazigi Ltda. São Paulo, edição do autor, 1997.
4 - Destaque-se a importância de pesquisas em arquivos paralelos, como o da Construtora Yazigi: o edifício de apartamentos de Candia não consta do arquivo do arquiteto. Parte da história dos prédios de apartamentos em São Paulo, principalmente no capítulo em que a arquitetura foi valorizada, estão dando sopa em arquivos de construtoras, à espera de um pesquisador paciente.
5 - Bardi, Pietro Maria. Revista Visão, São Paulo, Editora Visão, junho de 1979.
Edição 353 Julho de 2009

