Fernando Lara

PROJETODESIGN: 25 anos de arquitetura brasileira em revista

Ritos de passagem são ótimos catalisadores para uma reflexão, ainda que rápida, sobre as experiências passadas e indagações sobre o futuro.

Fazemos isso todo ano no réveillon, nos discursos de formatura, nas transferências de poder.
Devíamos fazer isso também quando alcançamos bodas de ouro ou prata, mas quase sempre a emoção nos invade e transforma tudo em prazeres e glórias.

No Brasil, uma revista de arquitetura completar 25 anos já é, em si, tarefa heróica e digna de celebração. Se não me engano, esse feito foi alcançado apenas por Acrópole (1938-71) e agora por PROJETODESIGN.
Mas um pouco antes (ou depois) da festa cabe rever de maneira crítica, mesmo que brevemente, a trajetória desses 25 anos de casamento da revista com os arquitetos. Para tanto, utilizei uma base de dados, fornecida pela própria publicação, com mais de 3124 itens entre artigos, reportagens e projetos, publicados de 1978 a 2000.
O mapa e gráfico que acompanha este texto foi elaborado com base nesse conjunto de informações.

O surgimento da revista coincide com o início da abertura e do lento processo de redemocratização. Seus primeiros números abordam o retorno dos exilados e a reorganização das entidades de classe, criticam o BNH-Banco Nacional da Habitação e a truculência de algumas das grandes obras do governo militar, revelam uma publicação muito afinada com o IAB e a participação política dos arquitetos.
Afinal de contas, PROJETODESIGN nasceu do jornal Arquiteto, editado pelo sindicato da categoria em São Paulo. Com a evolução gradual da abertura política, a revista entra nos anos 1980 chamando a atenção para o déficit habitacional, a carência de equipamentos sociais urbanos e a precariedade dos sistemas de transporte de massa.

Qualquer semelhança com os problemas atuais não
pode ser mera coincidência
, e o documento resultante
do 10º Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em Brasília (edição 17, dezembro de 1979), continua atualíssimo. Do conteúdo publicado nesse período, destacam-se os edifícios administrativos (marca da arquitetura dos anos 1970), a habitação popular e os terminais de transporte. O governo ainda investia nessas áreas com bons projetos, analisados na revista por Anita Regina di Marco, Ruth Verde Zein e Carlos Nelson. Também digno de nota é o pequeno número de projetos e obras internacionais publicados, reflexo tanto da preocupação maior com o Brasil quanto da falta de inserção e intercâmbio naquele momento.

Nos anos 1980, PROJETODESIGN firma-se como a principal revista brasileira de arquitetura e vai gradualmente acompanhando as transformações por que passavam o país e os arquitetos. Diversifica-se a participação regional na revista, com mais espaço para arquiteturas do Sul e do Nordeste, em detrimento do Rio de Janeiro, já que São Paulo sempre contribuiu com cerca de metade do total de obras publicadas. Consolida-se a crítica, capitaneada por Hugo Segawa, Ruth Verde Zein e Cecília Rodrigues dos Santos, e o debate sobre a pós-modernidade (em sua versão mineira ou internacional) torna-se o tema principal. Diminui o espaço dedicado à habitação popular e aos edifícios administrativos (públicos ou privados) e percebe-se, a partir de então, um aumento da presença de edifícios culturais, que será crescente até os dias de hoje.

O final da década de 80, que corresponde às turbulências do governo Sarney, revela crescimento significativo de projetos e obras de interiores publicados. Cabe indagar se a ênfase em interiores foi reflexo da crise econômica ou de uma tendência mais duradoura, que aponta para redefinições do campo de trabalho da arquitetura.

Esse movimento não acontece apenas em relação ao campo de trabalho. Aquilo que é valorizado pelos arquitetos e, conseqüentemente, publicado (ou seria o contrário?) muda significativamente no início dos anos 1990. Junto com a era Collor explode o número de obras e projetos estrangeiros na revista. Interessante perceber que a arquitetura argentina tem lugar de destaque, junto da Espanha, e à frente de EUA, França e Itália (nessa ordem), e que outros vizinhos latinos, como o México e o Chile, também mereceram espaço significativo nesses 25 anos de PROJETODESIGN.

O início da década de 1990
trouxe também para as páginas da revista nomes como Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha e Lelé, que não tiveram destaque nos
pós-modernos anos 1980. Em conteúdo, é cada vez menor o espaço dedicado a habitação popular (sinal dos tempos?), terminais de transporte e edifícios administrativos, e cada vez maior o número de equipamentos culturais (públicos
ou privados) publicados.

A primeira metade dos anos 1990 marca também a maior diversidade regional das obras e projetos presentes na publicação, com destaque para Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul, de onde novas gerações vieram se juntar aos arquitetos de Minas Gerais e Rio de Janeiro, que já vinham desde os anos 1980 empatados num distante segundo lugar.

Na segunda metade dos anos 1990
, uma grande reforma editorial diminui o espaço dedicado pela revista à crítica e dá ênfase ainda maior ao design e aos projetos de interiores. Aumenta também o espaço destinado aos grandes escritórios (desde a série homônima publicada em 1994) e fica mais tênue a relação entre a revista e as entidades de classe (IAB, Crea e Abea).

PROJETODESIGN acompanha as transformações por que passa a profissão, tornando-se ao mesmo tempo mais diversificada em termos de atividades e também mais individualista, mais fragmentada. Curiosamente, diminui o número de obras estrangeiras publicadas, apontando para uma redescoberta dos problemas e soluções nacionais, ao mesmo tempo em que explode lá fora o número de artigos sobre o Brasil (leia mais).

Em linhas gerais, a revista não destacou, nesses 25 anos, nenhum arquiteto em especial, trazendo grande diversidade de nomes. No entanto, a força da economia paulista faz concentrar nesse estado quase a metade das obras publicadas. Vale lembrar que São Paulo representa 35% do PIB nacional e cerca de 30% dos arquitetos do país, e a revista destaca a produção paulista de arquitetura numa proporção um pouco acima desses números.
Sob essa visão parece não ter havido regionalização nos últimos 25 anos, mas uma análise qualitativa das obras publicadas revela um significativo aumento de diversidade, a ponto de não podermos delimitar escolas regionais.

Ecos da escola carioca dos anos 1940-50 ressoam no país inteiro, assim como influências da escola paulista dos anos 1960 e da pós-mineiridade dos anos 1980. O que se vê, e isso a revista também revela, é uma fragmentação de formas e atitudes perante o projeto. Por um lado, crescem as áreas em que o arquiteto pode exercer sua profissão, do design ao planejamento urbano, passando pela produção cultural, editoração e docência (esta sim aumentou exponencialmente nos últimos 25 anos); por outro, torna-se tênue e frágil a definição do campo da arquitetura, minando qualquer articulação coletiva mais abrangente.

Vinte e cinco anos depois de fundada naquele ambiente de cautela e esperança que vinha com os ventos da abertura política, PROJETODESIGN comemora suas bodas de prata no momento em que chega ao governo federal um movimento nascido na mesma época e no mesmo lugar.

O governo que se inicia tem enfatizado que a construção civil exerce papel fundamental na geração de empregos e no desenvolvimento, e sinaliza com a criação de um ministério das cidades (O ministério já fora criado à epoca da publicação do artigo).

Problemas do planejamento urbano, do transporte e dos equipamentos públicos serão objeto da pauta e do esforço dos arquitetos? Retornará a habitação popular a ser destaque, como nos anos 1970? A profissão se tornará menos cosmética e enfrentará de forma mais coerente e atuante os desafios atuais?

As bodas de prata da revista não poderiam ter acontecido em melhor hora, tanto para refletirmos sobre os últimos 25 anos quanto para fazermos planos para os próximos 25.
E agora, arquitetos?


Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 275 Janeiro 2003
Fernando Lara é arquiteto, doutor pela Universidade de Michigan (EUA) e professor
na PUC-MG, em Belo Horizonte
 
O início no boletim Arquiteto: " No Brasil, uma revista de arquitetura completar 25 anos já é, em si, tarefa heróica e digna de celebração"
 
 
 
Capas de PROJETODESIGN, desde seu início. A controvérsia sobre as “datas de aniversário” da revista ocorre por uma questão de critério: o ponto de partida pode ser o número zero da revista (1977) ou o lançamento do jornal "Arquiteto", em 1972, reproduzido aodo
 
Edição 241:novo visua em março de 2000
 
Distribuição das publicações por Estado desde o nascimento da revista, em 1977